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[1] Com muito maior verossimilhança e elegância falou da origem do mundo um dos antigos comediógrafos, Aristófanes, na sua Teogonia. Ele diz que a Noite e o Silêncio emitiram o Caos e depois, o Caos e a Noite, Cupido; e este, a Luz e depois, segundo ele, todos os outros deuses da primeira geração.

[2] Depois disso, o cômico introduz a segunda geração de deuses, a criação do mundo e conta a modelagem do homem por estes deuses. Apropriando-se deste mito, os heréticos trataram-no como algo natural, mudaram os nomes, conservando, porém, o princípio e a produção do universo. À Noite e ao Silêncio deram o nome de Abismo e Silêncio, ao Caos o de Nous, a Cupido, que para o cômico teria composto todas as coisas, o de Logos.

[3] No lugar dos primeiros e máximos deuses colocaram os Éões, e aos segundos deuses atribuíram a atividade exercida fora do Pleroma pela Mãe dos Éões, que chamam segunda Ogdôada, da qual, à semelhança deles, foi feita a criação do mundo e a modelagem do homem.

[4] Dizem que somente eles conhecem estes mistérios inefáveis e ignorados, e o que nos teatros é representado com esplêndidas invenções pelas máscaras, eles o acomodam à sua teoria, ou melhor, conservam aqueles mesmos assuntos, mudando somente os nomes.

[5] E não somente temos argumentos para dizer que apresentam como de sua autoria o que se encontra nos cômicos, mas também o que foi dito por todos que não conhecem a Deus e são denominados filósofos. Amontoando e costurando juntas muitas peças esfarrapadas, como num centão, fabricaram para si uma aparência fictícia à custa de falatório sutil.

[6] E a nova doutrina que ensinam, elaborada pacientemente, com arte nova, no fundo é velha e inútil, porque costuraram juntas velhas crenças, que cheiram a ignorância e irreligiosidade. Tales de Mileto disse que a origem e o princípio de todas as coisas era a água: dizer água ou Abismo é a mesma coisa.

[7] O poeta Homero definiu o Oceano como a origem dos deuses e Tétis como a mãe deles, e os hereges os transformaram em Abismo e Silêncio. Anaximandro estabeleceu como causa primeira de todas as coisas o infinito, que continha em si, como semente, a origem delas e do qual, como diz, procederam inumeráveis mundos: estes também foram convertidos em Abismo e nos seus Éões.

[8] Anaxágoras, que recebeu a alcunha de ateu, ensinou que os viventes se originaram de sementes caídas do céu na terra e eles as transformaram nas sementes da sua Mãe, acrescentando que eles próprios eram estas sementes. Com o que, admitem, para quem tem juízo, que eles são as sementes do ateu Anaxágoras.

[9] Tomaram o conceito de sombra e de vazio e o adaptaram à sua teoria, de Demócrito e Epicuro que foram os primeiros a falar fartamente do vazio e dos átomos, chamando estes “ser” e aquele “não ser”.

[10] Justamente como os que chamam “ser” o que está dentro do Pleroma e que corresponde aos átomos do filósofo, e “não ser” o que está fora do Pleroma e que os filósofos chamam vazio. Eis então que, estando neste mundo e fora do Pleroma, estabeleceram para si um lugar que não existe.

[11] Dizendo que estas coisas são imagens daquelas que estão acima exprimem abertamente a opinião de Demócrito e de Platão. Demócrito foi o primeiro a dizer que muitas e diversas figuras do universo desceram a este mundo, e Platão, por sua vez, estabeleceu a matéria, o modelo e Deus.

[12] Seguindo a opinião destes filósofos chamam estas coisas figura dele e imagem das coisas que estão acima e, pela troca de nomes, gabam-se de ser os inventores e autores desta ficção fantástica.

[13] Que o Demiurgo fez o mundo com matéria preexistente já o tinham dito antes deles Anaxágoras, Empédocles e Platão, inspirados, como é fácil de entender, pela Mãe destes gnósticos.

[14] Que necessariamente todas as coisas se dissolvam naquelas das quais foram feitas e que desta necessidade até Deus seja escravo, tanto que não possa conferir a imortalidade ao mortal ou dar a incorruptibilidade ao corruptível, mas que cada um recaia, numa substância, a ele, foi afirmado também pelos estóicos, assim chamados da palavra grega “Stoá” que significa Pórtico, e por todos os poetas e escritores que não conhecem a Deus.

[15] Participando da mesma incredulidade atribuíram aos pneumáticos o lugar que lhes pertence dentro do Pleroma; aos psíquicos, o lugar no Intermediário; e aos somáticos, no elemento terrestre. Deus não teria nenhum poder contra isso, mas cada um dos seres supraditos deve voltar entre os que são da sua mesma natureza.

[16] Ao dizer que o Senhor é composto de todos os Éões que depuseram nele o melhor de si, não dizem nada de novo além da Pandora de Hesíodo: o que ele disse daquela estes o ensinam do Salvador, apresentando-o como um Pandorão em que cada um dos Éões depositou o que tinha de melhor.

[17] A sua indiferença acerca dos alimentos e das outras ações e a persuasão de não poder ser contaminados por nada, por causa da sua superioridade, sejam quais forem as coisas que façam ou os alimentos que tomem, herdaram-nas dos cínicos e na realidade possuem a mesma mentalidade.

[18] Usar contra a fé o esmiuçamento e a subtileza nas questões é próprio do argumentar aristotélico.

