[1] O Pai do universo, sendo ingênito, não tem nome imposto, pois todo aquele que tem nome supõe outro mais antigo que o tenha imposto.
[2] Pai, Deus, Criador, Senhor, Soberano não são propriamente nomes, mas denominações tiradas de seus benefícios e de suas obras.
[3] Quanto a seu Filho, o único que propriamente se diz Filho, o Verbo, que está com ele antes das criaturas e é gerado, quando no princípio criou e ordenou por seu meio todas as coisas, chama-se Cristo por sua unção e porque Deus ordenou por seu meio todas as coisas.
[4] Nome que também compreende um sentido incognoscível, da mesma maneira que a denominação “deus” não é nome, mas uma concepção ingênita da natureza humana de uma realidade inexplicável.
[5] “Jesus”, em troca, é nome de homem que tem a sua própria significação de “salvador”.
[6] Sim, com efeito, como já dissemos, o Verbo se fez homem por desígnio de Deus Pai e nasceu para a salvação dos que crêem e destruição dos demônios.
[7] Podeis comprová-lo por aquilo que, agora mesmo, está acontecendo diante de vossos olhos.
[8] De fato, em todo o mundo e em vossa própria cidade imperial, muitos dos nossos, isto é, cristãos, conjurando pelo nome de Jesus Cristo, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, curaram e ainda agora continuam curando muitos endemoniados que não puderam sê-lo por todos os outros exorcistas, encantadores e feiticeiros.
[9] E assim destroem e expulsam os demônios que possuem os homens.
[10] Assim, Deus também adia pôr um fim à confusão e destruição do universo, por causa da semente dos cristãos, recém-espalhada pelo mundo, que ele sabe ser a causa da conservação da natureza.
[11] De fato, se assim não fosse, vós não teríeis poder para fazer nada daquilo que fazeis conosco, nem seríeis manejados pelos demônios, como instrumentos de sua ação; mas, descendo o fogo de julgamento, já teria separado tudo sem exceção, do mesmo modo como não deixou vivo ninguém depois do dilúvio, a não ser aquele que nós chamamos Noé, juntamente com os seus, e que vós chamais Deucalião, do qual nasceu de novo numerosa multidão de homens, uns maus, outros bons.
[12] Com efeito, nós dizemos que acontecerá a conflagração universal, mas não, como dizem os estóicos, por causa da transformação de umas coisas em outras, pois isso nos parece muito torpe.
[13] Também não dizemos que os homens agem ou sofrem por necessidade do destino, mas que cada um age bem ou peca por sua livre determinação.
[14] Acrescentamos ainda que, por obra dos perversos demônios, homens bons, como Sócrates e outros semelhantes, foram perseguidos e aprisionados, e, ao contrário, Sardanapalo, Epicuro e outros de sua laia viveram, ao que parece, na abundância, glória e felicidade.
[15] Não entendendo isso, os estóicos disseram que tudo acontece por necessidade do destino.
[16] Mas não é assim. No princípio, Deus criou livres tanto os anjos como o gênero humano e, por isso, receberam com justiça o castigo de seus pecados no fogo eterno.
[17] A natureza de tudo o que tem princípio é esta: ser capaz de vício e de virtude, pois ninguém seria digno de louvor se não pudesse também voltar-se para um desses extremos.
[18] Demonstram isso aqueles homens que, em todas as partes, legislaram e filosofaram conforme a reta razão, ao mandarem que se façam algumas coisas e se evitem outras.
[19] Os próprios filósofos estóicos, em sua doutrina sobre costumes, têm em alta estima esses mesmos princípios.
[20] Isso prova que eles não estão no caminho certo na sua metafísica sobre os princípios e o incorpóreo.
[21] De fato, ao dizer que tudo o que os homens fazem acontece por necessidade do destino ou que Deus não é outra coisa senão isso que constantemente se muda, se transforma e se dissolve nos mesmos elementos, torna-se patente que têm ideia apenas do corruptível e que Deus, em suas partes e como um todo, se produz em meio a toda maldade ou, por fim, que a virtude e a maldade nada são.
[22] Isso choca-se contra toda ideia prudente, contra toda razão e inteligência.

