[1] A ignorância deles também se manifesta a respeito daquela mulher que, sofrendo de perda de sangue, foi curada ao tocar a orla da veste do Senhor. De fato, dizem que por meio dela indica-se aquela duodécima Potência que sofreu a paixão que perdurou indefinidamente, isto é, o duodécimo Éon.
[2] Ora, segundo o seu sistema, este Éon não é o décimo segundo, como já demonstramos. Admitamos também que, dos doze Éões, onze se mantiveram impassíveis e que somente o décimo segundo tenha caído na paixão: a mulher, porém, curada no décimo segundo ano, indica claramente que sofreu durante onze anos e que foi curada no décimo segundo.
[3] Seria mais certo dizer que a mulher é a figura destes doze Éões afirmando que onze Éões foram tomados de paixão insanável, e que foi curado o décimo segundo.
[4] Mas se a mulher sofreu durante onze anos sem ser curada e o foi somente no décimo segundo, como pode ser a figura dos doze Éões, quando onze entre eles não sofreram absolutamente nada e somente o décimo segundo foi tomado pela paixão?
[5] O tipo e a imagem diferem às vezes da realidade pela matéria ou pela natureza, mas devem conservar a semelhança com os costumes e lineamentos e por ela mostrar presentes as coisas ausentes.
[6] Esta não é a única mulher de quem foram determinados os anos da doença — que eles dizem concordar com a sua invenção — porque também há outra mulher que foi curada depois de dezoito anos de doença, da qual o Senhor diz: “Esta filha de Abraão, que Satanás amarrou durante dezoito anos, não deveria ser solta em dia de sábado?”
[7] Se aquela era o tipo do décimo segundo Éon tomado pela paixão, esta deveria ser o tipo do décimo oitavo Éon tomado pela paixão. Mas eles não podem dizer isso, porque, assim sendo, a primitiva e fundamental Ogdôada deveria ser contada com os Éões tomados pela paixão.
[8] Há ainda outro doente que foi curado pelo Senhor depois de trinta e oito anos de doença, e então deveriam dizer que o trigésimo oitavo Éon também caiu na paixão.
[9] Ora, se os atos do Senhor são, como dizem, o tipo do que está no Pleroma, o tipo se deve manter sempre em tudo; mas nem a mulher curada depois de dezoito anos, nem o homem, depois de trinta e oito, podem ser aplicados à sua teoria.
[10] É ilógico e contraditório dizer que o Salvador, nalguns casos, conservou a figura do Pleroma e, noutros, não. Portanto, o tipo da mulher é diferente do que acontece com os Éões.

