[1] Demonstraremos agora que também a primeira série de emissões deve ser rejeitada. Do Abismo e da sua Enóia foram emitidos o Nous e a Verdade, dizem eles, e nós mostraremos que é absurdo. O Nous, com efeito, é o elemento principal, máximo, origem e fonte de toda atividade intelectual e a Enóia é todo e qualquer movimento derivado dele que se concretizou. Não é possível, portanto, que o Nous se tenha originado do Abismo e da Enóia. Mais certo seria dizer que o Protopai e o Nous emitiram a filha Enóia, porque a Enóia não é a Mãe do Nous, como dizem, mas o Nous é pai da Enóia.
[2] Como então o Nous pode ser emitido pelo Protopai? Se ele ocupa o primeiro e principal lugar da sensação interna, oculta e invisível da qual procedem o sentir, a Enóia, a Entímese e aquelas coisas que não se distinguem do Nous, mas são, como dissemos acima, diferentes atitudes deles mesmos no processo do pensamento e têm nomes diferentes conforme perduram ou se intensificam e não segundo aquilo em que se transformam; eles são contidos no pensamento, emitidos juntos no verbo, enquanto o intelecto permanece no interior criando, administrando e governando livremente, com autoridade própria e da forma que quer, as coisas ditas acima.
[3] O primeiro movimento para alguma coisa chama-se “pensamento”; continuando a desenvolver-se e apreendendo toda a alma chama-se “consideração”; perdurando longamente no mesmo objeto, como que experimentada, chama-se “reflexão”; a reflexão muito prolongada torna-se “deliberação”; o aumento e o grande movimento de deliberação chama-se “discussão do pensamento” que, enquanto está na mente, é chamado retamente “verbo interior”, do qual deriva o “verbo falado”.
[4] Tudo isso que acabamos de dizer é coisa que inicia do intelecto, recebe nomes diversos enquanto se intensifica. É como no corpo humano que é, vez por vez, juvenil, viril e senil e recebe estes nomes em vista do desenvolvimento e da duração, e não segundo mutações substanciais ou o desaparecimento. Assim também aqui: o que se contempla é o que se pensa; o que se pensa é o que se sabe; o que se sabe é o que se delibera; do que se delibera se discute interiormente e disto se fala. Tudo isto, como dissemos, é dirigido pelo Nous que é invisível e emite de si, por meio das coisas mencionadas, como um raio de luz, o verbo, enquanto ele não é emitido por ninguém.
[5] Tudo isto se pode dizer do homem, que por sua natureza é composto de alma e de corpo. Aqueles, porém, que dizem que Deus emitiu a Enóia, a Enóia o Nous e este o Logos devem ser condenados precisamente por tratar das emissões de maneira imprópria e depois por desconhecer a Deus, ao descrever sentimentos, paixões e intenções que são próprios do homem.
[6] De fato, aplicam ao Pai de todas as coisas, que dizem desconhecido de todos, o que acontece no homem ao falar, e negam também que tenha criado o mundo para não ser julgado pequeno, e depois, lhe atribuem os sentimentos e as paixões do homem. Se, porém, tivessem conhecido as Escrituras e tivessem sido instruídos pela verdade, saberiam que Deus não é como os homens e que os seus pensamentos não são como os dos homens.
[7] O Pai de todas as coisas está bem longe dos sentimentos e das paixões humanos; é simples, sem composição e sem diversidade de membros, inteiramente igual e semelhante a si mesmo, é todo intelecto, todo espírito, todo sentimento, toda percepção, toda razão, todo ouvido, olho, luz e todo fonte de todos os bens, como falam de Deus as pessoas piedosas e religiosas.
[8] Deus está acima de tudo isto e por isso é inexprimível. Será chamado retamente intelecto que abrange todas as coisas mas não semelhante ao intelecto humano; será chamado justissimamente luz, mas completamente diferente do que nós conhecemos por luz.
