Skip to main content
search

[1] Mostramos agora como é sem motivo e propriedade que aplicam às suas teorias as parábolas e as ações do Senhor. Procuram mostrar que a paixão que pretensamente ocorreu com o décimo segundo Éon é indicada pelo fato de que a paixão do Salvador se deu por causa do décimo segundo apóstolo no décimo segundo mês.

[2] Segundo eles, o Salvador pregou somente durante um ano depois do batismo. Isso aparece mais claro ainda, dizem, na mulher que sofria de perda de sangue, porque sofreu doze anos e, tocando a orla do manto do Salvador, obteve a saúde graças à Potência que saiu do Salvador e que, dizem, era preexistente a ele.

[3] Porque a Potência caída em paixão se estendia e se expandia ao infinito, correndo o risco de se dissolver na substância universal, mas ao tocar a primeira Tétrada, significada pela orla do manto, sossegou e se livrou da paixão.

[4] Dizem que a paixão do décimo segundo Éon é simbolizada por Judas; mas como pode ser comparada a Judas que foi expulso do número dos doze e não recuperou o seu lugar?

[5] Dizem que o Éon, do qual Judas seria o tipo, foi separado da sua Entímese que foi reabilitada e aceita de volta, enquanto Judas era rejeitado e expulso e, no lugar dele, era consagrado Matias, como está escrito: “Que outro tome o encargo dele”.

[6] Deveriam ter dito que o décimo segundo Éon foi expulso do Pleroma e outro foi produzido ou emitido no lugar dele, se é que este Éon é representado por Judas.

[7] Dizem ainda que foi o próprio Éon que sofreu a paixão e que Judas foi o traidor: ora, eles próprios dizem que foi o Cristo e não Judas a sofrer a paixão. Como então Judas, traidor daquele que sofreu pela nossa salvação, podia ser o tipo e o símbolo do Éon caído em paixão?

[8] Além do mais, a paixão de Cristo não foi semelhante ou se deu em circunstâncias semelhantes à do Éon. O Éon sofreu uma paixão de dissolução e de destruição, ao ponto de quem sofria assim correr o perigo de corromper-se, enquanto nosso Senhor o Cristo sofreu paixão firme e sem cedimentos, em que, longe de correr o perigo de corromper-se, fortaleceu e reconduziu o homem corrompido à incorruptibilidade.

[9] O Éon sofreu a paixão procurando o Pai sem conseguir encontrá-lo, o Senhor sofreu para levar ao conhecimento e à proximidade do Pai os que se tinham afastado. Para o Éon a procura da grandeza do Pai se tornou paixão de perdição, para nós, a paixão do Senhor, trazendo-nos o conhecimento do Pai, foi fonte de salvação.

[10] A paixão do Éon produziu um fruto femíneo, como dizem, fraco, sem forma e incapaz de agir; a paixão do Senhor frutificou em força e poder. De fato, o Senhor, “tendo subido às alturas”, pela paixão, “levou cativo o cativeiro e distribuiu dons aos homens”, e concedeu aos que cressem nele “o poder de pisar as serpentes, os escorpiões e todas as potências do inimigo”, isto é, o iniciador da apostasia.

[11] O Senhor, mediante a paixão, destruiu a morte, eliminou o erro, exterminou a corrupção e destruiu a ignorância; manifestou a vida, mostrou a verdade e conferiu a incorruptibilidade.

[12] O Éon deles, pela paixão, fez aparecer a ignorância e deu ao mundo uma substância informe, da qual, segundo eles, derivaram todas as obras terrenas, a morte, a corrupção e tudo o resto.

[13] Portanto, nem Judas, o décimo segundo discípulo, nem a paixão de nosso Senhor, podem ser a figura do Éon caído na paixão, porque não somente nos dois casos há diferenças e divergências, como acabamos de mostrar, mas também por causa do próprio número.

[14] Que Judas seja o décimo segundo na lista evangélica dos doze apóstolos é admitido por todos; mas o Éon não é o décimo segundo, ele é o trigésimo. Com efeito, foram somente doze os Éões emitidos pela vontade do Pai, e este de quem falamos não foi emitido em décimo segundo lugar e eles mesmos o dizem emitido em trigésimo lugar.

[15] Como então Judas, que ocupa o décimo segundo lugar, pode ser a figura e a imagem de um Éon que está em trigésimo lugar?

[16] Se dizem que o Judas que se perde é a imagem da Entímese dele, nem assim a imagem corresponde àquela que segundo eles é a realidade. Com efeito, esta Entímese, separada do Éon, e depois formada pelo Cristo e tornada sábia pelo Salvador, depois de ter realizado todas as coisas que estão fora do Pleroma à imagem daquelas que estão dentro do Pleroma, no fim deve ser reintroduzida no Pleroma e ficar unida, segundo a sizígia, ao Salvador, que foi formado por todos os Éões.

[17] Judas, ao contrário, uma vez rejeitado, nunca mais foi readmitido no número dos discípulos, de outro modo não seria posto outro no seu lugar.

[18] E o Senhor disse dele: “Infeliz do homem por causa do qual o filho do homem é atraiçoado”, e: “Era melhor para ele não ter nascido”, e, “filho da perdição”.

[19] E se eles dizem que Judas representa não a Entímese separada do Éon, mas da paixão que o envolveu, nem assim o número doze pode ser figura do três.

[20] De fato, aqui Judas é rejeitado e Matias posto no seu lugar, lá há o Éon em perigo de dissolver-se e perecer, a Entímese e a paixão: eles separam a Entímese e a paixão e dizem que o Éon foi reintegrado, a Entímese foi formada, enquanto a paixão, separada de um e de outra, constitui a matéria.

[21] Portanto são três: o Éon, a Entímese e a paixão, e Judas e Matias, que são dois, não podem ser a figura deles.

VCirculi

Author VCirculi

More posts by VCirculi
Close Menu