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[1] Possuindo, portanto, como Regra a própria verdade e o testemunho evidente de Deus, não devemos, ao procurar em todas as direções uma resposta às nossas questões, abandonar o sólido e verdadeiro conhecimento de Deus. Devemos, sim, orientando a solução das questões neste sentido, aprofundar a procura do mistério da economia que vem de Deus, crescer no amor daquele que tanto fez para nós e continuamente faz.

[2] Nunca devemos abandonar a convicção que nos faz proclamar, da maneira mais categórica, que ele é o único e verdadeiro Deus e Pai que fez este mundo, que plasmou o homem e o fez crescer na sua criação e o chamou da baixeza humana para as coisas maiores que estão junto de si. Assim como a criança, depois de ser concebida no seio materno é dada à luz do sol e como o trigo amadurecido na espiga é depositado no celeiro. Único e idêntico é o Criador que plasmou o seio e criou o sol; único e idêntico é o Senhor que fez crescer a espiga e multiplicou o trigo e preparou o celeiro.

[3] Se não podemos encontrar a solução de todas as questões que são propostas nas Escrituras nem por isso devemos procurar outro Deus fora daquele que é o verdadeiro Deus; seria o máximo da impiedade. Devemos deixá-las para o Deus que nos criou, bem sabendo que as Escrituras são perfeitas, entregues pelo Verbo de Deus e pelo seu Espírito e nós tanto somos pequenos e últimos em relação ao Verbo de Deus e ao seu Espírito quanto precisamos receber o conhecimento dos mistérios de Deus.

[4] Por outro lado, não há que admirar se isso nos acontece nas coisas espirituais, celestes, que devem ser reveladas, porque até das coisas que estão ao nosso alcance — quero dizer daquelas que pertencem a este mundo criado que podemos tocar, ver, que estão ao nosso lado — muitas escapam ao nosso conhecimento e as deixamos a Deus. É necessário que ele esteja acima de todos.

[5] Que aconteceria se quiséssemos explicar as causas da cheia do Nilo? Poderíamos dizer coisas mais convincentes ou menos, mas a verdade certa e firme só Deus sabe. Nós sequer sabemos onde é a morada das aves que vêm aqui na primavera e partem no outono, contudo é fato que acontece neste mundo.

[6] Qual a explicação que poderíamos dar do fluxo e refluxo do mar, porque é evidente que estes fenômenos têm causa bem determinada. O que podemos afirmar das coisas que estão do outro lado do Oceano? Ou ainda, que sabemos sobre a origem da chuva, dos relâmpagos, dos trovões, das nuvens, da neblina, dos ventos e coisas semelhantes?

[7] Onde se armazenam a neve e o granizo e coisas semelhantes? O que sabemos da composição das nuvens, da natureza da neblina? Por que a lua é ora crescente ora minguante? Ou ainda, qual é a causa das diferenças das águas, dos metais, das pedras e coisas semelhantes? De todas estas coisas poderíamos falar longamente, nós que procuramos as causas das coisas, mas somente Deus que as fez pode dizer a verdade.

[8] Se, portanto, até nas coisas criadas, a ciência de algumas coisas é reservada a Deus, de outras é possível também a nós, qual é a dificuldade em pensar que entre os problemas propostos pelas Escrituras — estas Escrituras que são inteiramente espirituais — alguns os resolvamos com a graça de Deus e outros os tenhamos de deixar para ele, e não somente no mundo presente, mas também no futuro, de forma que Deus seja sempre o mestre e que o homem seja sempre o discípulo de Deus?

[9] Como disse o Apóstolo, quando será abolido tudo o que é parcial, permanecerão a fé, a esperança e a caridade. A fé no nosso mestre resta firme, assegurando-nos que ele é o verdadeiro Deus, que o devemos amar sempre porque somente ele é Pai, que devemos esperar receber e aprender dele sempre mais, porque ele é bom, as suas riquezas são infinitas, seu reino sem fim, sua doutrina sem confins.

[10] Se, portanto, da maneira que acabamos de dizer, deixarmos a Deus algumas questões, conservaremos a nossa fé, e estaremos longe dos perigos e encontraremos concorde toda a Escritura que Deus nos deu; as parábolas concordarão com as passagens claras e estas explicarão as parábolas e, na polifonia dos textos, escutaremos em nós uma só melodia harmoniosa a cantar o Deus que fez todas as coisas.

[11] Se, por exemplo, nos perguntarem: O que Deus fazia antes de criar o mundo? Diremos que a resposta está somente com Deus. Que Deus tenha feito este mundo por criação, com um início no tempo, é o que nos ensinam todas as Escrituras; mas o que fazia antes disso, nenhuma Escritura o diz. Portanto a resposta a esta pergunta pertence a Deus e não é necessário querer imaginar emanações sem sentido, loucas e blasfematórias e na ilusão de ter descoberto a origem da matéria, rejeitar a Deus que fez todas as coisas.

