[1] Mas tu, nosso Deus, és bom e verdadeiro; paciente, governas o universo com misericórdia.
[2] Mesmo pecando somos teus, pois acatamos teu poder, mas não pecaremos, sabendo que te pertencemos.
[3] Conhecer-te é a justiça perfeita, acatar teu poder é a raiz da imortalidade.
[4] Não nos extraviaram as perversas artes, invenções humanas, nem o trabalho estéril dos pintores — figuras besuntadas com manchas policromas —,
[5] cuja vista desperta a paixão dos insensatos, que se entusiasmam com a forma sem vida de uma imagem morta.
[6] Enamorados do mal e dignos de tais esperanças, tanto os autores como os entusiastas e adoradores!
[7] Eis um oleiro que penosamente amassa uma terra mole e modela cada objeto para nosso uso. Da mesma argila modelou os vasos que servem às ações puras, como também, do mesmo modo, a usos contrários; qual deva ser o uso de cada um desses, o juiz é o oleiro.
[8] E depois — esforço mal empregado! — da mesma argila modela uma divindade vazia, ele que pouco antes nascera da terra e que em breve voltará à terra donde foi tirado, quando se lhe pedirá conta da vida que lhe foi emprestada.
[9] Não o preocupa o fato de que vai se esgotar e que sua vida seja efêmera; compete com os ourives e os que lavram a prata, plagia os fundidores de cobre, vangloriando-se de fabricar réplicas.
[10] Cinzas, o seu coração! Sua esperança: mais vil que a terra! Sua existência: mais desprezível que o barro!
[11] Pois desconheceu Aquele que o modelou, infundiu-lhe uma alma ativa e inspirou-lhe um sopro vital.
[12] Mas ele considerou a nossa vida como um jogo e a existência uma feira de negócios: “É preciso ganhar — diz ele — por todos os meios, mesmo maus!”
[13] Sim, este, mais que todos, sabe que peca: o que fabrica, de matéria terrena, frágeis vasos e estátuas de ídolos.
[14] Mas muito insensatos e mais infelizes que a alma de uma criança são os inimigos de teu povo, que o oprimiram,
[15] pois eles consideraram como deuses todos os ídolos dos pagãos, cujo uso dos olhos não lhes serve para ver, nem o nariz para respirar o ar, nem os ouvidos para ouvir, nem os dedos da mão para apalpar, e seus pés são inúteis para caminhar.
[16] Pois foi um homem quem os fez, modelou-os um ser de espírito emprestado: nenhum homem pode plasmar um deus semelhante a si;
[17] mortal, suas mãos ímpias produzem um cadáver. Ele é melhor do que os objetos que adora: ele pelo menos teve vida, eles jamais!
[18] Adoram até os animais mais odiosos que, comparados com os demais, são os mais estúpidos;
[19] não têm nenhuma beleza que os faça atraentes — coisa que sucede à vista com outros animais —, eles escaparam ao elogio de Deus e à sua bênção.

