[1] Absurdo é o seu Abismo, o seu Pleroma e o Deus de Marcião. Com efeito, se, como dizem, há fora deles algo de subjacente que chamam vazio e trevas, este vazio aparece maior do que o seu Pleroma.
[2] Também é absurdo dizer que ele contém tudo o que lhe é inferior e que outro fez a criação. Porque, necessariamente, devem admitir um lugar vazio ou informe no interior do Pleroma pneumático no qual foi criado o universo.
[3] Ora, este vazio informe foi deixado de propósito porque o Protopai sabia o que fazer com ele, ou então não sabia. Se não sabia, ele não é o Deus onisciente. E nem eles poderiam dizer o motivo por que deixou aquele lugar vazio por tanto tempo.
[4] Se sabia tudo antecedentemente e já vira no seu espírito a criação que se devia cumprir naquele lugar, é ele quem a fez depois de a ter prevista em si.
[5] Cessem, portanto, de dizer que o mundo foi feito por outro: de fato, no mesmo instante em que teve a ideia foi feito o que tinha pensado, visto não ser possível que um tenha a ideia e outro execute o que o primeiro pensou.
[6] Ora, segundo estes heréticos, Deus concebeu na sua mente ou um mundo eterno ou um temporal, mas os dois casos são absurdos.
[7] Se pensasse num mundo eterno, pneumático e invisível, seria feito exatamente assim.
[8] Se, porém, o fez como é, é porque o fez como o tinha pensado; vale dizer: ele o quis diante de si como o pensara, compósito, mutável e transitório.
[9] Portanto, se é como o Pai o pensou em si, o mundo é obra digna do Pai.
[10] Dizer que a ideia, a concepção e a criação deste mundo, assim como é e que é conforme à ideia que dele teve o Pai de todas as coisas, é produto da ignorância ou da degradação, é proferir enorme blasfêmia.
[11] Segundo eles, o Pai de todos, na concepção da sua mente, geraria no seu peito produtos de ignorância e frutos de degradação, porque as coisas foram feitas conforme as pensou.