[12] Refleti, vós todos, inventores destas fábulas, que aquele que vós chamais Demiurgo é o único a ser chamado e a ser o verdadeiro Deus Pai; que as Escrituras conhecem somente este Deus; que o Senhor o confessa seu Pai e a nenhum outro mais, como demonstraremos com suas próprias palavras.

[13] Vós que o chamais fruto de degradação e produto de ignorância, que não conhece as coisas que estão acima dele e tudo o mais que dizeis acerca dele, considerai a enormidade da blasfêmia que proferis contra aquele que é o verdadeiro Deus. Pareceis dizer sinceramente que acreditais em Deus e depois, quando vos manifestais incapazes de nos mostrar outro Deus, proclamais fruto da degradação e produto da ignorância aquele mesmo em que dizeis acreditar. Esta cegueira e estultícia deriva do fato de nada reservar para Deus.

[14] Anunciais o nascimento e as gerações de Deus, do seu Pensamento, do Logos e da Vida e do Cristo baseados em nenhuma outra coisa que os sentimentos humanos; e não entendeis que esta linguagem pode servir quando se fala do homem que é ser compósito em que é legítimo distinguir, como o fizemos acima, o intelecto do pensamento; que do intelecto procede o pensamento; do pensamento a reflexão; da reflexão a palavra — o que é a palavra? Segundo os gregos uma é a faculdade que elabora o pensamento e outro o órgão pelo qual é emitida a palavra; e o homem às vezes está imóvel e silencioso e às vezes fala e age — mas Deus é todo Intelecto, todo Logos, todo Espírito que age, todo Luz, sempre igual e idêntico a si mesmo, como nos convém pensar de Deus, como o aprendemos das Escrituras, e em quem não podem existir estes sentimentos e estas divisões.

[15] A língua, que é carnal, não acompanha a velocidade do intelecto humano, que é espiritual, motivo pelo qual a nossa palavra é sufocada dentro e não é pronunciada toda de uma vez assim como foi concebida pelo intelecto, mas por partes, como a língua é capaz de fazer.

[16] Porém Deus, que é todo Intelecto e todo Logos, o que pensa diz e o que diz pensa, porque o seu Intelecto é a sua Palavra e a sua Palavra é o seu Intelecto, e o Intelecto que tudo abrange é o próprio Pai.

[17] Por isso, quem diz Intelecto de Deus e afirma que foi emitido, introduz uma composição em Deus como se Deus fosse uma coisa e o Intelecto principal outra. Da mesma forma, dando ao Logos o terceiro lugar nas emissões do Pai — o que explicaria por que o Logos ignora a grandeza do Pai —, estabelece profunda separação entre o Logos e Deus.

[18] O profeta, falando do Verbo, dizia: “Quem poderá contar a sua geração?” Vós, porém, descreveis a geração do Verbo do Pai. A pronúncia de uma palavra humana por meio da língua a aplicais tal e qual ao Verbo de Deus. Assim justamente sois vós próprios a dizer que não conheceis nem as coisas humanas nem as divinas.

[19] Orgulhosos, sem razão, pretendeis audaciosamente conhecer os inexprimíveis mistérios de Deus, enquanto o Senhor, que é o Filho de Deus em pessoa, disse claramente que só o Pai conhece o dia e a hora do juízo, com estas palavras: “Quanto àquele dia e hora, ninguém os conhece, nem mesmo o Filho, mas somente o Pai”.

[20] Se, portanto, o Filho não se envergonhou de reservar para o Pai o conhecimento deste dia, e se ele disse a verdade, também nós não nos devemos envergonhar de reservar para Deus as questões difíceis demais para nós, pois o discípulo não está acima do mestre.

[21] Por isso, se alguém nos perguntar: Como foi gerado o Filho pelo Pai? Responderemos que esta emissão ou geração ou enunciação ou manifestação ou seja qual for o nome com que se queira chamar esta geração inefável, ninguém a conhece, nem Valentim, nem Marcião, nem Saturnino, nem Basílides, nem os anjos, nem os Arcanjos, nem os Principados, nem as Potestades, mas somente o Pai que gerou e o Filho que foi gerado.

[22] Sendo, portanto, a sua geração inefável, todos os que tentam explicar as gerações e emissões não sabem o que dizem e prometem expor coisas indizíveis. Que a palavra é produzida pelo pensamento e pelo intelecto o sabem todos os homens. Portanto, os que inventaram as emissões não descobriram nada de novo, sequer um mistério escondido, aplicando coisas bem conhecidas ao Verbo, Filho unigênito de Deus; e ao mesmo tempo que o dizem inefável e indizível, eles lhe dão um nome, descrevem, e como se lá estivessem presentes como obstetras expõem a sua emissão e geração primeiras, tornando-as semelhantes à palavra que os homens proferem.

