[1] Os ensinamentos do Senhor derrubam completamente a sua ímpia doutrina sobre as ações humanas, segundo a qual eles devem praticar todas as ações possíveis, até as más. O Senhor não somente condena quem pratica o adultério, mas também quem o deseja; não somente quem mata é condenado por ele como réu de homicídio, mas também quem se irrita sem motivo com o seu irmão. O Senhor ordenou não somente não odiar os homens, mas também amar os inimigos; não somente não jurar falso, mas sequer jurar; não somente não falar mal do próximo, mas sequer chamar alguém de imbecil e idiota, sob pena de merecer o fogo do inferno; não somente não esbofetear, mas, esbofeteados, oferecer a outra face; não somente não tirar as coisas dos outros, mas sequer pedir devolvidas as próprias, quando tiradas; não somente não ofender o próximo e não lhe fazer mal, mas ser pacientes e bons quando maltratados e rezar para que se arrependam e salvem. Em resumo: não imitar em nada as ofensas, a raiva e o orgulho dos outros.
[2] Se Aquele que se gloriam de ter por mestre e que dizem ter tido alma mais excelente e forte do que a dos outros homens teve o máximo cuidado em nos prescrever algumas coisas porque boas e excelentes e em nos proibir outras, não somente nos fatos, mas também nos pensamentos que levam a ações más, como maus, nocivos e perversos, como é que podem dizer, sem se envergonhar, que este mestre é o mais forte e excelente entre os homens e logo depois formular abertamente regras contrárias ao seu ensinamento?
[3] Se não existissem o mal e o bem, mas fosse somente opinião humana que algumas coisas são justas e outras injustas, nunca teria declarado no seu ensinamento: “Os justos brilharão como o sol no reino de seu Pai”; e os injustos e os que não fazem obras de justiça enviá-los-á ao fogo eterno “onde o seu verme nunca morrerá e o fogo não se apagará”.
[4] Mas enquanto dizem que devem realizar todas as ações e comportamentos de forma a concretizá-los numa só vida, se possível, e atingir assim o estado perfeito, nunca se vê que se tenham esforçado por fazer o que diz respeito à virtude, ao trabalho, à honra, à arte e àquelas coisas reconhecidas como boas por todos.
[5] Se devem dedicar-se à toda forma possível de atividade, deveriam começar por aprender todas as artes, sem exceção; aquelas que se exercem nos discursos ou nas obras, aquelas que se aprendem com o domínio sobre si e se adquirem com o esforço e o exercício perseverante, como, por exemplo, a música, a aritmética, a geometria, a astronomia e todas as outras disciplinas teóricas; todos os ramos da medicina, a ciência das plantas medicinais, as disciplinas que visam à saúde humana; a pintura, a escultura do bronze, do mármore, e semelhantes; além disso, toda a espécie de agricultura, de veterinária, de pastorícia e de artesanato; de enciclopédia, de náutica, de ginástica, de caça, de estratégia, de governo e tantas outras artes, que nem a fadiga de toda uma vida conseguiria ensinar-lhes sequer a décima milésima parte.
[6] Eles que se dizem obrigados a experimentar toda atividade sequer se esforçam por aprender algumas destas artes, mas se entregam a prazeres, à luxúria e a vícios torpes. Eis que assim condenam-se a si próprios pela lógica da sua doutrina, porque, faltando-lhes tudo o que acabamos de dizer, irão para o castigo do fogo.
[7] Ao mesmo tempo que professam a filosofia de Epicuro e a indiferença dos cínicos, gloriam-se de ter por Mestre Jesus, o qual dissuade os seus discípulos não somente de praticar más ações, mas também de toda palavra ou pensamento repreensíveis, como acabamos de mostrar.
[8] Dizem ainda que suas almas derivam da mesma esfera que a de Jesus e que lhe são semelhantes e até melhores. Mas em comparação com as obras que Jesus fez para o bem e a consolidação dos homens eles não podem mostrar ter feito algo que, de alguma forma, seja semelhante ou comparável.
[9] E se fazem alguma coisa, é, como dissemos, por intermédio da magia, com a intenção de enganar os simples. Longe de procurar algum fruto ou proveito para aqueles em favor dos quais dizem operar prodígios, contentam-se com atrair meninos impúberes e os mistificam mostrando-lhes aparições que logo se dissolvem sem ter durado uma fração de segundo, mostrando-se assim semelhantes não a nosso Senhor Jesus, e sim a Simão, o mago.
[10] E, enquanto o Senhor ressuscitou dentre os mortos ao terceiro dia, se deu a conhecer a seus discípulos e foi levado ao céu diante de seus olhares, esse tipo de homens morrem, mas não ressuscitam nem se manifestam a ninguém; daí se pode deduzir que suas almas não se parecem em nada com a de Jesus.
[11] Se ainda disserem que o Salvador fez tais coisas somente na aparência, lhes apresentaremos os escritos dos profetas e, servindo-nos deles, lhes mostraremos que tudo foi realizado exatamente como foi predito; e que somente ele é o Filho de Deus.
[12] Eis por que em seu nome os seus verdadeiros discípulos, depois de ter recebido dele a graça, agem para o bem dos outros homens, conforme o dom que cada um recebeu dele: alguns expulsam os demônios, com tanta certeza e verdade, que, muitas vezes, os que foram libertos destes espíritos maus creem e entraram na Igreja; outros têm o conhecimento do futuro, visões e oráculos proféticos; outros impõem as mãos sobre os doentes e lhes restituem a saúde; e como dissemos, também alguns mortos ressuscitaram e ficaram conosco por muitos anos.
[13] E que mais? Não é possível dizer o número de carismas que, no mundo inteiro, a Igreja recebeu de Deus, no nome de Jesus Cristo, crucificado sob Pôncio Pilatos e que distribui todos os dias em prol dos homens, a ninguém enganando e não exigindo dinheiro de ninguém: porque como de graça recebeu de Deus de graça distribui.
[14] E não é com a invocação dos anjos que ela faz estas coisas, nem com encantamentos ou outras práticas torpes, e sim de maneira lícita e clara, elevando preces a Deus, que fez todas as coisas; invocando o nome de nosso Senhor Jesus Cristo faz prodígios para o bem dos homens e não para os enganar.
[15] Se, portanto, o nome de nosso Senhor Jesus Cristo ainda agora é benéfico e cura com toda certeza e verdade todos os que, não importa em que lugar, crêem nele — o que não acontece no nome de Simão, nem de Menandro, nem de Carpócrates, nem de outro qualquer —, é claro que, tendo-se feito homem e vivido com a obra da sua criação, fez verdadeiramente tudo pelo poder de Deus, conforme a vontade do Pai de todas as coisas, da maneira que os profetas anunciaram.
[16] Quais são estas profecias o diremos na exposição das provas tiradas dos profetas.