[19] O querer transferir este universo aos números o tiraram dos pitagóricos. De fato, foram estes os primeiros a estabelecer o início de todas as coisas nos números e o início dos números no par e no ímpar, dos quais derivam as coisas visíveis e as inteligíveis.

[20] Os princípios da substância material são uns e os da inteligência são outros e é deles que foram feitas todas as coisas, como uma estátua é composta de matéria e forma. E adaptaram esta teoria a tudo o que está fora do Pleroma.

[21] Dizem que o princípio do entendimento está no que a inteligência intui como fundamental e que procura até chegar cansada ao um e ao indivisível. O princípio de todas as coisas e a substância de todas as gerações é o Hen, isto é, o Um; dele derivam a díada, a tétrada, a pêntada e a múltiplice geração dos outros; e aplicam tudo isto, palavra por palavra, ao Pleroma e ao Abismo.

[22] Procuram depois introduzir as sizígias do Um, e Marcos vangloria-se disso como da novidade maior que teria encontrado a mais que os outros, ao passo que a sua não é senão a exposição da tétrada de Pitágoras, origem e mãe de todas as coisas.

[23] Então diremos contra eles: todos estes que lembramos e dos quais partilhais as teorias, conheceram ou não conheceram a verdade? Se a conheceram foi supérflua a vinda do Salvador a este mundo. Com efeito, para que teria vindo a este mundo? Para trazer a verdade já conhecida a homens que já a possuíam?

[24] Se não a conheceram, como é que dizeis as mesmas coisas destes que não conheceram a verdade e vos gloriais de possuir, somente vós, a gnose superior a tudo, quando é a mesma dos que não conhecem a Deus? Estais, portanto, em contradição, chamando gnose ao desconhecimento da verdade e Paulo se expressa bem falando de “novidade de palavras” e de “falsa sabedoria”. Verdadeiramente falsa, portanto, é a vossa gnose!

[25] Se, ao tratar destas coisas, acrescentarem impudentemente que se os homens não conhecessem a verdade, contudo a sua Mãe, semente do Pai, por meio destes homens e dos profetas, anunciou os mistérios da verdade, sem o Demiurgo o saber, então diremos que as coisas ditas acima eram de molde a não serem entendidas por todos, visto que os mesmos homens, os seus discípulos e sucessores, sabiam perfeitamente o que diziam.

[26] E mais, se a Mãe ou a Semente conheciam e anunciavam os mistérios da verdade e se esta verdade é o Pai, o Salvador, segundo eles, teria mentido ao dizer: “Ninguém conheceu o Pai a não ser o Filho”. Ora, se é conhecido pela Mãe ou pela sua Semente perde valor a frase “Ninguém conhece o Pai a não ser o Filho”, salvo que queiram indicar como ninguém a sua Semente ou a sua Mãe.

[27] Até aqui, servindo-se do sentir humano e de expressões semelhantes às de muitos que não conhecem a Deus, aliciaram alguns por uma aparência de verdade, atraindo-os com doutrinas que lhes eram familiares, para a teoria comum a todos eles.

[28] Apresentam-lhes a gênese do Verbo de Deus, da Verdade e da Vida, a gênese do Intelecto, como parteiras das emissões de Deus. Quanto ao que procede destes já não há o cuidado com a verossimilhança ou com provas, é a mentira em relação a tudo e a todos.

[29] Como quem quer capturar um animal lhe apresenta o alimento costumeiro para aliciá-lo e o agrada oferecendo-lhe a pouco e pouco a comida preferida até que o apanhe, e uma vez que o capturou o amarra firmemente e o leva pela força onde quer, assim agem os gnósticos.

[30] De mansinho, partindo de noções familiares, fazem com que, a pouco e pouco, se aceitem as emissões de que já falamos e depois introduzem todas as outras espécies de emissões extravagantes e inverossímeis.

[31] Assim afirmam que dez Éões foram emitidos pelo Logos e a Zoé, e doze pelo Homem e a Igreja, e querem que se acredite sem apresentar provas, nem testemunhas, nem verossimilhanças, às cegas, e assim tal qual afirmam, que pelo Logos e a Zoé foram emitidos o Abismo e a Confusão, o Aguératos e a União, o Autoproduto e a Satisfação, o Imóvel e a Mistura, o Unigênito e a Felicidade e, da mesma forma, pelo Homem e a Igreja foram emitidos o Consolador e a Fé, o Paterno e a Esperança, o Materno e a Caridade, o Eterno e a Compreensão, o Eclesiástico e a Bem-aventurança, o Desejado e a Sofia.

[32] No livro precedente, ao expor diligentemente as teorias dos hereges, falamos das paixões e da desviação da Sofia, do perigo de perecer, que enfrentou, por causa da procura do Pai, como eles dizem.

[33] Falamos das emissões que aconteceram fora do Pleroma e de qual degradação, como ensinam, foi emitido o criador do mundo.

[34] Finalmente, falamos do Cristo, que dizem emitido depois dos outros Éões e do Salvador que recebeu a substância dos Éões caídos na degradação.

[35] Foi necessário lembrar aqui os nomes dos Éões para que aparecesse o absurdo das suas mentiras e a inconsistência dos nomes inventados por eles.

[36] Eles próprios tiram a honra dos seus Éões com estes apelidos variados, ao passo que os pagãos dão aos seus doze deuses, que eles dizem serem imagens dos doze Éões, nomes mais verossímeis e fáceis de crer.

[37] Estes deuses têm nomes mais convenientes e poderosos, pela sua etimologia, para designar a divindade.

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