Skip to main content
search

[1] Romanos, o que aconteceu ultimamente em vossa cidade sob Urbico e o que os governadores estão fazendo, sem razão, em todo o império, forçou-me a compor o presente discurso em vosso favor. Com efeito, sois da nossa mesma natureza e irmãos nossos, por mais que, por causa da vaidade de vossas supostas dignidades, não o reconheçais, nem o desejeis.

[2] O fato é que em todas as partes há gente disposta a nos levar à morte. Exceto os que estão persuadidos de que os iníquos e intemperantes serão castigados com o fogo eterno e que os virtuosos e que viveram de modo semelhante a Cristo, viverão impassíveis com Deus, isto é, exceto os que são cristãos, todo aquele que é repreendido pelo pai, vizinho, filho, amigo, marido ou mulher por causa de uma falta, se volta contra nós, por sua obstinação no mal, por seu amor ao prazer e por sua impotência para seguir o que é bom; com estes, os malvados demônios, por causa do ódio que nos professam e porque têm a seu serviço tais juízes, como se, de fato, os governantes fossem endemoninhados.

[3] E para que vos fique clara a causa de tudo o que aconteceu sob Urbico, contarei o caso em pormenores.

[4] Certa mulher vivia com o seu marido, homem dissoluto, e antes de se tornar cristã, se entregara à vida licenciosa.

[5] Todavia, logo que conheceu os ensinamentos de Cristo, não só se tornou casta, como procurava também persuadir seu marido à castidade, referindo-lhe os mesmos ensinamentos e anunciando-lhe o castigo do fogo eterno, preparado para os que não vivem castamente e conforme a reta razão.

[6] Ele, porém, obstinado na dissolução, com a sua conduta desanimou a sua mulher.

[7] Com efeito, esta considerava uma coisa ímpia continuar partilhando o leito com um homem que só procurava meios de prazer a todo custo, contra a lei da natureza e contra o que é justo, e decidiu divorciar-se.

[8] Seus parentes, todavia, a dissuadiam e a aconselhavam que tivesse ainda um pouco de paciência, com a esperança de que, algum dia, pudesse mudar o homem. Então, ela violentou-se a si mesma e esperou.

[9] O marido teve que fazer uma viagem para Alexandria e logo a mulher ficou sabendo que ele cometia lá maiores excessos ainda.

[10] Depois disso, para não se tornar cúmplice de tais iniqüidades e impiedades, permanecendo no matrimônio e partilhando o leito e a mesa com tal homem, ela apresentou o que entre vós se chama “libelo de repúdio”, e separou-se.

[11] Então, aquele excelente marido, que deveria ter-se alegrado pelo fato de sua mulher, antes entregue à vida fácil com escravos e diaristas, entre bebedeiras e todo tipo de maldade, ter agora deixado tudo isso e só desejar que ele também, dado às mesmas farras, pusesse fim a tudo isso, ficou, pelo contrário, despeitado por ela ter-se divorciado contra a sua vontade e a acusou diante dos tribunais, dizendo que ela era cristã.

[12] A mulher, contudo, apresentou a ti, imperador, um memorial, solicitando autorização para dispor antes de sua propriedade, e responder diante dos tribunais à acusação que lhe era feita, depois que estivesse resolvida a questão dos seus bens. Tu concedeste o que ela solicitou.

[13] O que antes fora marido, não podendo, na ocasião, fazer nada contra a mulher, voltou-se contra certo Ptolomeu, que Urbico chamara do seu tribunal, por ter sido mestre dela nos ensinamentos de Cristo. Eis o ardil que ele usou.

[14] O centurião que prendera Ptolomeu era seu amigo, e ele o persuadiu para que o detivesse e lhe perguntasse apenas se era cristão.

[15] Ptolomeu, que era por caráter amante da verdade, incapaz de enganar ou dizer uma coisa por outra, confessou que era de fato cristão. E isso bastou para que o centurião o acorrentasse e o atormentasse por muito tempo no cárcere.

[16] Finalmente, quando Ptolomeu foi levado diante do tribunal de Urbico, a única pergunta que lhe fizeram foi igualmente se era cristão.

[17] De novo, consciente dos bens que devia à doutrina de Cristo, confessou o que é ensinamento da divina virtude.

