[1] Não obstante serem assim as coisas, eles asseguram, contra o bom senso, que subirão acima do Demiurgo. Proclamando-se superiores ao Deus que fez e ornamentou os céus, a terra, os mares e tudo o que eles contêm, proclamam-se espirituais, quando são vergonhosamente carnais pelo excesso da impiedade; ao dizer psíquico o Criador e Senhor de toda natureza espiritual, que fez os seus anjos espíritos, que os revestiu de luz como de vestimenta, que tem nas mãos o globo da terra, cujos habitantes são, diante dele, como gafanhotos, que é o Deus e o criador de toda substância espiritual, eles o definem psíquico. Sem dúvida, provam realmente estar transtornados e ser atingidos pelo raio mais ainda do que os gigantes da fábula, eles que levantam o seu pensamento contra Deus, que estão inflados de presunção e bazófia, para os quais não chega todo o heléboro da terra para purgá-los e fazer-lhes vomitar a gigantesca patetice.
[2] Pelas obras é que se deve mostrar quem é melhor. Somos obrigados a fazer discursos ímpios, isto é, a comparar entre si Deus e estes loucos, a descer ao seu nível para refutá-los com seus próprios argumentos. Que Deus nos perdoe! porque não queremos pôr Deus no nível deles, e sim provar e refutar a sua loucura. Ora, em que se mostram melhores do que o Demiurgo estes, diante dos quais pasma de admiração uma multidão de loucos como se pudessem aprender deles alguma coisa superior à própria verdade? A palavra da Escritura: “Procurai e encontrareis”, foi dita, explicam eles, para serem encontrados acima do Demiurgo, qualificando-se maiores e melhores do que Deus, sendo eles pneumáticos e o Demiurgo psíquico. Este é o motivo pelo qual estarão acima de Deus e entrarão no Pleroma enquanto Deus irá ao Lugar do Intermediário. Ora, provem pelas obras que são superiores ao Demiurgo; pois não é pelas palavras, e sim pelos fatos que alguém se deve mostrar superior.
[3] Qual é então a obra que mostrarão feita por meio deles, pelo Salvador, ou pela Mãe deles, maior, mais esplêndida, mais racional das obras realizadas por quem organizou este universo? Onde estão os céus que eles firmaram, a terra que consolidaram e as estrelas que criaram? Onde os luminares que eles acenderam e os cursos a que os obrigaram? Onde as chuvas, o frio e as neves que fizeram cair sobre a terra nos tempos propícios a cada região, ou o calor e as secas que lhe contrapuseram? Onde os rios que fizeram deslizar, as fontes que fizeram jorrar, as flores e as árvores com que adornaram a terra que está debaixo do céu? Onde está a multidão dos seres vivos — uns racionais, irracionais outros, todos eles revestidos de beleza — que formaram? Quem poderá enumerar todas as outras coisas feitas pelo poder de Deus e governadas pela sua sabedoria? Quem poderá sondar a grandeza da sabedoria de Deus que as fez? E que dizer da multidão dos seres que estão acima dos céus e que são eternos, os Anjos, os Arcanjos, os Tronos, as Dominações e as Potestades sem número? Podem, por acaso, contrapor a si mesmos diante de uma só destas obras? O que podem mostrar de semelhante feito por eles ou por meio deles quando eles próprios são criação e obra de Deus? Com efeito — para falar a sua linguagem e com ela provar a falsidade de seus argumentos — se o Salvador ou a Mãe deles se serviu deste Criador, como dizem, para fazer uma imagem das realidades interiores ao Pleroma e de tudo o que contemplou à volta do Salvador, o foi porque era melhor e mais apto para cumprir a vontade dela. Ora, nunca usaria um instrumento inferior, mas sim um superior, para formar as imagens destas realidades tão grandes.
[4] Então eles mesmos eram, como dizem, um fruto pneumático concebido da contemplação dos guardas do corpo dispostos em volta de Pandora. Eles estavam inativos, porque nem sua Mãe nem o Salvador nada fizeram por meio deles; eles não eram senão fruto inútil, prestável para nada: com efeito, não aparece nada que tenha sido feito por meio deles. Porém este Deus que, ao que dizem, foi emitido depois e inferior a eles, porque o classificam psíquico, foi operador perfeitamente eficaz e hábil, de sorte que, por meio dele, como o instrumento melhor e mais apto a executar a vontade da Mãe, foram feitas as imagens não somente das coisas visíveis, mas também das invisíveis, os Anjos, os Arcanjos, as Dominações, as Potências e as Virtudes. Por outro lado, parece que a Mãe não fez nada para eles, como dizem eles próprios, de forma que podem ser considerados como abortos de um parto mal sucedido; neste parto não houve a assistência das obstetras, e eles foram lançados fora como abortos, absolutamente inúteis, por não terem recebido da Mãe coisa alguma útil. Não obstante isso, eles se proclamam melhores do que aquele pelo qual foram feitas e ordenadas tantas e tão grandes coisas, quando pelo seu sistema eles resultam muito inferiores a ele.
