[1] A falsidade das suas invenções e a inconsistência das suas ficções aparece quando tentam trazer provas tiradas, algumas vezes, dos números, contando as sílabas dos nomes ou contando as letras das sílabas, outras, somando os números correspondentes às letras do alfabeto grego. Este procedimento é prova clara da pobreza, da inconsistência e da artificialidade de sua gnose.
[2] O nome Jesus, que pertence a outra língua, traduzido para o grego, é chamado ora de “episema”, palavra de seis letras, ora de Pleroma das Ogdôadas porque possui o número 888. Mas o nome grego do Salvador, que é Sotér, e que não combina com a sua invenção nem pelo número nem pelas letras, eles o esquecem de mansinho.
[3] Portanto, se tivessem recebido da providência do Pai os nomes divinos que indicam pelo número e pelas letras o número dos Éões do Pleroma, a palavra grega Sotér deveria revelar pelo número e pelas letras gregas o mistério do Pleroma.
[4] Mas não é assim que acontece: esta palavra tem cinco letras e o valor numérico delas é 1408, que não corresponde a nada no seu Pleroma. Portanto, não é verdadeira a história do Pleroma que eles contam.
[5] Quanto ao nome de Jesus, na língua hebraica à qual pertence, se compõe de duas letras e meia, como dizem os sábios judeus, e significa “o Senhor que contém o céu e a terra”; no hebraico antigo “Senhor” se diz “Iah” e “céu e terra”, “samaim wa’arets”.
[6] O Verbo que contém o céu e a terra é o próprio Jesus. É falsa, portanto, a explicação que dão do episema e manifestamente errado o número.
[7] Na língua deles, o grego, a palavra Sotér tem cinco letras e Jesus, em hebraico, tem duas letras e meia: assim desaba o cálculo dos números, que é 888.
[8] As letras hebraicas não coincidem com os números gregos, quando deveriam coincidir, e mais antigas e excelentes deveriam salvar os cálculos numéricos dos nomes.
[9] As letras hebraicas antigas, primitivas, chamadas sacerdotais, estão dispostas em grupos de dez mais cinco, de forma que a primeira coincida com a última do grupo precedente; e estão escritas a seguir, como nós costumamos, enquanto aquelas o são da direita para a esquerda.
[10] O Cristo deveria também possuir um nome cujo número correspondesse aos Éões do Pleroma, porque foi emitido para a consolidação e correção do Pleroma, como dizem.
[11] Assim também o Pai, nos números e nas letras deveria compreender em si o número dos Éões emitidos por ele; igualmente o Abismo e não menos o Unigênito.
[12] Mas sobretudo o nome hebraico que se atribui a Deus, Baruch, com duas letras e meia. Se os nomes mais importantes, tanto no grego como no hebraico, não concordam com a sua invenção nem pelo número das letras nem pela soma dos números, está claro que também o resto é impudente falsificação.
[13] Eles selecionam da Lei tudo o que concorda com os números de seu sistema, e, forçando os textos, se empenham em apresentar provas.
[14] Mas se a Mãe deles ou o Salvador quisessem mostrar, por meio do Demiurgo, as figuras das realidades que estão no Pleroma, teriam usado como tipo coisas mais verdadeiras e mais santas e sobretudo a arca da aliança para a qual foi construído todo o tabernáculo do testemunho.
[15] Ora, a arca foi construída com dois côvados e meio de comprimento, um e meio de largura e um meio de altura; mas os números dos côvados não correspondem em nada com a sua fábula, ao passo que deveriam corresponder mais que os outros.
[16] O propiciatório também não concorda em nada com as suas explicações, como não concorda a mesa da proposição de dois côvados de comprimento, um de largura e um e meio de altura.
[17] Sequer uma das medidas destas coisas que estão no Santo dos santos lembra a Tétrada, a Ogdôada ou o resto do Pleroma.
