[1] Refutamos a transmigração das almas de corpo em corpo pelo fato de elas não se lembrarem de nada do passado. Com efeito, se foram enviadas a este mundo para praticar todas as ações, deveriam lembrar-se daquelas que já fizeram para completar o que ainda falta e não ter que se envolver sempre nas mesmas experiências.
[2] A união ao corpo não poderia apagar totalmente a lembrança do que viram anteriormente, quando vêm precisamente por isso. Como agora a alma lembra a maioria das coisas que vê em si e age em imaginação e as participa ao corpo que adormecido repousa, e às vezes até depois de muito tempo que acordou alguém conta o que viu em sonho, da mesma forma a alma deveria lembrar-se das ações feitas antes da sua vinda ao corpo.
[3] Com efeito, se o que foi visto em imaginação e por breves instantes por ela só durante o sono ela o lembra, depois de se misturar ao corpo e espalhar em todos os seus membros, com muito maior razão se lembraria das atividades às quais se dedicou pelo tempo considerável de toda existência anterior.
[4] Não podendo responder a estes argumentos, Platão, este antigo ateniense que foi o primeiro a adotar esta doutrina, introduziu a bebida do esquecimento, pensando com isso escapar à dificuldade.
[5] Sem fornecer prova alguma ele declarou peremptoriamente que o demônio que preside à entrada desta vida faz beber a taça do esquecimento às almas, antes de ingressar no corpo.
[6] E não se apercebeu de ter caído em dificuldade maior. Se beber a taça do esquecimento pode tirar a lembrança de tudo o que foi feito, como é que tu, Platão, sabes isso, visto que a tua alma está presentemente num corpo e que antes de entrar nele o demônio lhe fez beber a taça do esquecimento?
[7] Se lembras o demônio, a bebida e a entrada, deves também lembrar tudo o resto; se o ignoras, é porque nem o demônio é verdadeiro nem tudo o resto desta exótica teoria da bebida do esquecimento.
[8] Contra aqueles que dizem que o próprio corpo é o esquecimento vai isto: como é que a alma pode lembrar e comunicar aos outros o que viu durante o sonho e em pensamento enquanto o corpo dorme?
[9] Se o corpo é o esquecimento, a alma que se encontra dentro de um corpo não se lembraria do que conheceu alguma vez com os olhos e os ouvidos, porque bastaria levantar os olhos das coisas que também desapareceria a memória delas.
[10] Encontrando-se no próprio esquecimento, a alma só poderia conhecer o que vê no momento presente. Então como poderia ter aprendido e lembrar-se das coisas divinas estando num corpo que, como eles dizem, é o próprio esquecimento?
[11] Até os profetas, estando na terra, depois de voltar a si, se lembram e comunicam aos outros o que viram e entenderam espiritualmente durante as visões celestes, e o corpo não lhes tira a lembrança do que viram em espírito, mas a alma instrui o corpo e lhe comunica a visão espiritual que teve.
[12] Com efeito, o corpo não é mais poderoso do que a alma, ele que é animado, vivificado, desenvolvido e articulado, mas é a alma que domina e manda no corpo.
[13] Sem dúvida, a alma é travada na sua presteza, visto que o corpo participa do seu movimento, mas nem por isso perde a sua ciência.
[14] O corpo é parecido com o instrumento enquanto a alma exerce a função do artista. Como o artista concebe prontamente dentro de si uma obra de arte, mas a realiza lentamente por meio do instrumento, por causa da inércia do objeto, assim a presteza de espírito do artista, misturando-se com a lentidão do instrumento, realiza uma obra que participa das duas coisas.
[15] Assim a alma unida ao seu corpo é um pouco impedida pelo fato de sua presteza estar misturada com a lentidão do corpo, mas nem por isso perde todo o seu poder; comunicando a sua vida ao corpo, ela não cessa de viver.
[16] Assim se dá quando ela comunica ao corpo as outras coisas: ela não perde nem a ciência que possuía nem a lembrança dela.
[17] Por isso, se ela não lembra nada do passado, mas tem o conhecimento das coisas presentes, nunca esteve em outros corpos, nunca fez o que não conhecia, nem conhece o que não viu.
[18] Como cada um de nós recebe da arte de Deus o próprio corpo, assim tem a sua própria alma, porque Deus não é tão pobre e indigente que não possa dar a cada corpo a sua alma e seu próprio caráter.
[19] E por isso, quando será completado o número que Ele preestabeleceu, todos os inscritos na vida ressurgirão com seu corpo, sua alma e seu espírito com os quais agradaram a Deus; e os que mereceram os castigos recebê-los-ão, com suas almas e seus corpos nos quais se afastaram da bondade divina.
[20] E tanto uns como os outros deixarão de gerar e de ser gerados, de casar-se e tomar maridos, e completada a multidão do gênero humano predefinida por Deus e atingida a perfeição, conservem a harmonia recebida do Pai.