[9] Assim o Pai de todas as coisas, em nenhuma das outras coisas será semelhante à pequenez do homem; será nomeado a partir dessas coisas, pela sua benevolência, mas é tido superior a elas pela sua grandeza. Se, portanto, nos homens o intelecto não é emitido nem separado do vivente, ele que emite todas as coisas, mas somente os seus movimentos e disposições chegam a manifestar-se, muito mais é verdade em Deus que é inteiramente intelecto: não se separará de si mesmo nem será emitido, como uma coisa, de outra qualquer.
[10] Se Deus tivesse emitido o Nous como eles dizem, seria pensado como composto e corpóreo, isto é, de um lado, Deus que emite, e do outro, Nous que é emitido. Se, porém, disserem que o Nous foi emitido por outro intelecto, então dividem e separam o Intelecto de Deus.
[11] Mas de onde e para onde seria emitido? O que é emitido por alguém, o é em algum sujeito. Ora, qual sujeito mais antigo do que o Intelecto de Deus em que ele seria emitido? Como haveria de ser grande o lugar que acolheu e encerrou em si o Intelecto de Deus! Se disserem que é emitido como é emitido do sol um raio de luz e é recebido pelo ar que existe antes dele, então onde encontrarão eles aquele sujeito em que foi emitido o Intelecto de Deus, que o contenha e lhe seja anterior?
[12] Ainda: como vemos o sol, longe e menor que as outras coisas, emitir seus raios de luz, assim devemos dizer que o Protopai emitiu de longe e fora de si um raio. Como então se pode pensar nalguma coisa longe ou fora de Deus, onde ele emitisse um raio?
[13] Se, além disso, disserem que não foi emitido fora, mas dentro do próprio Pai, é completamente supérfluo dizer que foi emitido, pois como se pode dizer emitido o que estava dentro do Pai? A emissão supõe a manifestação do emitido fora do emissor.
[14] Depois desta emissão também o Logos que deriva dela estará dentro do Pai como também deverão estar as restantes emissões do Logos. Por isso não poderão ignorar o Pai porque estão nele, como também o conhecerão mais ou menos conforme a ordem de emissão, porque todos estão envolvidos, por todos os lados, pelo Pai.
[15] E serão todos igualmente impassíveis, estando todos no seio do Pai e nenhum deles na degradação, porque no Pai não há degradação. A não ser que digam que como um círculo menor está contido num maior e dentro dele outro menor, ou que à semelhança das esferas ou dos tetrágonos, que abrangem esferas ou quadrados, o Pai contém dentro de si todas as outras emissões dos Éões.
[16] Então cada um deles seria incluído num maior e por sua vez incluiria um menor e por isso o último, o menor, que está no centro, seria tão afastado do Pai que não teria conhecido o Protopai. Ao dizer isso incluem o seu Abismo na série dos figurados e circunscritos, tornando-o, ao mesmo tempo, incluinte e incluído e então são obrigados a admitir fora dele alguma coisa que o contenha e assim a levar ao infinito o discurso sobre o que contém e o que é contido e ficará claro que todos os Éões são como corpos fechados dentro de limites.
[17] Mais ainda: ou declararão que é vazio ou que tudo o que lhe está dentro participa igualmente do Pai. Como os círculos ou as figuras redondas ou quadradas feitas na água participam todas da água, como as coisas construídas no ar ou na luz necessariamente fazem parte do ar ou da luz, assim aqueles que estão dentro dele participam do mesmo modo do Pai e não pode haver lugar neles para a ignorância.
[18] Onde está a ação do Pai que enche tudo? Se ele encheu tudo, aí não haverá lugar para a ignorância. Resolvida está assim toda a teoria da degradação, da emissão da matéria e da restante criação do mundo, que dizem ter-se originado da paixão e da ignorância. Ao dizer que é vazio caem na maior das blasfêmias por negar o que nele é espiritual. Como seria espiritual se não pode ao menos encher o que está dentro dele?
[19] Tudo o que foi dito da emissão do Nous vale da mesma forma contra o que os discípulos de Basílides tiraram dele e contra todos os gnósticos, dos quais estes aceitaram a origem das emissões e que já foram refutados no primeiro livro. Que a emissão primeira do Nous, isto é, o Intelecto, é absurdo e impossibilidade, está exaustivamente demonstrado.