[18] E o candelabro de sete braços e sete lâmpadas? Se fora feito para servir de figura deveria ter oito braços e outras tantas lâmpadas para representar a primeira Ogdôada que resplandece entre os Éões e ilumina todo o Pleroma.
[19] Contaram cuidadosamente as dez tendas do tabernáculo dizendo ser o tipo dos dez Éões, mas não contaram as de pele, que eram onze; como também não mediram o tamanho das cortinas, que mediam vinte e oito côvados.
[20] Explicam também pela década de Éões o comprimento das colunas que era de dez côvados, mas a largura de um côvado e meio que tinha cada coluna não a dizem, como não dão o total das colunas nem das travessas, porque não estão de acordo com o seu sistema.
[21] Que dizer do óleo da unção que santificou todo o tabernáculo? Talvez o Salvador sequer tenha pensado nele, e a Mãe deles deve ter dormido quando o Demiurgo estabeleceu por sua conta o peso dele.
[22] É por isso que não está de acordo com o Pleroma: 500 siclos de mirra, 500 siclos de cássia, 250 siclos de cinamomo, 250 de cálamo balsâmico, e, além disso, o óleo, afinal, uma mistura de cinco elementos.
[23] E o incenso composto de estoraque, craveiro e gálbano, aromas e incenso puro, coisas que nem pela composição nem pelo peso se referem sequer de longe ao seu sistema.
[24] Portanto, a atitude deles é irracional e sem finura, porque nos elementos mais sublimes e sagrados da Lei não se cumprem os tipos e nos outros, quando um número está de acordo com o que dizem, afirmam que é uma figura das realidades que estão no Pleroma.
[25] Com efeito, podem-se encontrar nas Escrituras números de toda espécie, de modo que quem quiser encontra não somente a Ogdôada, a Década e a Duodécada, mas qualquer número que sirva de tipo para o erro que eles anunciam.
[26] Por ser verdade que o número cinco não corresponde a nada no seu sistema, que não tem equivalente nas suas invenções e que não tem utilidade alguma para demonstrar, a partir de tipos, as realidades do Pleroma, eis a prova que se tira das Escrituras.
[27] O nome Sotér tem cinco letras, mas também têm cinco letras os nomes Patér e agápe.
[28] Com cinco pães abençoados nosso Senhor saciou cinco mil homens.
[29] Cinco são as virgens sábias de quem falou o Senhor, e cinco também as estultas.
[30] Eram igualmente cinco os homens que estavam com o Senhor no momento em que o Pai lhe dava testemunho, isto é, Pedro, Tiago, João, Moisés e Elias.
[31] O Senhor entrou em quinto lugar no quarto da menina falecida quando a ressuscitou.
[32] De fato está escrito: “Não deixou entrar ninguém, exceto Pedro, João, o pai e a mãe da menina”.
[33] Aquele rico que estava no inferno disse que tinha cinco irmãos e pedia que alguém ressuscitado dos mortos fosse avisá-los.
[34] A piscina, onde o Senhor ordena ao paralítico curado que volte para casa, tinha cinco pórticos.
[35] A estrutura da cruz tem cinco extremidades, duas no comprimento, duas na largura e uma ao centro em que se apoia o crucificado.
[36] Cada uma das nossas mãos tem cinco dedos; temos cinco sentidos.
[37] No nosso interior podemos contar cinco partes: coração, fígado, pulmões, baço e rins.
[38] O corpo do homem pode ser dividido em cinco partes: cabeça, peito, ventre, pernas e pés.
[39] O homem passa por cinco idades: criança, menino, adolescente, adulto e velho.
[40] Moisés deu a Lei ao povo em cinco livros.
[41] Cada tábua da Lei que recebeu de Deus continha cinco mandamentos.
[42] O véu que cobria o Santo dos santos tinha cinco colunas.
[43] A altura do altar dos holocaustos tinha cinco côvados.
