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[1] É melhor e mais útil ser ignorante ou de pouca cultura e aproximar-se de Deus pela caridade do que julgar-se sábio e experto e encontrar-se blasfemador contra o Senhor por ter inventado outro Deus e Pai. É por isso que Paulo gritou: “A ciência infla, mas a caridade edifica!” Ele não condenava o conhecimento verdadeiro de Deus, porque se o tivesse feito seria o primeiro a se acusar, mas porque sabia que alguns, inflados de orgulho por causa da ciência, se afastariam do amor de Deus, julgar-se-iam perfeitos e o Criador imperfeito.

[2] É para lhes cortar o orgulho por esta pretensa ciência que Paulo diz: A ciência infla, mas a caridade edifica. Com efeito, não há orgulho maior do que se julgar melhor e mais perfeito do que o próprio criador, modelador, doador do hálito de vida e do próprio ser. É melhor, repito, que alguém não saiba absolutamente nada, sequer um motivo do por que foram criadas as coisas, e acreditar em Deus e perseverar no seu amor do que encher-se de orgulho por motivo desta pretensa ciência e afastar-se deste amor que vivifica o homem.

[3] É melhor não querer saber nada a não ser Jesus Cristo, o Filho de Deus, que por nós foi crucificado, do que, por causa da subtileza das questões e das muitas palavras, cair na negação de Deus.

[4] Que dizer de um homem que, experimentando orgulho por causa deste esforço, ao ouvir o Senhor dizer que “os cabelos de vossa cabeça estão todos contados,” quisesse, na sua curiosidade, saber o número dos cabelos de cada cabeça e o motivo pelo qual alguém tem tantos e outro menos? Porque nem todos têm o mesmo número e se encontram milhares de milhares de números diferentes, porque alguém tem a cabeça maior e outro menor, uns os têm densos e outros ralos e outros quase nenhum.

[5] E se, pensando ter encontrado este número, quisesse usá-lo como prova de um sistema que por acaso tivesse inventado? Ou se algum outro, lendo o que se diz no Evangelho: “Não se vendem dois pardais por alguns centavos? No entanto nenhum deles cai no chão sem o consentimento de vosso Pai”, quisesse contar os pardais que são capturados todos os dias no mundo ou numa determinada região e procurar o motivo pelo qual ontem foi apanhado tal número, e anteontem outro e hoje outro ainda, e aplicasse o número dos pardais capturados à sua teoria, não enganaria completamente a si mesmo e não induziria à loucura enorme os que nele acreditam — visto que há sempre homens que, nestes casos, pensam ter encontrado alguma coisa mais que os seus mestres?

[6] Se alguém nos perguntar se Deus conhece o número total de todas as coisas que foram e são feitas, e se cada uma recebeu a própria quantidade conforme a providência de Deus, lhe responderemos afirmativamente. Com efeito, absolutamente nada do que foi e é feito escapa ao conhecimento de Deus, e pela sua providência tudo recebeu e recebe a forma, a ordem, o número e a quantidade próprios, e nada foi ou é feito sem motivo e ao acaso, mas tudo com profunda harmonia e arte sublime; e há um Intelecto admirável que pode entender e dar a conhecer as causas das coisas.

[7] E se este alguém, ao receber este nosso testemunho e consenso, começar a contar os grãos de areia e as pedras da terra, as ondas do mar e as estrelas do céu, e perscrutar as causas dos números que pensa ter encontrado, não será julgado justamente por todos os que ainda têm bom senso como extravagante e louco que perdeu o seu tempo?

[8] E quanto mais do que os outros se ocupar nestas questões e pensar ultrapassá-los pelas suas descobertas, tratando-os de incapazes, ignorantes e psíquicos, porque não se dedicam a trabalho tão inútil, tanto mais será insensato e estúpido, semelhante a alguém fulminado pelo raio, obstinado contra Deus; pela ciência que acredita ter descoberto troca o próprio Deus, lançando a sua opinião contra a majestade do Criador.

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