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[1] E os que se consideram filósofos não aleguem que são apenas ruídos e espantalhos o que afirmamos sobre o castigo que os iníquos sofrerão no fogo eterno, e que nós exigimos que os homens vivam retamente por medo e não porque a virtude é bela e gratificante. A eles responderemos brevemente: se a coisa não é como dizemos, então não existe Deus ou, se existe, não se importa em nada com os homens; a virtude e o vício nada seriam, como já dissemos, nem os legisladores castigariam com justiça os que transgridem as boas ordenações.

[2] Todavia, como os legisladores não são injustos e o Pai deles ensina, através do Verbo, a fazer o que ele mesmo faz, não são injustos os que a eles aderem.

[3] E se nos objetam que existe diversidade de leis entre os homens e que aquilo que uns consideram bom, outros o consideram mau, e o que é belo para estes é vergonhoso para aqueles, respondemos da maneira que segue.

[4] Em primeiro lugar, sabemos que os anjos maus estabelecem leis semelhantes à sua própria maldade, nas quais se comprazem os homens que estão com eles; por outro lado, ao chegar depois a reta razão, ela demonstra que nem todas as opiniões, nem todas as leis são boas, mas umas são boas e outras más. Assim ou algo semelhante responderemos a eles. E, se houver necessidade, o diremos mais em pormenores.

[5] Por enquanto, volto ao que me propus.

[6] Portanto, a nossa religião mostra-se mais sublime do que todo o ensinamento humano, pela simples razão de que possuímos o Verbo inteiro, que é Cristo, manifestado por nós, tornando-se corpo, razão e alma.

[7] Com efeito, tudo o que os filósofos e legisladores disseram e encontraram de bom, foi elaborado por eles pela investigação e intuição, conforme a parte do Verbo que lhes coube.

[8] Todavia, como eles não conheceram o Verbo inteiro, que é Cristo, eles freqüentemente se contradisseram uns aos outros.

[9] Aqueles que antes de Cristo tentaram investigar e demonstrar as coisas pela razão, conforme as forças humanas, foram levados aos tribunais como ímpios e amigos de novidades.

[10] Sócrates, que mais se empenhou nisso, foi acusado dos mesmos crimes que nós, pois diziam que ele introduzia novos demônios e que não reconhecia aqueles que a cidade considerava como deuses.

[11] O fato é que, expulsando da república Homero e outros poetas, ele ensinou os homens a rejeitar os maus demônios, que cometeram as abominações de que falam os poetas, e ao mesmo tempo os exortava ao conhecimento de Deus, para eles desconhecido, por meio de investigação racional, dizendo: “Não é fácil encontrar o Pai e artífice do universo, nem, quando o tivermos encontrado, é seguro dizê-lo a todos.”

[12] Foi justamente o que o nosso Cristo fez por sua própria virtude.

[13] Com efeito, ninguém acreditou em Sócrates, até que ele deu a sua vida por essa doutrina; em Cristo, porém, que em parte foi conhecido por Sócrates, — pois ele era e é o Verbo que está em tudo, e foi quem predisse o futuro através dos profetas e, feito de nossa natureza, por si mesmo nos ensinou essas coisas — em Cristo acreditaram não só filósofos e homens cultos, mas também artesãos e pessoas totalmente ignorantes, que souberam desprezar a opinião, o medo e a morte; porque ele é a virtude do Pai inefável e não um vaso de humana razão.

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