[23] E falando a propósito da substância da matéria, não nos enganaremos ao dizer que Deus a criou, pois aprendemos das Escrituras que Deus tem o poder sobre todas as coisas. Mas a partir de que e como a produziu nenhuma Escritura o diz e nós não temos o direito de nos lançar, a partir das nossas opiniões, numa infinidade de conjeturas sobre Deus: este conhecimento deve ser reservado a Deus.

[24] Da mesma forma, por que, quando todas as coisas foram criadas por Deus, algumas desobedeceram e se subtraíram à submissão a Deus e outras, a maioria, permaneceram e permanecem sujeitas a quem as fez? São de naturezas diferentes as que desobedeceram e as que se mantiveram fiéis? Devemos deixar a resposta a Deus e ao seu Verbo, o único ao qual disse: “Senta-te à minha direita, até que ponha os teus inimigos como escabelo para os teus pés”.

[25] Nós por enquanto ainda estamos na terra, nem nos sentamos ainda no trono de Deus. Com efeito, se o Espírito do Salvador, que está nele, perscruta tudo, até as profundidades de Deus, no que nos diz respeito há distinções de graças, distinções de ministérios, distinções de operações, e, como diz Paulo, aqui na terra o nosso conhecimento é limitado e é limitada a nossa profecia.

[26] Da mesma forma, então, que conhecemos só parcialmente, assim devemos deixar a solução de todas as questões àquele que nos concede limitadamente a sua graça. Para os pecadores está preparado o fogo eterno: Deus o diz expressamente e todas as Escrituras o demonstram. Como demonstram que Deus sabia que isso aconteceria e que desde o princípio o preparou para os transgressores.

[27] Mas o porquê da existência dos transgressores nenhuma Escritura o referiu, nem o Apóstolo o disse, nem o Senhor o ensinou. Assim se deve deixar a Deus este conhecimento bem como aquele do dia e da hora do juízo para não correr o perigo de não deixar nada para Deus, visto que também se recebe limitadamente a sua graça. E procurando conhecer coisas que estão acima de nós e presentemente nos são inacessíveis, chega-se ao atrevimento de dissecar Deus, e, julgando ter descoberto o que nunca o foi, apoiar-se no vanilóquio das emissões e dizer que o Deus Criador de todas as coisas foi emitido pela degradação e pela ignorância, construindo assim um sistema ímpio contra Deus.

[28] Finalmente, não tendo alguma prova para a ficção recentemente construída, servem-se ora de alguns números, ora de sílabas, ora de nomes; às vezes de letras contidas em outras letras, outras vezes de parábolas incorretamente explicadas, ou ainda de suposições gratuitas, e procuram dar consistência à fabulosa narrativa que inventaram.

[29] Com efeito, se alguém procura saber por qual motivo o Pai, que tem tudo em comum com o Filho, foi manifestado pelo Senhor como o único a conhecer o dia e a hora do julgamento, presentemente não encontrará nenhum mais conveniente, mais digno e equilibrado do que este: sendo o Senhor o único mestre verídico, queria que soubéssemos por ele que o Pai está acima de tudo; com efeito, diz: “O Pai é maior que eu”.

[30] Portanto, se o Pai foi apresentado pelo Senhor como maior quanto à ciência para que nós, enquanto estamos na figura deste mundo, deixemos a Deus a ciência perfeita e a solução destas questões e para que, procurando perscrutar a profundidade do Pai, não corramos o perigo de procurar outro Deus acima de Deus.

[31] Mas se alguém gosta de discutir e contradizer o que acabamos de dizer e especialmente o que o Apóstolo disse: “Nós conhecemos limitadamente e profetizamos limitadamente” e julga que seu conhecimento não é limitado, mas possui conhecimento universal de tudo o que existe; se pensa ser um Valentim qualquer, um Ptolomeu, um Basílides ou algum dos que pretendem ter explorado as profundidades de Deus, não se gabe, no seu vão orgulho, de conhecer melhor que os outros as coisas invisíveis e indemonstráveis, mas dedique-se a procurar as causas das coisas que estão neste mundo e que não conhecemos, como, por exemplo, o número dos cabelos da sua cabeça, o número dos pardais que são capturados todos os dias e tudo o que é imprevisível; que procure diligentemente, que vá à escola do Pai e depois nos ensine estas coisas, para que possamos acreditar nele, quando nos revelar os segredos maiores.

[32] Mas se estes perfeitos não conhecem ainda as coisas que estão em suas mãos, nos seus passos, diante de seus olhos, nas coisas da terra e especialmente como são dispostos os cabelos de suas cabeças, como poderemos acreditar neles acerca das coisas pneumáticas, supracelestes e que estão acima de Deus, as quais afirmam com segurança fantástica conhecer?

[33] Já falamos bastante sobre números, nomes, sílabas, das questões acerca das realidades que estão acima de nós, da maneira incorreta com que explicam as parábolas; com certeza, tu poderás acrescentar muitas mais a tudo isso.

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