[5] Suponhamos duas ferramentas ou instrumentos quaisquer e que um deles se encontre sempre em uso nas mãos do artista, de forma a fazer com ele quantas obras quiser e mostre assim a sua arte e sabedoria, e que o outro se mantenha inativo, inútil e ocioso, sem que o artista o use ou faça alguma coisa com ele; se alguém viesse dizer que o instrumento supérfluo e inativo é melhor e mais caro do que aquele que o artista usa e donde tira a sua glória, com certeza seria julgado louco e fora de si. Ora, é o que acontece com estes, que se proclamam a si mesmos pneumáticos e superiores e ao Demiurgo proclamam psíquico; que afirmam que estarão acima dele e que entrarão no Pleroma para se encontrarem com os seus esposos — como eles mesmos confessam, são mulheres — enquanto Deus é inferior e ficará no Intermediário. E de todas estas afirmações nem a sombra de uma prova. Ora, o melhor prova-se pelas obras e como todas elas foram feitas pelo Demiurgo e não podem mostrar nada de notável feito por eles, são loucos de loucura completa e insanável.
[6] Se quiserem sustentar que todas as coisas materiais, isto é, o céu e o universo abaixo dele, foram criadas pelo Demiurgo e que todos os seres espirituais situados acima do céu, isto é, os Principados, as Potestades, os Anjos, os Arcanjos, as Dominações e as Virtudes foram criados pelo fruto pneumático, que pretendem ser, então nós lhes responderemos, em primeiro lugar, que já provamos por meio das divinas Escrituras que todas estas coisas, visíveis e invisíveis, foram criadas pelo Deus único; e que eles não valem mais do que as Escrituras e que não somos absolutamente obrigados a deixar de lado as palavras do Senhor, nem as de Moisés e dos outros profetas que pregaram a verdade para acreditar neles que, não satisfeitos com dizer nada de verdadeiro, ainda deliram em sonhos inconsistentes. Em segundo lugar, se as coisas que estão acima dos céus foram criadas por meio deles, digam-nos qual é a natureza destes seres invisíveis, digam-nos o número dos Anjos e a ordem dos Arcanjos, dêem-nos a conhecer os mistérios dos Tronos e nos mostrem as diferenças que há entre as Dominações, os Principados, as Potestades e as Virtudes. Eles não o podem fazer, portanto, não foi por meio deles que estas coisas foram criadas. E se foram criadas pelo Demiurgo — como é o caso — estes seres são obra do Criador, são espirituais e santos e, por conseguinte, não pode ser psíquico quem criou seres espirituais: eis reduzida a nada a sua enorme blasfêmia.
[7] Que no céu haja criaturas espirituais o proclamam todas as Escrituras e Paulo atesta que são espirituais quando diz que foi arrebatado ao terceiro céu e, pouco depois, revela ter sido levado ao paraíso e ter escutado palavras inefáveis que o homem não pode pronunciar. E a que lhe poderia ter servido o ser levado ao paraíso ou elevado ao terceiro céu, lugares estes que estão em poder do Demiurgo, se era para contemplar e escutar mistérios superiores ao Demiurgo, como alguns ousam afirmar? Se devia conhecer um mundo superior ao Demiurgo não teria ficado no domínio dele, sequer depois de ter visto tudo — segundo a doutrina deles faltavam-lhe ainda quatro céus para chegar ao Demiurgo e contemplar abaixo dele a Hebdômada — devia subir ao menos até o Intermediário, isto é, a Mãe, para aprender dela o que está dentro do Pleroma. O homem interior, invisível que falava nele, como dizem, podia muito bem chegar não somente ao terceiro céu, mas até a Mãe deles. Se eles, ou melhor, o seu homem, ultrapassarão imediatamente o Demiurgo e irão até a Mãe, muito mais facilmente isso teria acontecido ao homem do Apóstolo, nem lho poderia ter impedido o Demiurgo, ele também já submetido ao Salvador, como dizem. E, ainda que o quisesse impedir, não o conseguiria, porque não é possível que ele seja mais forte do que a providência do Pai e porque o homem interior, como dizem, é invisível até para o Demiurgo. Ora, se Paulo contou o seu arrebatamento ao terceiro céu como algo de grande e extraordinário, estes não poderão subir acima do sétimo céu, pois não são melhores do que o Apóstolo. Se pretendem ser superiores serão manifestados pelos fatos: mas ainda não se gabaram disto. Paulo acrescentou: “Se foi no corpo ou fora do corpo, Deus o sabe”, a fim de que não se pense que o corpo tenha sido excluído da visão — este corpo que um dia participará no que Paulo viu e escutou aquela vez — e também para que ninguém diga que foi por causa do peso do corpo que não foi elevado mais acima, mas que é permitido àqueles que, como o Apóstolo, são perfeitos no amor de Deus, contemplar até lá, mesmo sem o corpo, os mistérios espirituais, que são as obras de Deus que fez o céu e a terra, que plasmou o homem e o colocou no paraíso.