[20] Vejamos agora as outras emissões. Dizem que o Nous emitiu o Logos e a Zoé, criadores do Pleroma, e tirando a ideia da emissão do Logos, isto é, o Verbo, dos sentimentos dos homens e tentando aplicá-la a Deus, como se tivessem feito grande descoberta, dizem que o Logos foi emitido pelo Nous.
[21] Mas todos vêem que, se está certo em relação aos homens, já não está certa esta ordem de emissão em relação a Deus, que está acima de todas as coisas, que é todo Nous e todo Logos, como dissemos, e no qual não existe nada de anterior, de posterior ou de diverso, sendo sempre perfeitamente igual, idêntico e único.
[22] Assim como não erra quem o diz todo visão e todo audição, porque ao ver simultaneamente ouve e, ouvindo, vê, assim também quando diz que é todo Intelecto e todo Verbo, que é Verbo ao mesmo tempo que Intelecto e que este Intelecto é idêntico a seu Verbo; ainda que diga algo a menos do Pai de todas as coisas, contudo o que diz é mais conveniente do que fazem os que transferem no Verbo eterno de Deus o modo de emissão da palavra humana, conferindo-lhe inícios e emissões por fora semelhantes à sua palavra.
[23] Mas em que se diferenciaria o Verbo de Deus, ou melhor, o próprio Deus, será ele superior ao verbo humano, se tem a mesma ordem de sucessão e o mesmo modo de emissão?
[24] Erram também acerca da Zoé ao dizer que é emitida em sexto lugar, quando era necessário pô-la antes de todos, porque Deus é vida, incorrupção e verdade. Estas coisas não foram emitidas segundo ordem descendente, mas são denominações das potências perpetuamente vizinhas a Deus, como é possível e digno para os homens ouvir e falar de Deus.
[25] No nome de Deus, de fato, estão compreendidos o Nous, o Logos e a Zoé, incorrupção, verdade, sabedoria, bondade e todos os atributos semelhantes. Tampouco se pode dizer que o Nous seja anterior a Zoé porque o Nous é vida, nem que a Zoé é posterior ao Nous para que este, em nenhum momento, fique sem vida, ela que é o intelecto que abrange todas as coisas, isto é, Deus.
[26] Mas se dizem que no Pai estava a Zoé e que foi emitida em sexto lugar para que o Logos vivesse, era preciso que fosse emitida bem antes, no quarto lugar, para que o Nous vivesse e até mais cedo ainda com o Abismo para que o Abismo vivesse. Juntar o Silêncio ao Protopai como cônjuge e não lhe acrescentar a Zoé, como não seria a maior burrice?
[27] Quanto àquela que, segundo eles, é a emissão seguinte, a do Homem e da Igreja, os próprios pais, falsamente chamados gnósticos, disputam entre si a autoria da teoria, uns acusando os outros de plagiários desajustados.
[28] E dizem que é mais conveniente para a emissão, por ser mais verossímil, que o Logos seja emitido pelo Homem e não o Homem pelo Logos, e que o Homem é anterior ao Logos e que é ele o Deus que está acima de todas as coisas.
[29] Assim, como dissemos, supondo, por verossimilhança, em Deus todos os sentimentos e movimentos da alma, gerações internas e prolação da palavra que estão no homem, erram de modo inverossímil contra Deus.
[30] Atribuindo a Deus o que há no homem e que eles experimentam em si mesmos, dão a impressão, para quem não conhece a Deus, de raciocinar corretamente e transviam as suas mentes, com o que acontece com as paixões humanas.
[31] Explicando que a origem e a emissão do Verbo de Deus se dão em quinto lugar, dizem que ensinam mistérios maravilhosos, inefáveis, profundos, não conhecidos de mais ninguém, a respeito do que o Senhor teria dito: “Procurai e encontrareis”.
[32] Assim é que procuram saber se do Abismo e do Silêncio procedem o Nous e a Verdade e se destes o Logos e a Zoé, e a seguir, do Logos e de Zoé, o Homem e a Igreja.

