[1] Este pensamento é expresso pelo Apóstolo em outro lugar, no qual diz: “A carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus”. Estas palavras são interpretadas pelos hereges, segundo a sua demência, para demonstrar que a criatura de Deus não se pode salvar.
[2] Eles não vêem que são três os elementos, como dissemos, que constituem o homem perfeito: a carne, a alma e o Espírito; um que salva e plasma, isto é, o Espírito; outro, que é unido e formado, isto é, a carne; e o terceiro, que se encontra entre estes dois, isto é, a alma, que ora segue o Espírito e é elevada por ele, ora se deixa convencer pela carne e cai nas concupiscências terrenas.
[3] Os que não possuem o elemento que salva e forma para a vida são carne e sangue e serão chamados justamente assim, porque não têm neles o Espírito de Deus.
[4] Por isso ainda o Senhor os chama mortos: “Deixai, diz ele, que os mortos enterrem seus mortos”, porque não possuem o Espírito que vivifica o homem.
[5] Os, porém, que temem a Deus e crêem na vinda de seu Filho e, mediante a fé, põem o Espírito de Deus no seu coração, serão justamente chamados homens puros, espirituais, viventes para Deus, porque possuem o Espírito do Pai que purifica o homem e o eleva à vida de Deus.
[6] O Senhor afirma que a carne é fraca e o espírito está pronto, isto é, é capaz de cumprir o que deseja. Portanto, se alguém misturar, como aguilhão, a prontidão do Espírito à fraqueza da carne, aquilo que é forte necessariamente superará o fraco, a fraqueza da carne será absorvida pela força do Espírito e quem era carnal será doravante espiritual, graças à comunhão do Espírito.
[7] Assim os mártires testemunham e desprezam a morte não segundo a fraqueza da carne, e sim conforme à prontidão do Espírito.
[8] A fraqueza da carne desapareceu para manifestar o poder do Espírito; o Espírito, absorvendo a fraqueza, possui em si a carne e estes dois elementos constituem o homem vivo: vivo pela participação do Espírito, homem, pela substância da carne.
[9] Por isso a carne sem o Espírito de Deus está morta, privada da vida, incapaz de possuir o reino de Deus; o sangue, irracional, é como água derramada na terra.
[10] Eis por que o Apóstolo diz: “Qual foi o homem terrestre, tais são os terrestres”. Mas onde há o Espírito do Pai há o homem vivo, um sangue racional sobre o qual Deus vigia para vingá-lo, uma carne possuída pelo Espírito, a qual, esquecendo o que é, adquire a qualidade do Espírito e se torna conforme ao Verbo de Deus.
[11] Por isso o Apóstolo diz: “Como trazemos a imagem do homem terreno assim possamos trazer a imagem do homem celeste”. O que é este terreno? A obra plasmada. O que é este celeste? O Espírito.
[12] Por isso, como outrora vivemos sem o Espírito celeste na vetustez da carne, não obedecendo a Deus, assim agora que recebemos o Espírito andemos em novidade de vida, obedecendo a Deus.
[13] Desde que não nos podemos salvar sem o Espírito de Deus, o Apóstolo exorta-nos a conservar este Espírito de Deus, pela fé e por vida casta, para que não percamos o reino dos céus, pela falta deste Espírito divino.
[14] E afirma solenemente que a carne só e o sangue não podem obter o reino de Deus.
[15] Na realidade, ela não o possui, mas é possuída, de acordo com o que o Senhor diz: “Bem-aventurados os mansos porque herdarão a terra”, no sentido de que no reino será possuída em herança a terra da qual deriva a substância da nossa carne.
[16] Por isso quer que o templo seja puro para que o Espírito se deleite nele como o esposo na esposa.
[17] Como a esposa não pode unir-se por casamento, mas é casada quando o esposo vier e a tomar, assim a carne, por si só, não pode herdar o reino de Deus, mas pode ser recebida em herança, no reino, pelo Espírito.
[18] É o vivo que recebe em herança os bens do morto; uma coisa é possuir em herança e outra ser possuído; o herdeiro é dono, manda e dispõe como quer da herança; o que é herdado, ao contrário, está submetido ao herdeiro, lhe obedece e está sob o seu domínio.
[19] Qual é, portanto, o que vive? É o Espírito de Deus. E quais são os bens do morto? São os membros do homem que se decompõem na terra.
[20] São eles que são recebidos pelo Espírito e transferidos ao reino dos céus.
[21] Foi por isso que o Cristo morreu, para que o testamento do Evangelho, aberto e lido ao mundo inteiro, primeiramente libertasse seus escravos e depois os fizesse herdeiros dos seus bens, na herança possuída pelo Espírito, como dissemos acima: é o vivo que é o herdeiro e é a carne que é recebida em herança.
[22] Para que não percamos a vida ao perder o Espírito que nos possui como herança e para nos exortar à comunhão do Espírito tem razão ao dizer o Apóstolo as palavras já citadas: “A carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus”; como se dissesse: “Tomai cuidado, se o Verbo de Deus não habita em vós e se não tendes em vós o Espírito do Pai; se viveis vida vã e sem finalidade, como se não fôsseis senão carne e sangue, não podereis herdar o reino de Deus”.

