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[1] No primeiro livro, anterior a este, denunciando uma gnose de nome falso, demonstramos-te, caríssimo, que é tudo mentira o que foi encontrado, de muitas e contraditórias maneiras, pelos discípulos de Valentim.

[2] Expusemos também as doutrinas dos que os precederam, como se contradizem entre si e muito mais com a verdade.

[3] Também te apresentamos, com toda diligência, a doutrina de um deles, Marcos, o mago, e também a sua conduta.

[4] E diligentemente referimos o que selecionou da Escritura e a tentativa de adaptá-la à sua invenção; lembramos minuciosamente como se esforçam e ousam confirmar a verdade por meio dos números e das vinte e quatro letras do alfabeto.

[5] Como, segundo eles, a criação foi feita à imagem do Pleroma invisível e o que pensam e ensinam sobre o Demiurgo.

[6] Expusemos a doutrina de um dos seus pais, Simão, o mago, da Samaria, e de todos os que se seguiram, e também a de toda a multidão dos gnósticos que se originaram dele.

[7] Evidenciamos as diferenças entre eles, as doutrinas, as emissões e todas as heresias que proferiram, suas doutrinas ímpias e irreligiosas que todos estes heréticos derivados de Simão introduziram neste mundo.

[8] Demos a conhecer a sua redenção, a iniciação dos perfeitos, as suas fórmulas mágicas e os mistérios.

[9] Demonstramos que um só é o Deus criador que não é fruto de degradação e que não há nada nem acima dele nem depois dele.

[10] Neste livro trataremos, conforme o tempo no-lo permitir, somente do que é útil para nós e refutaremos os pontos mais importantes do conjunto da sua doutrina.

[11] Por isso, visto que se trata de descobrir e refutar a sua teoria, intitulamos assim esta obra: com efeito é preciso, pela denúncia aberta das suas sizígias, refutar as sizígias ocultas e destruir este Abismo, trazendo provas de que nunca existiu nem existe.

[12] É conveniente começar pelo primeiro e mais importante argumento, isto é, do Deus-Demiurgo que fez o céu e a terra e tudo o que eles contêm, que, injuriando, chamam fruto de degradação, para demonstrar que nada há acima nem depois dele, que foi ele a criar todas as coisas, não movido por algo ou por ninguém, mas de sua própria e espontânea vontade, por ser o único Deus, o único Senhor, o único Criador, o único Pai, o único a conter tudo e a dar a existência a tudo.

[13] Como poderia haver acima dele outro Pleroma, ou Princípio, ou Potência, ou outro deus, se Deus, o Pleroma universal, deve absolutamente conter todas as coisas e não ser contido por ninguém?

[14] Se existir alguma coisa fora dele já não é Pleroma de tudo nem contém tudo, porque falta a ele ou ao Deus que está acima de tudo, o que dizem estar fora dele.

[15] Aquele a quem falta ou foi tirada alguma coisa não é o Pleroma de tudo.

[16] Deverá ter princípio, meio e fim em relação aos que lhe estão fora.

[17] Se há um fim nas coisas inferiores, deve haver um princípio nas superiores; e ao mesmo tempo deve acontecer necessariamente com as outras partes: será contido, determinado e incluído pelo que está fora dele; porque o fim inferior necessariamente circunscreve e circunda o que acaba nele.

[18] Aquele que para eles é o Pai de tudo e que chamam Protoente, Protoprincípio, com o Pleroma deles e o Deus bom de Marcião, será criado, limitado e circundado externamente por outro Princípio que será necessariamente maior do que ele, porque o continente é maior do que o conteúdo.

[19] O que é maior é também mais firme e mais senhor, e o que é maior, mais firme e mais senhor é Deus.

[20] Com efeito, se, conforme eles dizem, existe algo externo ao Pleroma em que desceu a Potência superior afastada, este algo necessariamente contém o que é externo ao Pleroma e o próprio Pleroma, de outra forma não se pode falar de algo que esteja fora.

[21] Se algo se encontra fora do Pleroma, o Pleroma estará dentro de algo que está fora e por isso mesmo estará contido aí.

[22] Se, por acaso, dizem que o Pleroma e o que está fora dele estão imensamente afastados um do outro, então supõem terceira realidade que separa imensamente o Pleroma do que está fora dele.

[23] Esta terceira realidade delimitaria e conteria a ambos e seria maior do que o Pleroma e do que está fora dele, visto que contém os dois dentro de si.

[24] Então nunca se acabaria de falar do que contém e do que está contido.

[25] Se, com efeito, esta terceira realidade tem princípio no alto e fim embaixo é necessário também definir os lados: estes e as coisas que estão acima ou embaixo terão um princípio em relação a outras coisas e assim nunca se acaba.

[26] Assim se dá com a sua elucubração sobre o Deus único, e por quererem saber sempre mais caem no vazio e se afastam do verdadeiro Deus.

[27] O mesmo argumento vale para os seguidores de Marcião.

[28] Os seus dois deuses serão contidos e circunscritos pelo imenso espaço que separa a ambos.

[29] Desta forma deve-se pensar em numerosos deuses separados entre si por distâncias imensas e um começaria onde outros acabam.

[30] E o motivo de que se servem para ensinar que acima do Criador do céu e da terra existe um Pleroma ou um Deus, este mesmo pode ser invocado por quem quiser afirmar que acima deste Pleroma existe outro Pleroma e acima deste último mais outro e acima do Abismo outro Abismo e pelos lados o mesmo.

[31] Procedendo assim ao infinito será necessário pensar sempre em outros pleromas e outros abismos e procurar, sem parar, sempre outros além dos precedentes.

[32] Então não se poderá dizer com certeza que as coisas, segundo nós, inferiores não sejam até superiores e as que eles julgam superiores não sejam inferiores ou superiores.

[33] O nosso pensamento não teria estabilidade ou certeza, mas seria obrigado a perseguir mundos sem fim e deuses sem número.

[34] Se fosse assim, cada deus se deveria contentar com sua esfera de ação e não se meter indiscretamente na dos outros: do contrário seria injusto e avarento e deixaria de ser o que Deus é.

[35] E cada criatura glorificaria o próprio criador contentando-se com ele, sem reconhecer outro, do contrário, seria justamente condenado por todos como apóstata e severamente punido.

[36] É necessário admitir ou um só que tudo contém e criou todas as coisas abaixo dele como quis, ou muitos e indeterminados deuses e criadores, começando um onde outro acaba, e então será preciso reconhecer que externamente é contido por um maior e é reduzido à sua competência e que nenhum deles é deus de todas as coisas.

[37] Assim cada um deles será filho porque possuiria uma parte mínima em relação a todos os outros e nenhum poderia ser chamado onipotente e esta concepção levaria inelutavelmente à impiedade.

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