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[1] Vistas as muitas contradições e dificuldades existentes na produção do Pleroma e sobretudo da primeira Ogdôada, consideraremos o resto, e, por causa da insensatez deles, estudaremos coisas que não existem. Devemos fazer isso, porque nos foi confiada esta tarefa e porque queremos que todos os homens cheguem ao conhecimento da verdade e ainda porque você mesmo nos pediu numerosas e possíveis provas para refutar esses heréticos.

[2] Uma pergunta possível é: como foram produzidos os outros Éões? Unidos ao que os emitiu, como os raios ao sol, ou separados e distintos, possuindo cada um separadamente a sua própria configuração, como homem de homem, ou animal de animal, ou por germinação, como os ramos de uma árvore? São da mesma substância dos que os emitiram ou cada um tem substância própria? Foram emitidos todos ao mesmo tempo, tendo, portanto, a mesma idade ou segundo determinada sucessão, pela qual alguns deles são mais velhos e outros mais novos? E, finalmente, foram emitidos simples, uniformes e em tudo iguais e semelhantes entre si, como os espíritos ou uma chama, ou são compósitos, diversos, dessemelhantes nas suas partes?

[3] Mas se cada um foi emitido separadamente e conforme sua própria geração, à semelhança dos homens, ou serão gerados pelo Pai e, portanto, consubstanciais e semelhantes ao gerador; ou serão diferentes e, então, é preciso admitir que foram produzidos por outra substância. Ora, se forem semelhantes ao Pai que os gerou, serão, como ele, impassíveis para sempre; se, porém, derivam de outra substância passível, de onde virá esta diversidade de substâncias no seio de um Pleroma de incorruptibilidade?

[4] E ainda, nesta hipótese, cada um aparece distinto e separado dos outros como os homens, não unidos e misturados uns aos outros, mas cada um com forma distinta, definida, e respectiva grandeza: coisas que são próprias dos corpos e não dos espíritos. Portanto, não digam que o Pleroma é pneumático, assim como eles não o são, se é verdade que os Éões, semelhantes a homens, se banqueteiam ao lado do Pai, o qual possui os traços determinados, manifestados por aqueles que foram emitidos por ele.

[5] Se, porém, foram acendidos como uma chama de outra chama, os Éões do Logos, o Logos do Nous e o Nous do Abismo, talvez sejam diferentes por geração e grandeza como tocha de tocha; mas tendo a mesma substância que o autor da emissão, ou continuam todos igualmente impassíveis, ou então o Pai deles está submetido a paixões. Com efeito, a tocha acesa em segundo lugar não tem chama diferente da que já estava acesa.

[6] Eis por que quando todas as suas chamas são reunidas numa só formam, por esta concorrência, a unidade originária da única chama que existia no princípio. O que é mais recente e o que é mais antigo não se pode distinguir nem na única chama, porque ela é una, única e total, nem nas próprias tochas que receberam a chama, porque têm a mesma idade quanto à matéria substancial, sendo feitas com a única e igual matéria. Só existe uma ordem no acendimento, visto que uma foi acesa algum tempo antes e outra depois.

[7] Portanto, a degradação da paixão que se deu por causa da ignorância, ou atingirá de forma igual todo o Pleroma porque participa da mesma natureza e o Protopai estará na degradação da ignorância, isto é, ignorará a si mesmo; ou todas as tochas que estão no Pleroma ficarão semelhantemente impassíveis.

[8] Então, como pode sobrevir alguma paixão ao Éon mais jovem se é da chama paterna que foram formadas todas as chamas e ela é impassível por natureza? E como pode um Éon ser chamado mais velho ou mais novo que outro quando há uma única chama em todo o Pleroma? E se alguém quer chamá-los estrelas participarão da mesma natureza do universo. De fato, se “uma estrela difere da outra no esplendor”, não o será por causa da natureza ou da substância que fazem algumas coisas passíveis e outras impassíveis.

[9] Derivando todas da única chama paterna ou são todas impassíveis e imutáveis por natureza; ou todas, como a luz do Pai, são passíveis e sujeitas às mudanças e à corrupção.

[10] Os mesmos motivos aplicam-se também quando dizem que a emissão dos Éões foi feita pelo Logos como os ramos da árvore, porque o Logos também é emitido pelo Pai deles. Eles são todos da mesma natureza do Pai e diferem entre si somente em ordem à grandeza e não pela natureza e completam a grandeza do Pai assim como os dedos completam a mão.

[11] E se o Pai se encontra na paixão e na ignorância, também o estarão os Éões gerados por ele. Mas se é ímpio atribuir ignorância e paixão ao Pai de todas as coisas, como podem dizer que emitiu um Éon passível? E quando é à própria Sabedoria de Deus que atribuem esta impiedade, como se podem declarar homens religiosos?

[12] Se depois dizem que os Éões foram emitidos como os raios do sol, sendo todos da mesma natureza e origem, ou são todos passíveis juntamente com o emissor deles ou todos sempre impassíveis. De fato, não quererão admitir que de tal emissão alguns sejam passíveis e outros impassíveis.

[13] Se, portanto, dizem que são todos impassíveis, eles próprios tiram a força do seu argumento: com efeito, como pode o Éon menor sofrer a paixão se são todos impassíveis? E se dizem que todos participaram da paixão dele, como alguns ousam dizer que começou no Logos e passou depois para a Sofia, poderão ser acusados de atribuir a paixão ao Logos e até ao Nous do Protopai, admitindo que o Nous do Protopai e o próprio Pai estiveram sujeitos à paixão.

