[1] Eu também, ao perceber que os malvados demônios tinham lançado um véu sobre os divinos ensinamentos de Cristo, a fim de afastar deles os outros homens, desprezei da mesma forma aqueles que propagavam tais calúnias como o véu dos demônios e a opinião do vulgo.
[2] Confesso que todas as minhas orações e esforços tem por finalidade mostrar-me cristão, não porque as doutrinas de Platão sejam alheias a Cristo, mas porque elas não são totalmente semelhantes, como também as dos outros filósofos, os estóicos, por exemplo, poetas e historiadores.
[3] De fato, cada um falou bem, vendo o que tinha afinidade com ele, pela parte que lhe coube do Verbo seminal divino. Todavia, é evidente que aqueles que em pontos muito fundamentais se contradisseram uns aos outros, não alcançaram uma ciência infalível, nem um conhecimento irrefutável.
[4] Portanto, tudo o que de bom foi dito por eles, pertence a nós, cristãos, porque nós adoramos e amamos, depois de Deus, o Verbo, que procede do mesmo Deus ingênito e inefável. Ele, por amor a nós, se tornou homem para partilhar de nossos sofrimentos e curá-los.
[5] Todos os escritores só puderam obscuramente ver a realidade, graças à semente do Verbo neles ingênita.
[6] Com efeito, uma coisa é o germe e a imitação de algo, que é feita conforme a capacidade; e outra, aquele mesmo do qual se participa e imita, conforme a graça que também dele procede.
[7] Portanto, nós vos suplicamos que, subscrevendo como vos pareça, deis publicidade a este livro, a fim de que também os outros conheçam a nossa religião e se vejam livres da vã opinião e da ignorância em relação ao bem.
[8] Por sua própria culpa, eles se tornam responsáveis pelo castigo, pois na natureza humana existe a faculdade de conhecer o bem e o mal, e eles, que nos condenam sem saber se praticamos as coisas vergonhosas de que nos acusam, comprazem-se com deuses que as fizeram e ainda exigem dos homens coisas semelhantes.
[9] De modo que, pelo fato de nos condenar à morte, ao cárcere e a outra pena semelhante, como se tivéssemos feito tais coisas, eles dão a sentença contra si próprios, sem que sejam necessários outros juízes.
[10] Se consentis em publicar este livro, nós gostaríamos de levá-lo ao conhecimento de todos, a fim de que, se possível, se convertam, porque foi só para esse fim que escrevi estes discursos.
[11] Com efeito, segundo julgamento prudente, as nossas doutrinas não são vergonhosas, mas superiores a toda filosofia humana. Se não são tais, ao menos não se parecem com as de Sotades, Filênida, Arquéstrato, Epicuro e outros, nem são semelhantes às de poetas que, oralmente ou por escrito, vós permitis que sejam conhecidas por todo mundo.
[12] Feito o que dependia de nós, aqui pomos ponto final. Acrescentamos nossas súplicas a Deus, para que a todos os homens de todo o mundo seja concedido conhecer a verdade.
[13] Oxalá também vós, em vosso interesse, julgueis com justiça, de acordo com vossa piedade e filosofia.

