[1] É chamado dia da retribuição aquele em que o Senhor “retribuirá a cada um segundo as suas obras”, isto é, o dia do juízo. E o ano de graça do Senhor é o tempo presente em que são chamados os que crêem nele e se tornam aceitos por Deus, isto é, o tempo todo que intercorre entre a sua vinda e a consumação final no qual adquire como frutos aqueles que se salvam.
[2] De fato, segundo a palavra do profeta o ano é seguido pelo dia da retribuição: o profeta teria mentido se tivesse somente pregado por um ano e se tivesse falado disso. Com efeito, onde está o dia da retribuição? O ano passou e o dia da retribuição não aconteceu; e Deus ainda faz “o sol levantar-se sobre os bons e os maus, e chover sobre os justos e os injustos”.
[3] Os justos são perseguidos, atormentados e mortos e os pecadores estão na abundância e “bebem ao som das cítaras e dos tamborins sem se importar com as obras do Senhor”. Ora, segundo a citação, as duas coisas devem estar juntas e o ano deve ser seguido pelo dia da retribuição; de fato se diz: Proclamar o ano de graça do Senhor, o dia da retribuição.
[4] Por isso justamente se entende por ano de graça o tempo presente em que os homens são chamados e salvos pelo Senhor ao qual seguir-se-á o dia da retribuição, ou juízo. Por outro lado, não é somente com o nome de ano que é designado este tempo, mas também é chamado dia, quer pelo profeta, quer por Paulo.
[5] Com efeito, o Apóstolo, citando as Escrituras, na carta aos Romanos diz: “Como está escrito: por tua causa somos postos à morte o dia todo, somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro”. A expressão “o dia todo” deve ser entendida por todo este espaço de tempo em que somos perseguidos e degolados como ovelhas.
[6] Ora, como este dia não significa um dia de doze horas, e sim o tempo todo no qual sofrem e são mortos por causa do Cristo os que crêem nele, assim também por ano não se entende o ano de doze meses, e sim todo o tempo da fé em que os homens escutam a pregação, crêem e, tornando-se aceitos pelo Senhor, são unidos a ele.
[7] Devemo-nos admirar bastante de como os que afirmam ter descoberto as profundezas de Deus não tenham procurado nos evangelhos quantas vezes, nos tempos da Páscoa, o Senhor subiu a Jerusalém depois do batismo, como de costume faziam os judeus: todos os anos, de todas as partes, iam a Jerusalém para ali celebrarem a festa da Páscoa.
[8] Foi a Jerusalém pela primeira vez na festa da Páscoa, depois que em Caná da Galiléia transformou a água em vinho, quando, como está escrito, “muitos creram nele ao ver os milagres que fazia”, como o lembra João, o discípulo do Senhor.
[9] Depois ele se retira e o encontramos na Samaria, quando se entreteve com a samaritana; em seguida curou o filho do centurião, à distância e com uma palavra, ao dizer: “Vai, teu filho vive”.
[10] Depois disto, subiu segunda vez a Jerusalém para a festa da Páscoa, quando curou o paralítico que jazia já há trinta e oito anos à beira da piscina, e lhe ordenou levantar-se, tomar o seu leito e ir embora.
[11] Em seguida retirou-se ao outro lado do mar de Tiberíades, onde, com cinco pães, saciou toda aquela multidão que o tinha seguido, e ainda se encheram doze cestos com os pedaços que sobraram.
[12] Em seguida, depois de ter ressuscitado Lázaro dos mortos e sendo-lhe armadas insídias pelos fariseus, se retirou à cidade de Efrém e de lá, “seis dias antes da Páscoa, foi a Betânia”, como está escrito, de onde subiu a Jerusalém; aí comeu a Páscoa e sofreu a paixão, no dia seguinte.
[13] Todos admitirão que três páscoas não se celebram num só ano. E o mês em que se celebrava a Páscoa e durante o qual o Senhor sofreu a paixão, não era o décimo segundo, e sim o primeiro: e eles, que se vangloriam de saber tudo, se não o souberem, podem aprendê-lo de Moisés.
[14] Portanto, está claro que a interpretação do ano e do décimo segundo mês é errada e devem renunciar a ela ou ao Evangelho: do contrário, como pôde o Senhor pregar somente durante um ano?
[15] Foi receber o batismo com a idade de trinta anos, e depois, tendo a idade perfeita de mestre, foi a Jerusalém, e justamente podia ouvir a todos chamá-lo mestre; ele não era diferente daquilo que parecia, como dizem os que o julgam aparente, mas o que era também o mostrava.
