[1] Sabemos que alguns que professaram a doutrina estóica foram odiados e mortos. Pelo menos na ética eles se mostram moderados, assim como os poetas em determinados pontos, por causa da semente do Verbo, que se encontra ingênita em todo o gênero humano. Assim foi Heráclito, como antes dissemos, e entre os do nosso tempo, Musônio e outros que conhecemos.
[2] Com efeito, como já anotamos, os demônios sempre se empenharam em tornar odiosos aqueles que, de algum modo, quiseram viver conforme o Verbo e fugir da maldade.
[3] Portanto, não é de se admirar se eles, desmascarados, procuram também tornar odiosos, e com mais empenho ainda, àqueles que vivem não apenas de acordo com uma parte do Verbo seminal, mas conforme o conhecimento e contemplação do Verbo total, que é Cristo.
[4] Eles receberam merecido tormento e castigo, aprisionados no fogo eterno.
[5] Se eles agora são vencidos pelos homens em nome de Jesus Cristo, isso é aviso do futuro castigo no fogo eterno que os espera, juntamente com aqueles que os servem.
[6] Todos os profetas anunciaram isso de antemão e isso também nos ensinou o nosso mestre Jesus.
[7] Eu mesmo espero ser vítima das ciladas de algum desses demônios aludidos e ser cravado no cepo, ou pelo menos das ciladas de Crescente, esse amigo da desordem e da ostentação.
[8] Não merece o nome de filósofo um homem que, sem saber uma palavra sobre nós, nos calunia publicamente, como se nós, cristãos, fôssemos ateus e ímpios, espalhando essas calúnias para congratular-se e agradar a multidão transviada.
[9] De fato, se ele nos persegue sem ter encontrado a doutrina de Cristo, é homem absolutamente mau e que se coloca muito abaixo do próprio vulgo dos ignorantes, os quais com frequência se preservam de falar do que não entendem e, principalmente, de levantar falsos testemunhos; se leu, não entendeu a sua sublimidade; se a entendeu e age assim para ninguém suspeitar que ele é cristão, então é ainda mais miserável e mau, pois se deixa vencer pela opinião vulgar e irracional e pelo medo.
[10] Quero que saibais que, ao propor-lhe e fazer-lhe certas perguntas sobre o caso, lhe fiz ver e o convenci de que não sabe absolutamente nada.
[11] Para provar que digo a verdade, se não vos foram comunicadas as notas de nossas discussões, estou disposto a repetir minhas perguntas e respostas e isso também seria uma façanha digna de imperadores.
[12] Mas se as minhas perguntas e respostas já tivessem chegado ao vosso conhecimento, por elas ficaria claro para vós que ele não entende nada sobre nossa religião.
[13] Se ele sabe e, a exemplo de Sócrates, como eu disse antes, não se atreve a falar por medo daqueles que o escutam, não é homem que ama o saber, mas a opinião, como quem não aprecia o dito socrático tão digno de ser apreciado: “Não se deve estimar nenhum homem, acima da verdade.”
[14] Contudo, é impossível que um cínico, pondo o fim supremo na indiferença, conheça bem alguma coisa fora dessa indiferença.

