[1] Em compensação, uma inteligência sã, equilibrada, piedosa e amante da verdade dedicar-se-á a considerar as coisas que Deus pôs em poder dos homens, à disposição dos nossos conhecimentos, e aplicando-se a elas com todo o seu ardor, progredirá e, pelo estudo constante, terá conhecimento profundo. Estas coisas são tudo o que cai debaixo dos nossos olhares e tudo o que está contido, claramente e sem ambigüidade, em termos próprios nas Escrituras.
[2] Eis por que as parábolas não devem ser adaptadas a coisas ambíguas, porque quem as explica o deve fazer sem acrobacias e devem ser explicadas por todos da mesma maneira, e assim o corpo da verdade se manterá íntegro, harmoniosamente estruturado e livre de transformações.
[3] Mas aplicar, nas explicações das parábolas, coisas que não são expressas claramente e são ocultas e que cada um pode imaginar da maneira que quiser é não ter nenhuma regra da verdade: quantos são os exegetas tantas serão as verdades antagônicas e as teorias contraditórias, como nas disputas dos filósofos pagãos.
[4] Desta forma, o homem estará sempre à procura da verdade sem nunca encontrá-la, por ter rejeitado o método próprio da pesquisa.
[5] E quando o Esposo chegar, quem não tem a sua lâmpada pronta, não iluminada por luz brilhante, recorre aos que nas trevas retorcem as explicações das parábolas, abandonando aquele que pela pregação clara lhe concederia gratuitamente a entrada, e fica excluído das núpcias.
[6] Ora, todas as Escrituras, profecias e evangelhos, que todos têm a possibilidade de ouvir, ainda que nem todos acreditem, proclamam claramente e sem ambigüidade, excluindo qualquer outro, que um só e único Deus criou todas as coisas por meio de seu Verbo, as visíveis e as invisíveis, as celestes e as terrestres, as que vivem na água e as que se arrastam debaixo da terra, como demonstramos com as próprias palavras da Escritura.
[7] Por seu lado, o mundo em que nós estamos, por tudo o que apresenta aos nossos olhares, testemunha que é único quem o fez e o governa.
[8] Então, como parecem néscios os que diante de manifestação tão clara, estão com os olhos cegos e não querem ver a luz da pregação, que se fecham em si mesmos e com explicações obscuras das parábolas se imaginam, cada um, de ter encontrado o seu Deus!
[9] Com efeito, no que diz respeito ao Pai imaginado por eles, nenhuma Escritura diz algo claramente, em termos próprios e sem contestação possível; e eles próprios são testemunhas disso quando afirmam que o Salvador ensinou estas coisas secretamente, não a todos, mas a alguns discípulos capazes de entendê-las, indicando-as por meio de provas, enigmas e parábolas.
[10] E chegam ao ponto de dizer que um é o que é chamado Deus e outro é o Pai, indicado pelas parábolas e pelos enigmas.
[11] Como as parábolas podem ter muitas explicações, qual é o homem, amante da verdade, que não convirá que seria perigoso e irracional basear-se nelas na procura de Deus e deixar o que é certo, indubitável e verdadeiro?
[12] Não é isso edificar a própria casa não sobre a rocha firme e estável e descoberta, mas na insegurança da areia instável?
[13] Por isso, o desmoronamento desta construção é fácil.