[8] Deus fez, portanto, as coisas espirituais de que foi espectador o Apóstolo no terceiro céu e as palavras indizíveis que não é permitido ao homem dizer por serem espirituais é ainda este mesmo Deus que as faz ouvir, da forma que ele quer, aos que são dignos, pois o paraíso é dele. E este Deus é verdadeiramente Espírito de Deus e não um Demiurgo psíquico, de outra forma nunca teria feito as coisas espirituais. Se, ao contrário, é psíquico, digam-nos quem fez as coisas espirituais. Também não têm meios para mostrar alguma coisa feita pela emissão da Mãe, que dizem ser eles. Não somente não podem fazer algo de espiritual, mas sequer uma mosca, uma pulga ou um destes pequenos insetos desprezados a não ser da forma estabelecida no princípio por Deus, pela deposição de uma semente num animal da mesma espécie. Como também nada foi feito pela Mãe sozinha, porque, dizem, é o emitido que é o Demiurgo e o Senhor de toda a criação. E este Demiurgo e Senhor de toda a criação eles pretendem seja de natureza psíquica, enquanto eles, não sendo nem demiurgos nem senhores de nada, que não fizeram nada do que está fora deles, sequer o seu corpo, dizem ser espirituais. E os que estão sujeitos, até contra a vontade, a muitos sofrimentos no corpo, se proclamam espirituais e superiores ao Criador!
[9] Justamente, portanto, os acusamos de se terem afastado consideravelmente da verdade. Se o Salvador fez por meio dele as coisas criadas não lhes é inferior, mas se mostra melhor por ser autor delas também, porque eles também se encontram entre as que foram criadas. Como podem, então, ser de natureza pneumática se aquele que as fez é de natureza psíquica? Mas — o que somente pode ser verdadeiro e que demonstramos com argumentos fortíssimos e provas irrecusáveis — se o Criador, livremente e de sua iniciativa, fez e ordenou todas as coisas e se a sua vontade é a única matéria donde tirou todas elas, então aquele que fez todas as coisas é o Deus único, o único Onipotente, o único Pai, que criou e fez todas as coisas, as visíveis e as invisíveis, as sensíveis e as inteligíveis, as celestes e as terrestres. Com o Verbo de seu poder tudo compôs e tudo ordenou por meio da sua Sabedoria; ele que tudo contém e que nada o pode conter. Ele é o Artífice, o Inventor, o Fundador, o Criador, o Senhor de todas as coisas e não existe outro fora e além dele, nem a Mãe que eles se arrogam, nem o outro deus que Marcião inventou, nem o Pleroma dos 30 Éões cuja inanidade demonstramos, nem o Abismo, nem o Protoprincípio, nem os Céus, nem a Luz virginal, nem o Éon inefável, nada de tudo o que foi sonhado por eles e por todos os hereges. Só um é o Deus Criador que está acima de todo Principado, Potência, Dominação e Virtude: ele é o Pai, é Deus, é o Criador, o Autor, o Ordenador, que fez todas as coisas de si mesmo, isto é, por meio de seu Verbo e Sabedoria, o céu e a terra, o mar e tudo o que eles contêm. Ele é o justo, o bom; ele quem modelou o homem, plantou o paraíso, construiu o mundo, quem produziu o dilúvio e salvou Noé; ele é o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, o Deus dos viventes, anunciado pela Lei, pregado pelos profetas, revelado por Cristo, transmitido pelos apóstolos, crido pela Igreja; ele é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo; por meio do Verbo que é seu Filho é revelado e manifestado a todos que ouvem a revelação; e o conhecem aqueles aos quais o Filho o revelou. O Filho que está sempre com o Pai e que desde o princípio sempre revela o Pai aos Anjos e Arcanjos, às Potestades e Virtudes e a todos a quem Deus se quer revelar.

