[1] Se, convencidos por nós que não podem explicar tal emissão do Pleroma, se recusarem a admitir o que dissemos, serão obrigados a confessar que acima do Pleroma existe outra ordem mais pneumática, mais soberana, segundo a qual foi formado o Pleroma.
[2] Com efeito, se o Demiurgo não plasmou de si mesmo a forma da criação, mas segundo a forma daquelas coisas superiores, o Abismo que fez o Pleroma daquela forma determinada, onde foi buscar a forma para as coisas feitas antes dele?
[3] Devemos admitir que o Deus, criador do mundo, o criou pelo seu poder e tomando de si mesmo o modelo desta criação, ou, na suposição de que alguém foi levado a fazê-lo, devemos sempre procurar de onde veio ao que é superior a isto, o modelo das coisas criadas, qual é o número das emissões e a natureza do modelo.
[4] Se foi possível ao Abismo realizar por si mesmo o modelo do Pleroma, por que o Demiurgo não pôde por si mesmo realizar este mundo?
[5] E se a criação é a imagem daqueles, o que impede dizer que eles são imagem de coisas superiores, e as superiores de outras ainda, e chegar a infinitas imagens de imagens?
[6] É o que aconteceu a Basílides que, sem chegar à verdade, julgou que podia evitar esta dificuldade com uma série infinita de coisas derivadas umas das outras, quando estabeleceu 365 céus criados sucessivamente um do outro por meio da semelhança; e isto, como dissemos, seria indicado pelos dias do ano, sobre os quais estaria a potência que dizem Inefável e a economia dela.
[7] Mas nem mesmo assim evita a dificuldade. Com efeito, se lhe perguntarem de onde recebe o céu superior aquela forma pela qual foram feitos sucessivamente os outros, ele responderá que a recebe da economia do Inefável.
[8] Portanto, ou diz que o Inefável fez esta obra de si mesmo ou terá que admitir uma Potência superior da qual o Inefável recebeu o modelo grandioso das coisas assim feitas por ele.
[9] Não é mais seguro e justo confessar logo, desde o princípio, que este Deus criador, que fez o mundo, é o único Deus e que não há outro deus além dele e que tirou de si o modelo e a forma das coisas criadas do que, cansados de tamanha impiedade e tantos raciocínios, ser obrigados a fixar o espírito num Deus único e reconhecer que é dele que vem o modelo da criação?
[10] Com efeito, o que os valentinianos nos censuram, isto é, de ficarmos na Hebdômada inferior sem levantar a mente às coisas superiores e de não ter o sentido das coisas do alto, porque não aceitamos as coisas prodigiosas que nos contam, isso mesmo é censurado neles pelos basilidianos; atolados nas coisas inferiores não passam da primeira e da segunda Ogdôada, pensando estupidamente já ter encontrado logo depois dos trinta Éões o Pai que está acima de todas as coisas, sem considerar o Pleroma que domina os 365 céus, isto é, mais de 45 Ogdôadas.
[11] Mas alguém poderia, com o mesmo direito, apresentar também a estes a mesma dificuldade, supondo 4.380 céus ou Éões, porque os dias do ano têm este número de horas.
[12] E se, por acaso, acrescentar também o número de horas das noites de um ano, duplicaria este número.
[13] Então poderia acreditar ter descoberto imensa multidão de Ogdôadas e incomensurável produção de Éões contra o Pai que está acima de todas as coisas.
[14] Então, julgando-se o mais perfeito de todos, poderia censurar a todos a mesma coisa: de serem incapazes de elevar-se à multidão dos céus ou Éões indicada por ele, e, por falta de força, ficar em baixo, no mundo inferior ou no médio.

