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[1] E que dizer do germe concebido pela Mãe segundo a forma dos anjos que estão à volta do Salvador, sem forma nem figura e imperfeito, depositado no Demiurgo, sem ele o saber, a fim de que semeado por ele nas almas provindas dele, recebesse formação e perfeição? Primeiramente se deve dizer que os anjos que estão à volta do Salvador são sem forma, sem figura e imperfeitos, porque foi depois de ser concebido à imagem deles que o germe foi dado à luz.

[2] Em segundo lugar, dizer que o Demiurgo ignorou a deposição nele do germe e também a fecundação que ele produziu no homem, é asserção vazia, sem consistência e que não se pode minimamente sustentar. Como poderia ignorar o germe se ele tivesse alguma substância e qualidade próprias? Com certeza, se não tivesse substância nem qualidades, se fosse nada, é lógico que o ignorasse.

[3] Se o que tem alguma ação ou qualidade própria, quer de calor, quer de velocidade, quer de doçura, quer uma diferença de luminosidade, não escapa aos homens muito menos escapará ao Deus criador do universo, que não conheceu a semente deles justamente porque é sem qualidades que a tornem útil para alguma coisa, sem substância que lhe permita alguma ação, é inteiramente inexistente.

[4] É por isso também que me parece que o Senhor tenha dito: “No dia do juízo, os homens prestarão conta de toda palavra ociosa que tenham dito. Todos os que são desta espécie e que tiverem dito coisas ociosas, semelhantes a estas, aos ouvidos dos homens, comparecerão em juízo para prestar contas das suas vãs elucubrações e das suas mentiras contra Deus”.

[5] Assim, enquanto dizem que eles conhecem o Pleroma pneumático graças à substância da semente, o homem interior lhes mostra o Pai verdadeiro: com efeito, para o elemento psíquico são necessários ensinamentos sensíveis; quanto ao Demiurgo, que recebeu em si a totalidade da semente depositada pela Mãe, dizem que ficou na mais completa ignorância e não teve percepção alguma das realidades do Pleroma.

[6] E não é sumamente irracional que eles sejam pneumáticos porque foi depositada nas suas almas uma partícula do Pai de todas as coisas e que as suas almas, como dizem, sejam da mesma substância do Demiurgo, o qual, tendo recebido da Mãe, de uma só vez, a totalidade da semente e possuindo-a em si, teria ficado psíquico e não teria tido absolutamente nenhuma percepção daquelas realidades superiores que eles se vangloriam de ter compreendido, ainda viventes na terra?

[7] Acreditar que a mesma semente tenha conseguido para suas almas o conhecimento e a perfeição, enquanto teria conseguido somente ignorância para o Deus que os criou é coisa de tresloucados sem juízo nenhum.

[8] Mais absurda ainda é a afirmação de que nesta deposição a semente é formada, acrescida e tornada apta a receber o Logos perfeito. A mistura com a matéria, que derivou a sua substância da ignorância e da degradação, seria para ela mais útil do que o foi o lume paterno.

[9] Com efeito, a visão dele causou uma produção sem forma nem figura, enquanto pela mistura com a matéria a semente recebe a forma, a figura, o crescimento e a perfeição.

[10] Se a luz que veio do Pleroma foi a causa pela qual o elemento pneumático não recebeu forma, nem figura, nem grandeza própria, enquanto tudo isso lhe seria dado e levado à perfeição pela sua descida aqui em baixo, neste mundo que chamam de trevas, esta permanência lhes foi mais útil do que a luz paterna.

[11] Então não é ridículo dizer que a Mãe, na matéria, se arriscou a ser sufocada e que pouco faltou que fosse destruída se não se tivesse levantado a si mesma com a ajuda do Pai e que a semente, nesta mesma matéria, desenvolveu-se, formou-se e tornou-se capaz de receber o Logos perfeito, e para tanto agitando-se dentro de elementos diferentes e estranhos à sua natureza, visto que são eles que dizem que o terreno se opõe ao pneumático e o pneumático ao terreno?

[12] Como então, emitida pequena, entre elementos diferentes e estranhos, conseguiu crescer, formar-se e atingir a perfeição?

[13] Além do que já foi dito, perguntaremos ainda se a Mãe deles emitiu a sua semente toda de uma vez ou por partes. Se foi toda de uma vez, o que foi emitido já não é criança e então é supérflua a sua descida entre os homens agora; se, porém, foi por partes, já não pode haver concepção feita à imagem dos anjos vistos pela Mãe; tendo-os visto e concebido de uma só vez, de uma só vez havia de emitir as imagens assim concebidas.

[14] E como é que vendo os anjos e o Salvador ao mesmo tempo, deles concebeu imagens e não do Salvador que era mais belo do que eles? Talvez não tenha concebido à imagem dele por ele não lhe ter agradado?

