[1] O Senhor ensinou clarissimamente que as almas não só perduram sem passar de corpo em corpo, mas conservam imutadas as características dos corpos em que foram colocadas e se lembram das ações que fizeram aqui na terra e das que deixaram de fazer. É o que está escrito na história do rico e de Lázaro que repousava no seio de Abraão. Nela se diz que o rico, depois da morte, conhecia tanto Lázaro como Abraão e que cada um estava no lugar a ele destinado.
[2] O rico pedia a Lázaro, ao qual tinha recusado até as migalhas que caíam de sua mesa, que o socorresse; com a sua resposta, Abraão mostrava conhecer não somente Lázaro, mas também o rico e ordenava que os que não quisessem ir para aquele lugar de tormentos escutassem Moisés e os profetas antes de esperar o anúncio de alguém ressuscitado dos mortos.
[3] Tudo isso supõe clarissimamente que as almas permanecem, sem passar de corpo em corpo, que possuem as características do ser humano, de sorte que podem ser reconhecidas e que se recordam das coisas daqui de baixo; que também Abraão possuía o dom da profecia e que cada alma recebe o lugar merecido mesmo antes do dia do juízo.
[4] Aqui alguns poderão dizer que as almas que tiveram há pouco tempo o início da sua existência não podem durar indefinidamente e que, ou devem ser incriadas para ser imortais, ou se receberam o início da existência necessariamente morrem com o seu corpo.
[5] Ora, estes devem saber que somente Deus, o Senhor de todas as coisas, é sem princípio e sem fim, e se mantém verdadeiramente e sempre idêntico a si mesmo. Que todas as coisas por ele criadas no passado e no presente, sejam quais forem, recebem o princípio da existência e por isso são inferiores ao seu Criador, justamente por serem criadas.
[6] Que, não obstante isso, perduram e prolongam a sua existência na amplidão dos séculos, segundo a vontade de Deus Criador, o qual lhes dá, inicialmente, o devir e depois o ser.
[7] Como o céu que está sobre nós, o firmamento, o sol, a lua, todas as estrelas e o seu esplendor que antes não existiam, foram criados e duram muito tempo, segundo a vontade de Deus, assim não se engana quem pensa o mesmo das almas, dos espíritos e de todas as coisas criadas, porque todas elas receberam o início de sua existência e perduram pelo tempo que Deus quer que existam e durem.
[8] Também o Espírito profético testemunha a favor desta doutrina quando diz: “Porque ele falou e foram feitas; ele mandou e foram criadas. Ele as estabeleceu pelos séculos e pelos séculos dos séculos”.
[9] E do homem que seria salvo diz: “Ele te pediu a vida e lhe concedeste a longevidade pelos séculos dos séculos”. O Pai de todas as coisas concede a duração pelos séculos dos séculos aos que são salvos, porque não é nem de nós nem de nossa natureza que vem a vida, mas ela é concedida segundo a graça de Deus.
[10] Portanto, quem guardar o dom da vida dando graças àquele que lha deu receberá também a longevidade pelos séculos dos séculos, mas quem a recusar com ingratidão para com o Criador por tê-lo criado, não reconhecendo aquele que lha deu, priva-se por sua conta da duração pelos séculos dos séculos.
[11] Por isso o Senhor dizia aos que lhe são ingratos: “Se não fostes fiéis no pouco, quem vos confiará o muito?”, deixando entender que todos os que são ingratos na curta vida temporal com aquele que lha concedeu, não merecem receber dele a longevidade nos séculos dos séculos.
[12] Como o corpo animado pela alma não é a alma, mas comunica com a alma até que Deus quiser, assim a alma não é ela própria a vida, mas participa da vida que Deus lhe deu.
[13] Por isso a palavra inspirada diz do primeiro homem: “Ele foi feito alma vivente”, ensinando-nos que a alma é vivente por participação da vida, de forma que uma coisa é a alma e outra é a vida que está nela.
[14] Se, portanto, é Deus que dá a vida e a sua duração perpétua, não é impossível que as almas que antes não existiam, depois que Deus quis que existissem, perdurem nesta existência.
[15] O que deve mandar e dominar em tudo é a vontade de Deus; tudo o resto deve ceder diante dela, subordinar-se e pôr-se a seu serviço. Quanto à criação e à perpetuidade da alma é suficiente o que foi dito até aqui.