[14] Com efeito, o Pai não é, como um composto vivente, algo de diferente do Nous, como já demonstramos acima, mas o Nous é o Pai e o Pai é o Nous. É necessário, por isso, que o Logos, que procede do Nous, e mais ainda o próprio Nous, que é idêntico ao Logos, sejam perfeitos e impassíveis, e que todas as suas emissões, sendo da mesma natureza, sejam perfeitas e impassíveis, sempre semelhantes àquele que os emitiu.

[15] De fato, o Logos não ignorou o Pai, por ser o terceiro na linha de emissões, como eles ensinam. Isto talvez possa ser admitido na geração dos homens visto que alguns deles, muitas vezes, não conhecem os pais, mas no Logos do Pai isso é absolutamente impossível.

[16] Com efeito, se o Logos está no Pai conhece aquele no qual se encontra e por isso não ignora a si mesmo, também as suas emissões, sendo suas Potências e estando sempre a seu lado, não ignoram quem as emitiu, assim como os raios luminosos não se esquecem do sol.

[17] Portanto, não é possível que a Sofia de Deus, que está dentro do Pleroma e deriva de tal emissão, tenha caído na paixão e concebido semelhante ignorância. É mais possível que a sabedoria de Valentim, que vem do diabo, se encontre tomada por toda espécie de paixão e produza um abismo de ignorância.

[18] Com efeito, quando afirmam que a Mãe deles é fruto do Éon desviado não é mais preciso procurar o motivo pelo qual os filhos de tal mãe nadem num abismo de ignorância!

[19] Acredito que não possam inventar outras emissões além destas; nem souberam eles indicar outras especiais, que eu saiba, mesmo depois de ter tido longas discussões com eles acerca deste argumento.

[20] Dizem que cada um foi emitido de modo tal que conheceu somente o seu emissor e não conheceu o que vinha antes dele. Não recuam mais atrás para explicar como foram emitidos ou como isto é possível em se tratando de seres espirituais. Seja qual for a direção que tomem, eles se afastam da reta razão, cegos que são acerca da verdade, a ponto de dizerem que o Logos emitido pelo Nous do Protopai foi emitido na degradação.

[21] Por isso, o Nous perfeito emitido pelo Abismo perfeito não pode produzir de si uma emissão perfeita, mas somente uma cega quanto ao conhecimento da grandeza do Pai. O Salvador teria mostrado um símbolo deste mistério no cego de nascença, dando assim a conhecer que um Éon fora emitido cego pelo Unigênito, isto é, na ignorância.

[22] Desta forma atribuem ignorância e cegueira ao Logos de Deus na sua segunda, no dizer deles, emissão do Protopai. Sofistas admiráveis, que perscrutam as profundezas do Pai desconhecido e narram os mistérios supracelestes “em que os anjos desejam olhar”, para aprender que o Logos emitido pelo Nous do Pai que está acima de todas as coisas foi emitido cego, ignorando o Pai que o emitiu!

[23] Como é, ó sofistas dos mais vazios, que o Nous do Pai e até o próprio Pai, que é Nous e é perfeito em tudo, emitiu o Logos como Éon cego e imperfeito, quando podia imediatamente produzir com ele o conhecimento do Pai, assim como dizeis que o Cristo, nascido depois de todos os outros, foi emitido perfeito?

[24] Portanto, com maior razão, o Logos, que é mais velho, havia de ser emitido perfeito por este mesmo Nous e não cego, e ele, por sua vez, não emitiria Éões mais cegos do que ele próprio, até que a vossa Sofia sempre cega não tivesse produzido tão grande quantidade de males.

[25] E o responsável de todos estes males é o vosso Pai! Com efeito, vós dizeis que a razão da ignorância é a grandeza e a potência do Pai, tornando-o semelhante ao Abismo e dando precisamente este nome ao Pai inefável.

[26] Se a ignorância é o mal do qual derivaram todos os males, e se a causa dela é a grandeza e o poder do Pai, vós o declarais o autor do mal, porque chamais de causa do mal a impossibilidade de contemplar a sua grandeza.

[27] Mas se era impossível ao Pai dar-se a conhecer às suas criaturas desde o princípio, não pôde ser culpado de não ter eliminado dos seus descendentes a ignorância. E se depois, por sua vontade, pôde fazer desaparecer a ignorância que ia aumentando com a sucessão das emissões e se tinha espalhado nos Éões, muito mais, por um ato de vontade, não deveria ter permitido que esta ignorância se produzisse quando ainda não existia.

[28] Então, visto que se deu a conhecer quando quis, não somente pelos Éões, mas também pelos homens nascidos nos últimos tempos, e foi ignorado porque não quis ser conhecido desde o princípio, no vosso parecer a causa da ignorância é a vontade do Pai.

[29] Se ele sabia que teria acontecido deste modo, por que não eliminou deles, antes que se produzisse, aquela ignorância que depois, como que arrependido, sarou pela emissão do Cristo? A gnose que entregou a todos pelo Cristo poderia entregá-la muito antes pelo Logos, primogênito do Unigênito.

[30] Mas se ele quis isto com previsão perfeita, então os efeitos da ignorância devem continuar e nunca serão eliminados; de fato, o que existe pela vontade do Pai deve durar quanto a sua vontade; se, porém, passam, com eles há de passar também a vontade que decidiu a natureza deles.

[31] O que os Éões aprenderam para entrar no repouso e possuir a gnose perfeita a não ser que o Pai é incompreensível e inatingível? Poderiam ter recebido esta gnose antes de cair na paixão, porque não seria diminuída a grandeza do Pai se tivessem sabido desde o princípio que o Pai era incompreensível e inatingível.

[32] Se, de fato, era ignorado por causa da imensa grandeza, pelo seu amor superabundante, deveria manter impassíveis os que tinha emitido, pois nada impedia, e até era extremamente útil, que tivessem conhecido desde o princípio que o Pai era incompreensível e inatingível.

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