[15] Como é que o Demiurgo, que chamam psíquico e que, segundo eles possui grandeza e formas próprias, foi emitido perfeito segundo a sua substância, e o elemento pneumático, que deve ser mais operante do que o psíquico, foi emitido imperfeito com a necessidade de descer num elemento psíquico para ser formado, tornado perfeito e capaz de receber o Logos perfeito?

[16] Portanto, se é formado em homens terrenos e psíquicos já não é semelhante aos anjos, que chamam Luzes, mas aos homens daqui em baixo, e não terá a semelhança e a beleza dos anjos, mas das almas nas quais é formado, assim como a água que está numa vasilha lhe toma a forma, e ao congelar mostra os contornos do recipiente em que estava.

[17] Assim também as almas possuem a forma do corpo, adaptadas que são ao seu receptáculo, como dissemos acima. Portanto, o germe coagula e é formado aqui em baixo e terá a forma de homem e não de anjo.

[18] Como então poderá ser à imagem dos anjos quando foi formado à imagem dos homens? Mas, no fundo, que necessidade tinha de descer na carne, se era espiritual? Porque é a carne que precisa do elemento espiritual se se deve salvar, para ser santificada e iluminada nele, de forma que o mortal seja absorvido pela imortalidade; o espiritual, porém, não tem nenhuma necessidade das coisas daqui de baixo, porque não somos nós que o tornamos melhor, mas ele a nós.

[19] Mais evidente à vista de todos aparece o erro deles a respeito da semente quando dizem que as almas que a receberam da Mãe são melhores do que as outras; por isso seriam honradas pelo Demiurgo e consagradas príncipes, reis e sacerdotes.

[20] Se isso fosse verdade, por primeiro Caifás, o sumo sacerdote, e Anás e os outros sumos sacerdotes, os doutores da Lei e os chefes do povo teriam acreditado no Senhor e se teriam dirigido a ele como a parente; e antes destes também o rei Herodes.

[21] Porém, nem este, nem os sumos sacerdotes, nem os chefes e os notáveis do povo acorreram a ele, mas, ao contrário, os mendigos sentados à beira do caminho, os surdos, os cegos, os conculcados e desprezados pelos outros, como diz Paulo: “Considerai a vossa vocação, irmãos, já que entre vós não há muitos sábios, nem nobres, nem poderosos; mas Deus escolheu o que havia de desprezível no mundo”, deve-se dizer que estas almas não eram melhores por causa de semente depositada neles e que não era por isso que eram mais honradas pelo Demiurgo.

[22] Isto é suficiente para demonstrar a fragilidade, a inconsistência e a vacuidade da sua Regra. Não é necessário, como se costuma dizer, beber toda a água do mar para saber que é salgada.

[23] Como de estátua de barro com a superfície pintada para se assemelhar ao ouro, mesmo sendo de barro, alguém tirando uma porção qualquer põe à mostra o barro e liberta do erro os que procuram a verdade, assim nós, refutando não pequena parte, mas os pontos principais da sua Regra, demonstramos, para os que não querem ser enganados voluntariamente, o que há de perversidade, de astúcia, de enganador e de danoso na escola dos discípulos de Valentim e de todos os outros hereges que blasfemam o Criador e o Autor deste universo, o Deus único: foi o que quisemos mostrar apresentando a inconsistência do seu caminho.

[24] De fato, qual é o homem sensato, que se tenha aproximado, ainda que pouco, da verdade, que poderá suportar alguém dizer que acima do Deus Criador há outro Pai; que um é o Unigênito, outro o Logos de Deus, emitidos na degradação, outro ainda o Cristo, nascido depois de todos os outros Éões com o Espírito Santo, outro finalmente o Salvador, que sequer derivaria do Pai de todas as coisas, mas seria formado pelo aporte de todos os Éões caídos na degradação e que teve que ser emitido por causa desta degradação?

[25] Assim, se os Éões não tivessem caído na ignorância e na degradação, nem o Cristo, segundo eles, seria emitido, nem o Espírito Santo, nem o Limite, nem o Salvador, nem os anjos, nem a Mãe deles com a sua semente, nem o resto da criação: o universo não tivera estes grandes bens.

[26] São, portanto, irreverentes, não somente com o Criador, que eles chamam “fruto da degradação”, mas também com o Cristo e o Espírito Santo, que dizem emitidos por causa da degradação, e com o Salvador, também emitido depois da degradação.

[27] Quem quiserá ainda escutar o resto de suas bacharelices que se esforçaram, com experteza, de adaptar às parábolas, para precipitar-se a si mesmos no máximo da impiedade, na companhia dos que acreditaram neles?

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