[1] Contra os que dizem que este mundo foi criado fora do Pleroma, isto é, do domínio do Deus bom, aplica-se o que dissemos pouco acima: eles estão fechados com o seu Pai por aquele que está fora do Pleroma, no qual eles também terminam fatalmente.
[2] Os que, porém, dizem que este mundo foi criado por outros, mas dentro dos confins delimitados pelo Pai, incorrem nos absurdos e nas inconveniências que acabamos de apontar.
[3] Eles são obrigados a admitir que tudo o que está dentro do Pai é luminoso, cheio, operoso ou então a acusar a luz paterna de incapacidade de iluminar todas as coisas, ou ainda a admitir que não só uma parte, mas todo o seu Pleroma é vazio, informe e tenebroso.
[4] E as outras coisas desta criação que são desprezadas como temporais e terrenas não o podem ser por estar dentro do Pleroma e no seio do Pai ou então este desprezo atinge todo o Pleroma.
[5] E a causa da ignorância encontra-se no seu Cristo. Conforme afirmam, quando formou a natureza da Mãe deles, a expulsou do Pleroma, isto é, separou-a da gnose.
[6] Portanto, quem a separou da gnose também causou a ignorância nela. Como poderia ele, que deu a gnose aos outros Éões anteriores a si, ser a causa da ignorância para a sua Mãe, mantendo-a afastada da gnose quando a expulsou do Pleroma?
[7] Mais ainda: se se está dentro ou fora do Pleroma por causa da gnose ou da ignorância, como alguns dizem estar na gnose quem está dentro do que conhece, devem admitir que o próprio Salvador, que chamam Tudo, esteve na ignorância.
[8] De fato, dizem que quando saiu do Pleroma ele formou a sua Mãe; ora, se chamam de ignorância de tudo o que está fora e o Salvador saiu do Pleroma para formar a Mãe dele, encontrou-se fora da gnose de todas as coisas e por isso mesmo na ignorância.
[9] Como lhe pode conferir a gnose estando fora da gnose? Dizem que nós também, por estar fora da gnose, estamos fora do Pleroma.
[10] E ainda: se o Salvador saiu do Pleroma à procura da ovelha desgarrada e o Pleroma identifica-se com a gnose, ele ficou fora da gnose, isto é, na ignorância.
[11] Por isso, ou se deve entender “fora do Pleroma” em sentido local, e então recai-se em todas as dificuldades apontadas acima, ou entender por gnose o que está dentro e por ignorância o que está fora, o Salvador deles e, muito antes, o Cristo se encontraram na ignorância por terem saído do Pleroma, isto é, da gnose, para formar a sua Mãe.
[12] Isto vale também contra todos os que de qualquer forma dizem que o mundo foi feito pelos anjos ou por outro qualquer que não o verdadeiro Deus.
[13] Com efeito, a crítica que fazem ao Demiurgo acerca das coisas criadas, materiais e temporárias, recai sobre o Pai, porque foi justamente no seio do Pleroma, com consciente anuência do Pai, que foram criadas as coisas destinadas a logo desaparecer.
[14] É que a causa desta criação não é o Demiurgo, ainda que ele acredite ser, mas aquele que permite e aprova que sejam produzidos, nos seus domínios, produtos da degradação e obras do erro, coisas temporárias entre as eternas, corruptíveis entre as incorruptíveis, erradas entre as verdadeiras.
[15] Se, porém, estas coisas foram feitas sem assentimento e aprovação do Pai de tudo, quem as fez num domínio que não era o seu e sem o assentimento do Pai de tudo é mais poderoso, forte e soberano do que ele.
[16] E se for, como dizem alguns, que o Pai lho permitiu sem consentir: ou podia impedir, mas lho permitiu impelido por alguma necessidade ou então não podia.
[17] Se não podia, é fraco e incapaz, e se podia, é enganador, hipócrita e escravo da necessidade, porque, mesmo sendo contrário, o permitiu como quem consente.
[18] E depois de ter deixado no princípio que o erro aparecesse e se consolidasse, em seguida procura destruí-lo, quando muitos já pereceram por causa da degradação.
[19] Mas não é conveniente dizer que Deus, que está acima de todas as coisas e é livre e independente, seja escravo da necessidade e haja alguma coisa por ele permitida e não aprovada; do contrário, torna-se a necessidade maior e mais soberana do que Deus, que é o mais poderoso e anterior a tudo.
[20] Ele, desde o início, deveria eliminar as causas da necessidade e não tornar-se dependente dela, concedendo algo que não lhe convinha.
[21] Seria bem melhor, mais lógico, mais divino eliminar desde o princípio a origem desta necessidade do que depois, como que arrependido, esforçar-se por suprimir os graves efeitos dela.
[22] Se o Pai de todas as coisas é escravo da necessidade, fica submetido ao destino e deve suportar, contra a vontade, o que acontece; está incapacitado de fazer alguma coisa que não seja exigida pela necessidade ou pelo destino; fica semelhante ao Júpiter homérico que, constrangido pela necessidade, diz: “Eu te entreguei Tróia de minha livre vontade, mas não de boa vontade”.
[23] É neste dilema que se encontra o seu Abismo, escravo da necessidade e do destino.

