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[1] É, portanto, completamente irracional abandonar o verdadeiro Deus, testemunhado por todos, para procurar acima dele um deus que não existe e que nunca ninguém anunciou. Que nunca foi dito nada dele, eles mesmos o confirmam e se apresentam um deus que nunca antes foi procurado, é evidente que o fazem aplicando arbitrariamente a um deus inventado por eles parábolas que precisam de explicação para serem entendidas.

[2] Pelo fato de quererem explicar passagens difíceis das Escrituras, não porque se refiram a outro Deus, mas aos seus planos, produziram para si outro deus, como já dissemos, trançando redes com areia, e de uma questão pequena fizeram surgir outra de maior importância. Não se dirime uma questão propondo a solução de outra, e pessoas de bom senso não usam de obscuridades para clarear obscuridades, nem de enigmas para resolver enigmas, mas estas coisas são resolvidas a partir do que é manifesto, adequado e claro.

[3] Estes, porém, ao quererem explicar as Escrituras e as parábolas, introduzem outra questão mais ampla e ímpia, isto é, se acima do Deus criador do mundo há outro deus. Assim não resolvem a questão, nem o poderiam, se introduzem numa pequena questão outra considerável, dando um nó que não se pode desatar.

[4] De fato, para mostrar que sabem por que o Senhor foi receber o batismo da verdade justamente aos trinta anos, sem o saber, desprezam sacrilegamente o próprio Deus criador que o enviou para a salvação dos homens. E para que se pense que são capazes de explicar a origem da substância material, ao invés de acreditar que Deus criou do nada todas as coisas e as fez existir como quis, servindo-se da sua vontade e poder como substância, ajuntaram discursos vazios, demonstrando claramente a sua incredulidade.

[5] Assim, não prestando fé nas coisas reais caíram no irreal.

[6] Quando dizem que das lágrimas de Acamot se originou a substância úmida, do riso a luminosa, da tristeza a sólida e do medo a móvel, enchem-se de orgulho por tão alta sabedoria, como podem evitar a troça e o ridículo?

[7] Os que não acreditam que Deus, poderoso e rico de todas as coisas, criou a matéria porque não conhecem o poder da substância espiritual e divina, vêm depois a dizer que foi a sua Mãe, que chamam Mulher de mulher, a produzir toda a matéria da criação, quando submetida às paixões de que falamos antes.

[8] Eles querem saber onde o Criador foi buscar a matéria da criação, mas não se perguntam onde a sua Mãe, que chamam de Entímese e ímpeto do Éon desgarrado, encontrou tantas lágrimas e tanto suor e tristeza para produção tão grande de matéria.

[9] Atribuir a substância das coisas criadas ao poder e à vontade do Deus de todas as coisas seria crível, aceitável e coerente. Aqui é possível dizer com propriedade: “as coisas impossíveis aos homens são possíveis a Deus”, porque os homens não podem fazer nada com nada, mas somente com matéria preexistente.

[10] Deus, porém, é superior ao homem porque cria a matéria da sua criação, que antes não existia. Dizer, ao contrário, que a matéria foi produzida pela Entímese do Éon desgarrado, separado por grande distância dela, e que as paixões e a disposição da Entímese saídas dela se tornaram matéria é algo de inacreditável, fátuo, impossível e absurdo.

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