[1] Contudo, os homens iníquos e os demônios não nos tirariam a vida, nem teriam poder sobre nós, se todo homem que nasce não tivesse também que morrer. Por isso, nós vos agradecemos porque pagais uma dívida que temos.
[2] Todavia, cremos que é bom e oportuno mencionar aqui o conhecido relato de Xenofonte para que Crescente e os que são tão insensatos como ele o recordem.
[3] Xenofonte conta que, ao chegar a uma encruzilhada, vieram ao encontro de Héracles a virtude e a maldade, na forma de mulheres.
[4] A maldade estava vestida com roupas finas, tinha rosto atraente e adornado com enfeites, e disse a Héracles que, se ele a seguisse, ela o faria viver sempre no prazer e enfeitado com o mais belo ornamento, semelhante ao que ela usava.
[5] Ao contrário, a virtude, com rosto e veste severos, lhe disse: “Se seguires a mim, não te enfeitarei com beleza ou adorno passageiro e corruptível, mas com enfeites eternos e belos.”
[6] Nós estamos persuadidos de que alcançam a felicidade todos aqueles que se desfazem dos bens aparentes e seguem o que parece duro e contra a razão.
[7] Porque a maldade veste as suas ações com as qualidades da virtude e do que é de fato bem, remedando o incorruptível, pois ela em si não tem nada de incorruptível e nem é capaz de produzi-lo, e torna escravos seus os homens que se arrastam pelo chão, atribuindo à virtude os males próprios da maldade.
[8] Contudo, os que compreendem os bens verdadeiros, próprios da virtude, também se tornam incorruptíveis pela virtude. Que sejam assim os cristãos, os atletas e os heróis que fizeram aquelas façanhas atribuídas pelos poetas aos supostos deuses, qualquer pessoa inteligente o pode deduzir, se souber tirar consequência do fato de que nós desprezamos a morte, da qual todos fogem.
[9] Eu mesmo, quando seguia a doutrina de Platão, ouvia as calúnias contra os cristãos. Contudo, ao ver como caminhavam intrepidamente para a morte e para tudo o que é considerado espantoso, comecei a refletir que era impossível que tais homens vivessem na maldade e no amor aos prazeres.
[10] Com efeito, que homem amante do prazer, intemperante e que considere coisa boa devorar carnes humanas, poderia abraçar alegremente a morte, que vai privá-lo de seus bens, e que não procuraria antes, de todos os modos, prolongar indefinidamente a sua vida presente e esconder-se dos governantes, e menos ainda sonharia em delatar a si mesmo para ser morto?
[11] Por obra de homens perversos, os malvados demônios também já conseguiram isso.
[12] De fato, buscando condenar à morte alguns cristãos, fundados nas calúnias contra nós, arrastaram também escravos, meninos e mulheres e, por meio de incríveis tormentos, os forçaram a repetir contra nós o que o povo inventa, os mesmos crimes que eles cometem publicamente. Todavia, nada disso nos diz respeito e nada nos preocupa, pois temos o Deus eterno e inefável como testemunha de nossos pensamentos e ações.
[13] Com efeito, por qual motivo não haveríamos de proclamar publicamente que tudo isso é bom e demonstrar que se trata de uma divina filosofia, se bastasse dizer que ao matar um homem nós nos iniciamos nos mistérios de Saturno e que, ao fartar-nos de sangue, fazemos o mesmo que esse ídolo que tanto apreciais, ao qual se asperge não só com sangue de animais irracionais, mas também com sangue humano? E para semelhante rito de aspergir com o sangue dos executados, destinais o homem mais ilustre e mais nobre dentre vós.
[14] Por fim, quando dizem que abusamos dos varões e nos unimos sem temor com as mulheres, por que não dizer que, fazendo isso, estamos imitando a Zeus e aos outros deuses, alegando em nossa defesa os escritos de Epicuro e dos poetas?
[15] A verdade é que nos fazem guerra de mil modos, exatamente porque ensinamos a fugir de semelhantes doutrinas e daqueles que praticam tais coisas ou imitam tais exemplos, como, mesmo nestes discursos que vos dirigimos, nos esforçamos por fazer. Contudo, a vossa guerra em nada nos importa, pois sabemos que o Deus que tudo vê é justo.
[16] Oxalá, agora mesmo subisse alguém à tribuna elevada e, com voz de ator, dali vos gritasse: “Envergonhai-vos, envergonhai-vos de imputar à pessoas inocentes a mesma coisa que praticais publicamente e atribuir aquilo que é próprio de vós e de vossos deuses àqueles que absolutamente nada têm a ver com isso. Convertei-vos, arrependei-vos!”

