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[1] Primeiramente, no que se refere a Triacôntada, por causa da qual dizem que o Senhor foi receber o batismo aos trinta anos, diremos que ruirá completa e espetacularmente de duas maneiras, por defeito e por excesso. Eliminada esta, ficará clara a refutação de toda a sua argumentação.

[2] É assim que peca por defeito. Primeiramente porque incluem o Protopai entre os outros Éões. O Pai de todos não pode ser incluído entre o resto dos Éões, ele que não foi emitido entre as coisas emitidas, ele que é inato entre os nascidos, ele que não pode ser contido e é incompreensível entre aquilo que ele contém, ele que é sem forma entre os que foram formados.

[3] Por ser superior aos outros não pode ser incluído entre eles e menos ainda pode ser colocado ao lado de um Éon passível e caído no erro aquele que é impassível e incapaz de erro. No livro anterior expusemos como eles contam a Triacôntada começando pelo Abismo para chegar à Sofia, que chamam Éon desviado, e reproduzimos os nomes que dão aos Éões. Ora, se subtraírmos o Pai, já não há trinta emissões de Éões, e sim vinte e nove.

[4] Em segundo lugar, chamando a primeira emissão de Enóia ou Silêncio e dizendo que dela foram emitidos o Nous e a Verdade, eles erram duplamente. De fato, é impossível entender o pensamento ou o silêncio de alguém separado dele e emitidos fora dele, tendo consistência própria.

[5] Se, porém, dizem que não foi emitida por fora, mas ficou unida ao Protopai porque a incluem entre os Éões, que não lhe estão unidos, e por isso não lhe conhecem a grandeza. Se ela lhe está unida, consideremos isso também, é necessário que desta sizígia unida, inseparável, único ser, seja feita uma emissão igualmente inseparável e unida, igual a quem a emitiu.

[6] Sendo assim, tanto o Nous e a Verdade como o Abismo e o Silêncio serão a mesma coisa, sempre aderentes entre si, sem se poder entender um sem a outra. Assim como a água não é separada da umidade, o fogo do calor e a pedra da dureza, porque são coisas inseparáveis, que sempre existem juntas, assim também o Abismo deve ser unido à Enóia como o Nous à Verdade.

[7] Por sua vez, o Logos e a Zoé, emitidos por seres tão unidos, deverão estar unidos e ser uma coisa só. Do mesmo modo também o Homem e a Igreja e toda a emissão dos outros Éões, feita aos pares, devem estar unidos e existir sempre um com o outro. Segundo eles, o Éon feminino deve estar com o masculino para ser o complemento deste.

[8] Estando assim as coisas e sendo estas as suas afirmações, é ousadia impudente ensinar que o Éon mais novo da Duodécada, aquele que chamam Sofia, sentiu a paixão sem se unir ao cônjuge, que chamam Teleto, e sem ele gerou um fruto a que dão o nome de Mulher de mulher.

[9] Chegaram a tal ponto de loucura que expuseram, da maneira mais evidente, duas teorias contrárias sobre o mesmo assunto: se o Abismo é unido ao Silêncio, o Nous à Verdade, o Logos à Vida e assim a seguir, como podia Sofia, sem amplexo conjugal, sentir a paixão e procriar?

[10] Se ela a provou sem ele, necessariamente os outros casais devem experimentar também a defecção e a separação mútuas. Mas isso é impossível, como dissemos acima. É impossível, portanto, que Sofia provasse paixão sem Teleto. Por isso cai de novo o seu argumento: da paixão que provou sem amplexo conjugal, como dizem, é que inventaram toda a composição do seu drama.

[11] Se admitirem despudoradamente que também as outras sizígias estão separadas e distintas entre si, para que não seja invalidado o seu vanilóquio por causa da última sizígia, então começam por sustentar uma coisa impossível, isto é, como separar o Protopai da sua Enóia, ou o Nous da Verdade, ou o Logos de Zoé e assim a seguir os outros todos.

