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[1] Deve-se procurar a causa desta economia de Deus, mas nem por isso se deve atribuir a outro a criação do mundo. Deve-se dizer que todas as coisas foram preparadas antes por Deus para serem feitas como de fato o foram, mas nem por isso se devem inventar as trevas e o vazio.

[2] Ainda assim, de onde vem este vazio? Se foi emitido por aquele que, segundo eles, é o Pai e o emissor de todas as coisas, então tem a mesma dignidade e é parente dos outros Éões, e talvez seja até mais velho do que eles. Se foi emitido pelo mesmo Pai, é semelhante ao que o emitiu e àqueles com os quais foi emitido.

[3] Há, portanto, necessidade absoluta de que o Abismo e o Silêncio deles sejam semelhantes ao vazio, e por isso vazios, e que os Éões restantes, por serem irmãos do vazio, tenham também a substância do vazio. Se, porém, não foi produzido, ele nasceu de si mesmo, foi gerado de si mesmo e é igual, no tempo, àquele que para eles é o Abismo e o Pai de todas as coisas.

[4] Assim o vazio é da mesma natureza, digno da mesma honra que tem, segundo eles, o Pai de todas as coisas. Portanto, é necessário que o vazio tenha sido produzido por alguém ou por si mesmo produzido e de si nascido. Mas se vazio é o produzido, vazio é o produtor, vazio é Valentim, vazios os seus sectários.

[5] Mas se não foi produzido e existe por si mesmo, então o seu vazio é igual, parente e com o mesmo valor que o Pai, de que fala Valentim; é bem mais respeitável, anterior e digno de honra do que todos os outros Éões do próprio Ptolomeu, de Heráclio e de quantos pensam como ele.

[6] Se surge neles alguma dúvida por causa destes argumentos e reconhecem que o Pai de tudo contém todas as coisas, que fora do Pleroma não há nada, caso contrário o Pai é limitado e circunscrito por alguém maior do que ele; se falam de “fora” ou de “dentro” o fazem conforme o conhecimento ou a ignorância, sem indicar distância local.

[7] Se as coisas que sabemos terem sido feitas, foram feitas pelo Demiurgo ou pelos anjos, e estão contidas por uma Grandeza imensa no Pleroma ou no âmbito do Pai, como o centro no círculo ou uma mancha no vestido, então podemos perguntar quem é este Abismo que tolera uma mancha em seu seio e deixa que outro qualquer construa ou produza no seu domínio sem o seu consentimento.

[8] Isto acarretaria um inconveniente para o Pleroma inteiro porque podia, desde o início, eliminar a degradação e as emissões por ele iniciadas e não permitir que a criação fosse feita na ignorância, na paixão ou na degradação. Aquele que em seguida corrige a degradação e purifica a mancha poderia não ter permitido, desde o começo, que se produzisse tal mancha no seu domínio.

[9] Porém, se permitiu que, no início, as coisas fossem feitas assim porque não podia ser diferente, então sempre devem ser assim. O que não pode ser remediado no princípio como o poderá ser depois? Ou ainda, como podem afirmar que os homens são chamados à perfeição quando as causas que produziram os homens, o Demiurgo ou os anjos, são fruto de degradação?

[10] E se, pela sua misericórdia, nos últimos tempos teve piedade dos homens e lhes concedeu a perfeição, deveria ter compaixão primeiro dos que fizeram os homens e conceder-lhes a perfeição. Deste modo também os homens se beneficiariam da sua misericórdia e seriam criados perfeitos por criadores perfeitos.

[11] Se teve compaixão da sua obra muito mais a deveria ter tido com eles e não os deveria ter deixado cair em cegueira tão grande.

[12] Cairia também a sua doutrina da sombra e do vazio nos quais, dizem, foi produzida a nova criação se ela fosse feita no âmbito do Pai. Com efeito, se pensam que a luz paterna pode encher e iluminar todas as coisas que estão dentro dele, como poderia haver vazio e trevas nas coisas contidas no Pleroma e na Luz paterna?

[13] Eles deveriam indicar dentro do Pleroma ou no Protopai um lugar não iluminado e ocupado por algo em que os anjos ou o Demiurgo fizeram o que quiseram. E não é lugar pequeno aquele em que foi produzida criação tão grande e extensa.

[14] Por isso devem imaginar dentro do Pleroma ou dentro de seu Pai um lugar vazio, informe e tenebroso onde foram criadas as coisas criadas. Então seu lume paterno terá o defeito de não saber iluminar e encher o que está em seu domínio.

[15] E mais, chamando estas coisas de produto da degradação e fruto do erro, introduzem o erro e a degradação no Pleroma e no seio do Pai.

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