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[1] Como não definir sem sentido a afirmação que Sofia se encontrou na ignorância, na degradação e na paixão? Estas coisas são estranhas e contrárias à Sofia e não a podem concernir-lhe: onde há ignorância de prudência e ignorância do útil, aí não há Sofia. Deixem de chamar com o nome de Sofia um Éon sujeito a paixões e renunciem à palavra e às paixões em questão, e não digam que o Pleroma todo é pneumático, quando um Éon, tomado por estas paixões, esteve dentro dele. Com efeito, sequer uma alma forte poderia experimentar estas paixões, para não falar de uma substância pneumática.

[2] Como pode a Entímese deste Éon sair dele com a paixão e tornar-se ser distinto? Não se pode entender a Entímese senão em relação a alguém, sozinha não pode existir: uma tendência má é absorvida e eliminada por uma boa, como a doença pela saúde. Qual era a tendência que precedeu a paixão? Procurar o Pai e contemplar a sua grandeza.

[3] O que a persuadiu depois e a curou? A persuasão de que o Pai é incompreensível e não podia ser encontrado. Não era bom que ela quisesse conhecer o Pai e por isso foi sujeitada à paixão; mas quando se convenceu de que o Pai é incompreensível foi curada. Até o próprio Nous que procurava o Pai deixou de procurá-lo, segundo eles, quando soube que o Pai é incompreensível.

[4] Como pode a Entímese separada conceber paixões que também eram suas disposições? Uma disposição está relacionada com alguém e não pode existir nem persistir por sua conta. Isto não somente é absurdo, mas também contrário a quanto foi dito por nosso Senhor: “Procurai e encontrareis”. O Senhor torna perfeitos os seus discípulos fazendo-os procurar e encontrar o Pai, mas o Cristo do alto deles, ao contrário, torna-os completamente perfeitos proibindo-lhes procurar o Pai e convencendo-os de que sequer à custa de grandes esforços o encontrariam.

[5] Eles se autodenominam perfeitos porque encontraram o Abismo, e os Éões, porque se convenceram de que quem procuravam é inacessível.

[6] Se, portanto, a própria Entímese não pode existir separada do Éon, proferem mentira ainda maior ao separar dela a paixão e identificando-a com a substância material, como se Deus não fosse luz e não houvesse um Verbo capaz de desmascará-los e de refutar-lhes a perversidade.

[7] Certamente, tudo o que o Éon sentia como desejo também o provava como paixão, e o que para eles era a Entímese, não era senão a paixão de quem se prefixara entender o incompreensível e a paixão era a Entímese: apaixonava-se por coisa impossível. Como esta disposição e esta paixão se podiam separar da Entímese e tornar-se a substância de uma matéria tão considerável, já que a Entímese era idêntica à paixão e a paixão à Entímese?

[8] Em suma, nem a Entímese sem o Éon, nem as disposições sem Entímese podem constituir uma essência separada. Portanto, cai novamente a sua Regra.

[9] E como poderia um Éon cair e ser tomado de paixão tendo a mesma substância do Pleroma, e o Pleroma a mesma do Pai? Coisas semelhantes colocadas juntas não se dissolvem no nada nem correm o perigo de perecer, antes perdurarão e aumentarão, como o fogo com o fogo, o vento com o vento e a água com a água; somente os contrários sofrem, se transformam e desaparecem pela ação dos contrários.

[10] Por isso, se tivesse sido emissão de luz, não poderia sofrer nem correria perigo dentro de luz semelhante, mas, pelo contrário, haveria de tornar-se mais resplandescente e aumentar, como o dia sob a ação do sol. Ora, eles dizem que o Abismo é imagem do Pai.

[11] Todos os animais selvagens, diversos e estranhos por natureza, correm o risco de eliminar-se uns aos outros, mas os que estão acostumados entre si e os que são da mesma raça não correm perigo nenhum em viver juntos, e até adquirem saúde e vida com isso.

[12] Se, portanto, este Éon foi emitido da mesma substância de todo o Pleroma não sofreria mudanças, porque se encontrava com seres semelhantes e familiares, pneumático entre pneumáticos.

[13] O medo, a consternação, a paixão, a confusão e semelhantes podem encontrar-se entre nós, corporais, pela ação dos contrários, mas a seres espirituais e envolvidos na luz não acontecem essas desgraças. Tenho a impressão de que atribuíram ao seu Éon a grande paixão de amor e ódio que se encontra no cômico Menandro.

[14] Os que imaginaram estas coisas parece que tinham em mente mais a imagem de amante infeliz do que a de substância espiritual e divina.

[15] Além disso, ter a ideia de procurar o Pai perfeito, de querer penetrar nele e de compreendê-lo, não podia gerar ignorância nem paixão, especialmente num Éon pneumático, mas ao contrário, perfeição, impassibilidade e unidade.

[16] Até eles, que não são senão homens, quando pensam naquele que é superior a eles, quando entendem de certa forma o Perfeito e se vêem constituídos na gnose, não afirmam que estão na paixão e na angústia, e sim que se encontram no conhecimento e na apreensão da verdade.

[17] Eles afirmam que o Salvador disse aos seus discípulos: “Procurai e encontrareis” justamente para que procurassem o Abismo inefável, por eles imaginado superior ao Criador de todas as coisas; e a si mesmos chamam de perfeitos justamente porque, na sua procura, encontraram o Perfeito, mesmo estando ainda na terra.

[18] Mas no que se refere ao Éon, que está no Pleroma, todo pneumático, que procura o Protopai, que se esforça por entrar na sua grandeza e que tem o desejo ardente de entender a Verdade paterna, dizem que teria caído em poder da paixão, de paixão tão grande que, se não recebesse a ajuda da Potência que consolida todas as coisas, ter-se-ia dissolvido na substância universal e desaparecido.

[19] Pretensão desvairada, digna, na verdade, da inteligência de homens abandonados pela verdade! Que este Éon seja melhor e mais antigo do que eles, reconhecem-no eles mesmos na sua Regra, ao se dizerem fruto do parto da Entímese do Éon que foi tomado pela paixão, daquele que é pai da mãe deles, isto é, o seu avô.

[20] Assim, para os netos, a procura do Pai produz verdade, perfeição, estabilidade, libertação da matéria inconsistente, como dizem, e reconciliação com o Pai.

[21] Mas para o avô esta mesma procura teria causado ignorância, paixão, medo, temor e consternação, coisas essas todas de que dizem ser feita a matéria.

[22] Destarte, procurar e estudar o Pai perfeito, desejar a comunhão e a união com ele, seria fonte de salvação para eles e de corrupção e de morte para o Éon do qual foram emitidos.

[23] Como é possível ver aí algo que não seja absurdo, vão e irracional? Os que admitem estas doutrinas são verdadeiramente aqueles cegos que se confiam a guias cegos e justamente se precipitam no abismo de ignorância que se abre embaixo deles.

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