[44] No deserto foram escolhidos cinco sacerdotes: Aarão, Nadab, Abiú, Eleazar, Itamar.
[45] A túnica, o efod e os outros ornamentos sacerdotais eram enfeitados por uma composição de cinco elementos: ouro, púrpura violeta, púrpura escarlate, carmesim e linho fino.
[46] Josué, filho de Nun, mandou fechar na gruta e depois pisar a cabeça pelo povo a cinco reis amorreus.
[47] E era possível tirar, quer das Escrituras, quer das obras da natureza, que estão debaixo dos nossos olhos, milhares e milhares de exemplos desta espécie, para exemplificar o número cinco ou qualquer número que se queira.
[48] Mas nem por isso dizemos que há cinco Éões acima do Demiurgo, nem fazemos de uma Pêntada uma entidade divina.
[49] Nem tentamos confirmar fantasias sem consistência com este trabalho insano.
[50] Não obrigamos uma criação tão bem ordenada por Deus a transformar-se miseravelmente na figura de realidades que não existem e tomamos cuidado para não introduzir doutrinas ímpias e sacrílegas que podem ser desmascaradas e refutadas por quem quer que esteja de posse de suas faculdades.
[51] Quem poderá estar de acordo com eles quanto a um ano de 365 dias, dividido em 12 meses e meses de 30 dias que sejam o tipo dos 12 Éões se o tipo não se assemelha à realidade?
[52] Lá, cada um dos Éões é a trigésima parte de todo o Pleroma e, segundo eles, o mês é um dozeavo do ano.
[53] Ora, se dividissem o ano em 30 meses e cada mês em 12 dias, podia-se pensar que esta figura se ajustava à sua invenção, mas na realidade acontece o contrário.
[54] Com efeito, o Pleroma se divide em trinta Éões e uma parte dele em doze, quando o ano é dividido em doze partes e cada uma delas em trinta.
[55] Portanto foi com pouca inteligência que o Salvador fez com que o mês seja o tipo de todo o Pleroma e o ano a figura da Duodécada que está no Pleroma.
[56] Era muito mais conveniente dividir o ano em trinta partes sobre o modelo do Pleroma inteiro e o mês em doze partes, sobre o modelo dos doze Éões que estão no Pleroma.
[57] Eles dividem ainda todo o Pleroma em três grupos, a Ogdôada, a Década e a Duodécada; mas o ano se divide em quatro partes: primavera, verão, outono e inverno.
[58] Mais ainda: os próprios meses, que são a figura dos trinta Éões, não têm todos exatamente trinta dias; alguns têm mais e outros menos, de sorte que sobram cinco.
[59] Até os dias não têm sempre doze horas certas, mas vão aumentando de nove a quinze horas para em seguida diminuir de quinze para nove.
[60] Por isso não foi por causa dos trinta Éões que foram feitos os meses de trinta dias, porque se assim fosse teriam exatamente trinta dias.
[61] Como também não foi para figurar a Duodécada que foram feitos os dias com doze horas, porque então teriam exatamente doze horas.
[62] Além disso, chamando os seres terrenos de esquerda e dizendo que o que é da esquerda deve cair necessariamente na corrupção e que o Salvador veio para a ovelha desgarrada precisamente para levá-la à direita com as noventa e nove salvas, que não se desgarraram, mas ficaram no redil, devem admitir que tudo o que é da esquerda está excluído da salvação.
[63] O que não tem número cem devem chamá-lo de esquerda e por isso destinado a perecer.
[64] Então é de esquerda também o nome grego agápe, que pela soma do valor das letras gregas que eles fazem tem o valor de 93.
[65] Da mesma forma a palavra “verdade”, quando se faz a mesma conta, tem o número 64, se encontra entre as coisas materiais.
[66] Pois, absolutamente todos os nomes das coisas santas que não chegam ao número cem e só têm números de esquerda devem necessariamente considerá-los corruptíveis e materiais.