[18] Com efeito, quem nega alguma coisa, seja o que for, ou a nega porque a condena ou recusa confessá-la por saber que é indigno ou alheio a ela; nada disso convém ao verdadeiro cristão.

[19] Urbico ordenou que ele fosse condenado ao suplício; mas certo Lúcio, que também era cristão, vendo um julgamento realizado tão contra toda a razão, disse a Urbico:

[20] “Por que motivo condenaste à morte um homem que ninguém provou ser adúltero, ou fornicador, ou assassino, ou ladrão, ou salteador, ou, por fim, réu de algum crime, mas que apenas confessou levar o nome de cristão? Urbico, não estás julgando de modo conveniente ao imperador Pio, nem ao filho de César, amigo do saber, nem ao sacro Senado”.

[21] Urbico não respondeu nada. Dirigiu-se a Lúcio, e lhe disse: “Parece-me que também tu és cristão!”

[22] Lúcio respondeu: “Com muita honra.” E sem mais, o prefeito deu ordem para que ele também fosse conduzido ao suplício.

[23] Lúcio declarou-lhe que até agradecia por isso, pois sabia que ia se livrar de tão perversos tiranos e que iria ao Pai e rei dos céus.

[24] Por fim, um terceiro, que sobreveio, também foi condenado à morte.

[25] Contudo, para que não se diga: “Matai-vos uns aos outros, e ide de uma vez para o vosso Deus, e não nos incomodeis mais”, quero dizer porquê não fazemos isso e também porquê, ao ser interrogados, confessamos corajosamente a nossa fé.

[26] Nós aprendemos que Deus não fez o mundo por acaso, mas por causa do gênero humano, e já dissemos que ele se compraz com aqueles que imitam as suas qualidades e, em troca, se desagrada com aqueles que, por palavras ou obras, se entregam ao mal.

[27] Portanto, se todos nos matássemos a nós mesmos, seríamos culpados de que nascesse alguém que seria instruído nos ensinamentos divinos e, no que dependeria de nós, seríamos responsáveis pelo desaparecimento do gênero humano e, fazendo isso, também nós agiríamos de modo contrário ao desígnio de Deus.

[28] Quanto a não negar ao sermos interrogados, isso se deve ao fato de nós não termos consciência de ter cometido nenhum mal e, ao contrário, consideramos como impiedade não sermos em tudo verazes. Sabemos que isso é agradável a Deus, e nos apressamos em vos livrar agora da injusta preocupação contra nós.

[29] Caso ocorresse a alguém a ideia de que, se confessamos a Deus como protetor, não estaríamos, como dizemos, sob o poder dos iníquos, sofrendo seus castigos, resolverei também essa dificuldade.

[30] Tendo Deus feito o mundo inteiro, submetido as coisas terrestres aos homens e ordenado os elementos do céu, impondo-lhes também uma lei divina para o crescimento dos frutos e variação das estações — os quais também claramente ele fez para os homens —, entregou-o, assim como as coisas sob o céu, aos cuidados dos anjos que para isso designou.

[31] Mas os anjos, violando essa ordem, deixaram-se vencer por seu amor pelas mulheres e geraram filhos, que são os chamados demônios.

[32] Além disso, mais adiante, escravizaram o gênero humano, algumas vezes por meio de sinais mágicos; outras por terrores e castigos que infligiam; outras ensinando-lhes a sacrificar e oferecer para eles incensos e libações de que necessitam, depois que se submeteram às paixões de seus desejos.

[33] Finalmente, foram eles que semearam entre os homens assassínios, guerras, adultérios, vícios e maldades de todo tipo.

[34] Daí, os poetas e narradores de mitos, não tendo ideia do que os anjos e os demônios, que deles nasceram, cometeram com homens e mulheres e fizeram em cidades e nações tudo o que escreveram, depois o atribuiram ao próprio Deus e aos filhos carnalmente nascidos dele e aos chamados seus irmãos, Posêidon e Plutão, e igualmente aos filhos destes.

[35] Com efeito, os poetas chamaram os seus deuses com o nome que cada demônio tinha posto em si mesmo e em seus filhos.

VCirculi

Author VCirculi

More posts by VCirculi
Close Menu