[12] Por outro lado, como podem afirmar que caminham para a unidade e que todos são uma coisa só, se as sizígias dentro do Pleroma não conservam a unidade e estão distantes umas das outras e, não obstante, sentem a paixão e geram sem o amplexo do outro, como galinhas sem galo?

[13] Por fim, cai também a Ogdôada primitiva e fundamental, porque se encontrariam, estranhamente, no mesmo Pleroma o Abismo e o Silêncio, o Nous e a Verdade, o Logos e a Zoé, o Homem e a Igreja.

[14] É impossível haver o Silêncio quando está presente o Logos ou o Logos quando está presente o Silêncio, porque se eliminam mutuamente, como a luz e as trevas nunca estarão no mesmo lugar. Se houver luz não haverá trevas: ao aparecer a luz desaparecem as trevas.

[15] Assim, onde está o Silêncio não pode estar o Logos e onde está Logos não pode estar o Silêncio. Se disserem que se trata do Logos interior, também o Silêncio será interior, e será excluído pelo Logos interior. Mas que não seja interior é indicado pelo próprio sistema de emissões.

[16] Não digam, portanto, que a primeira e principal Ogdôada inclui o Logos e o Silêncio e exclui ou o Logos ou o Silêncio: desfaz-se assim a primeira e principal Ogdôada.

[17] Com efeito, se dizem que as sizígias formam unidade, perde valor toda a sua argumentação: se estão unidas, como a Sofia pode gerar sem cônjuge um fruto de degradação? Se, ao contrário, dizem que cada um dos Éões possui sua própria substância na emissão, como podem estar juntos o Silêncio e o Logos? Assim a Triacôntada peca por defeito.

[18] A Triacôntada também se lhes desfaz por excesso, desta forma. Dizem que o Unigênito emitiu, como os outros Éões, o Limite, ao qual dão vários nomes como já dissemos no livro anterior.

[19] Para alguns foi o Unigênito a emitir o Limite, para outros foi o Protopai que o emitiu à sua semelhança. Mais: pelo Unigênito foram emitidos Cristo e o Espírito Santo, que não são contados no Pleroma, como também não está incluído o Salvador, a quem chamam o Tudo.

[20] Ora, até um cego pode perceber que não há somente trinta emissões, de acordo com o seu sistema, e sim trinta mais quatro, pois contam o próprio Protopai no Pleroma e os Éões emitidos, sucessivamente, um a partir do outro.

[21] Por que estes não estão incluídos entre os que estavam no Pleroma e foram emitidos da mesma forma? Qual é a boa razão que têm para não incluir entre os outros Éões o Cristo, que por vontade do Pai dizem ser emitido pelo Unigênito, nem o Espírito Santo, nem o Limite, que também chamam Salvador, nem o próprio Salvador, vindo para socorrer e formar-lhes a Mãe?

[22] Serão estes inferiores àqueles e por isso indignos do nome e da pertença aos Éões? Ou porque são melhores ou diferentes? Mas como lhes seriam inferiores eles que foram emitidos para formar e corrigir os outros? E como podem ser superiores à primeira e principal Tétrada da qual foram emitidos? Com efeito, ela está incluída no número supradito.

[23] Portanto, estes também devem estar incluídos no Pleroma dos Éões ou então deve-se tirar a honra de tal nome àqueles Éões.

[24] Desfeita, portanto, a Triacôntada, como demonstramos, por defeito e por excesso — porque se tal número aumenta ou diminui, muda seu valor nos dois casos, o que se deve dizer quando isto se dá simultaneamente? — é absurda a história da Ogdôada e da Duodécada e a sua regra não se sustenta, por ter perdido o seu fundamento e ter desmoronado no Abismo, isto é, no nada.

[25] Procurem, portanto, outras razões que mostrem por que o Senhor foi ao batismo aos trinta anos, por que tinha doze apóstolos, por que a mulher sofria de hemorragias há doze anos e o porquê de tudo o que, no seu delírio, foram construindo em vão.

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