[1] Ora, se alguém perguntasse: foi, então, sem motivo e ao acaso que se deu a imposição dos nomes, a escolha dos apóstolos, a atividade do Senhor, o ordenamento das coisas criadas? Nós responderíamos: absolutamente não. Deus fez tudo com a máxima sabedoria e diligência, conferindo proporção e harmonia a todas as coisas, quer as antigas, quer as que o seu Verbo fez nos últimos tempos.
[2] E não devem ser relacionadas com o número trinta, e sim com a realidade e a razão, como não se deve procurar a Deus por meio de números, sílabas e letras; porque seria argumento demasiadamente fraco, dada a variedade e multiplicidade deles; além disso, quem quisesse poderia usá-los, ainda hoje, como prova das coisas mais contrárias à verdade, porque podem ser interpretados de varia-díssimas formas.
[3] Devem-se aplicar os números e as coisas criadas à doutrina fundamental da verdade: não é a doutrina que deriva dos números, e sim os números da doutrina; não é Deus que depende das coisas, e sim as coisas de Deus; com efeito, tudo vem de um só e único Deus.
[4] As coisas criadas são muitas e diversas e quando situadas no conjunto das coisas criadas estão cheias de proporção e de harmonia, mas quando consideradas uma por uma aparecem como contrárias e discordantes; é como os sons de cítara que, pelos intervalos que os separam, produzem melodia única e harmoniosa, ainda que formada por sons múltiplos e opostos.
[5] E o amante da verdade não se deve deixar enganar pelo intervalo de cada som e atribuir-lhe autor ou artista diverso, onde um teria composto os sons agudos, outro os graves e outro os intermédios, mas deve reconhecer que um só fez com que aparecesse a sabedoria, a justiça, a bondade e a munificência da obra inteira.
[6] Os que escutam a melodia devem louvar e glorificar o Artista que a fez; de alguns sons devem admirar a amplidão, de outros a doçura, de outros a fusão entre estes elementos, e de outros a ideia que querem transmitir, procurando as motivações, porém sem nunca se afastar da regra, nem afastar-se do Artista, nem renegar a fé no único Deus, criador de todas as coisas, nem blasfemar o nosso Criador.
[7] E se alguém não chega a encontrar a explicação de tudo o que procura, lembrese de que é homem, infinitamente inferior a Deus, que recebeu a graça de maneira limitada, que ainda não é semelhante nem igual a seu Autor e que não pode ter a experiência e o conhecimento de todas as coisas como Deus.
[8] Assim como aquele que foi criado e recebeu hoje o início de sua existência é inferior àquele que não foi criado e é sempre igual a si mesmo, assim também é inferior àquele que o fez na ciência e na investigação das causas supremas.
[9] Tu, ó homem, não és incriado e não existias junto a ele como o seu próprio Verbo; mas pela sua supereminente bondade recebeste agora o início da existência e aprendes do Verbo, pouco a pouco, as economias de Deus que te criou.
[10] Conserva a modéstia do teu saber e não tenhas a presunção, na ignorância dos teus bens, de ultrapassar o próprio Deus, porque sequer pode ser atingido; não procures o que pode haver acima do Criador, pois não o encontrarás, porque o teu Autor é sem limites.
[11] Nem vá a ele como se já o tivesses medido todo, como se já tivesses explorado toda a sua atividade criadora, como se tivesses avaliado a sua profundeza, largura e altura; não imagines acima dele outro Pai: não terias pensado justo, porque só terias pensado estupidamente contra a natureza das coisas; e se persistires em julgar-te melhor e mais sublime do que o teu Criador e pensares ter ultrapassado a esfera dele, cairás na maior loucura.