[16] Verdadeiro mestre com a idade de mestre, sem renegar nem ultrapassar a humanidade, não aboliu em si a lei do gênero humano e santificou todas as idades, por aquela semelhança que estava nele. Veio para salvar a todos mediante a sua pessoa, todos, digo, os que por sua obra renascem em Deus, crianças, meninos, adolescentes, jovens e adultos.
[17] Eis por que passou por todas as idades, tornando-se criança com as crianças, santificando as crianças; com os adolescentes se fez adolescente, santificando os que tinham esta mesma idade e tornando-se ao mesmo tempo para eles o modelo de piedade, de justiça e de submissão.
[18] Jovem com os jovens, tornou-se seu modelo e os santificou para o Senhor; da mesma forma se tornou adulto entre os adultos, para ser em tudo o mestre perfeito, não somente quanto à exposição da verdade, mas também quanto à idade, santificando ao mesmo tempo os adultos e tornando-se também modelo para eles.
[19] E chegou até a morte para ser o primogênito entre os mortos e ter a primazia em tudo, o iniciador da vida, anterior a todos e precedendo a todos.
[20] Eles, porém, para confirmar a sua teoria com o que foi escrito: proclamar o ano de graça do Senhor, dizem que pregou durante um ano e sofreu a paixão no décimo segundo mês.
[21] Não se dão conta com isso que estão em contradição consigo mesmos e anulam toda a obra do Senhor, tirando-lhe o período mais necessário e honrado da vida, quero dizer, a idade madura na qual era o guia para todos com seu ensinamento.
[22] Como podia ter discípulos se não ensinava, e como podia ensinar sem a idade de mestre? Quando foi receber o batismo ainda não completara trinta anos, tinha apenas entrado nos trinta — Lucas, de fato, indica a idade do Senhor com estas palavras: “Jesus estava quase começando os trinta anos quando foi ao batismo” — e depois do batismo pregou somente durante um ano, completando os trinta anos sofreu a paixão, quando ainda era homem jovem e não tinha ainda atingido uma idade avançada.
[23] Todos estão de acordo que trinta anos é a idade de homem ainda jovem, idade que se estende até aos quarenta; dos quarenta aos cinquenta declina na senilidade. Era nesta idade que nosso Senhor ensinava, como o atesta o Evangelho e todos os presbíteros da Ásia que se reuniram em volta de João, o discípulo do Senhor, que ficou com eles até os tempos de Trajano, afirmam que João lhes transmitiu esta tradição.
[24] Alguns destes presbíteros que viram não somente João, mas também outros apóstolos e os ouviram dizer as mesmas coisas, testemunham isso tudo. Em quem mais devemos acreditar: nestes presbíteros ou em Ptolomeu, que nunca viu os apóstolos e sequer em sonhos seguiu algum deles?
[25] Os judeus que disputavam com o Senhor Jesus Cristo indicaram clarissimamente a mesma coisa. Quando o Senhor lhes disse: Abraão, vosso pai, alegrou-se porque viu o meu dia; ele viu e encheu-se de alegria, eles lhe responderam: “Ainda não tens cinqüenta anos e viste Abraão?”
[26] Isto é dito justamente a um homem que passou dos quarenta, mas ainda não atingiu os cinquenta anos e está próximo deles. Para um homem que tenha trinta anos dir-se-ia: Ainda não tens quarenta anos.
[27] Os que o queriam mostrar como mentiroso não queriam ir muito além da idade que viam nele, mas lhe deviam dar a idade mais aproximada, quer a conhecessem pelo recenseamento, quer, baseados no aspecto, julgassem ter mais de quarenta anos, de qualquer forma não trinta.
[28] Seria irracional por parte deles um desvio de vinte anos quando queriam provar que ele era posterior à época de Abraão. Eles diziam o que viam e aquele que viam não era aparência, e sim era de verdade. Não devia estar longe dos cinqüenta anos e é por isso que os judeus lhe podiam dizer: Ainda não tens cinqüenta anos e viste Abraão?
[29] Concluímos que não pregou somente durante um ano e que não sofreu a paixão no décimo segundo mês. O período dos trinta aos cinquenta anos nunca será equivalente a um ano, a não ser que lá, no Pleroma, onde estão os Éões sentados em ordem, com o Abismo, os anos tenham duração tão grande.
[30] Assim como disse o poeta Homero, ele também inspirado pela Mãe do erro deles — permiti-me a citação numa versão minha —: “Os deuses estavam sentados ao lado de Júpiter num piso de ouro e se entretinham”.

