[1] Como podiam os anjos ou o Criador do mundo ignorar o primeiro Deus se estavam nos domínios dele, eram criaturas suas e estavam contidos nele? Podia ser invisível pela sua majestade, mas nunca desconhecido pela sua providência. Ainda que estivesse bem longe deles, como dizem, pela degradação, contudo sendo o seu domínio estendido a todos, deviam conhecer o seu senhor e saber que quem os criou é o dono de todas as coisas.
[2] Pois a sua natureza invisível é tão poderosa que comunica a todos finíssima intuição e sensibilidade da sua majestade altíssima e onipotente. E ainda, que ninguém conheça o Pai senão o Filho, nem o Filho senão o Pai e aqueles aos quais o Filho o revelou, contudo todos o conhecem porque a razão inerente às inteligências as move e lhes revela que existe um único Deus, Senhor de todas as coisas.
[3] Por isso, todas as coisas estão sujeitas ao Nome do Altíssimo e do Onipotente, e, pela sua invocação, mesmo antes da vinda de nosso Senhor, os homens eram libertos dos espíritos malignos, de todos os demônios e toda apostasia. Não que os espíritos terrestres ou os demônios o tenham visto, mas porque sabem que é o Deus que está acima de todas as coisas, que ao nome dele eles tremiam como tremem todas as criaturas, Principados, Potências e toda Virtude que está abaixo dele.
[4] Os súditos do império romano, mesmo sem nunca terem visto o imperador e estando consideravelmente separados dele por terras e mares, conheceriam, em razão do império, quem detinha a autoridade máxima; e os anjos que estão acima de nós, ou o que chamam de Criador, não conheceriam o Onipotente quando, à sua convocação, até os animais irracionais tremem e fogem?
[5] Até sem tê-lo visto, todas as coisas estão sujeitas ao nome de nosso Senhor, ao nome de quem fez e criou todas as coisas, porque ele e não outro criou o mundo. Por isso, os judeus até hoje expulsam os demônios neste nome, porque todas as coisas têm medo da invocação daquele que as fez.
[6] Se não quiserem dizer que os anjos são menos racionais do que os animais irracionais, terão que admitir ser necessário que os anjos, mesmo sem terem visto o Deus que está acima de todas as coisas, tenham reconhecido o seu poder e a sua soberania.
[7] Na verdade, seria ridículo dizer que anjos, que estão na terra, conhecem o Deus que está acima de todas as coisas sem o terem visto e negar conhecer o que anjos conhecem estando tão em baixo, àquele que, segundo eles, criou os anjos e o mundo, e está no mais alto, acima dos céus.
[8] A não ser que queiram dizer que o seu Abismo está debaixo da terra, no Tártaro, e por isso o puderam conhecer antes de os anjos que moravam nas alturas. Chegam a tal ponto de insanidade mental que chamam de louco ao Demiurgo, mas, na realidade, é deles que se deve ter compaixão, quando na sua imensa loucura dizem que não conhecem a Mãe, nem a sua semente, nem o Pleroma dos Éões, nem o Protopai, nem o que seriam as coisas que criaram.
[9] Estas coisas seriam imagens daquelas que estão dentro do Pleroma, produzidas secretamente pelo Salvador em honra dos Éões superiores.

