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[1] Sem que o Demiurgo soubesse absolutamente nada, o Salvador — afirmam eles — honrou o Pleroma na criação quando produziu por meio da Mãe imagens e semelhanças das realidades do alto. Já demonstramos, porém, ser impossível existir fora do Pleroma algo com o qual fossem feitas as imagens do que está dentro do Pleroma e também ser impossível que alguém que não o primeiro Deus criasse este mundo.

[2] Contudo, se pode ser difícil refutá-los com os argumentos e convencê-los do erro, diremos, contra eles, que se estas coisas foram criadas pelo Salvador, em honra das realidades superiores e à imagem delas, deveriam existir para sempre, para honrar para sempre o que se queria honrar.

[3] Se, porém, são transitórias, o que vale uma honra de tão pouca duração daquilo que há pouco não existia e dentro em breve já não existirá? Podeis então acusar o Salvador de ter antes procurado uma glória fugaz para si do que para os que estão acima.

[4] Que honra podem prestar as coisas temporárias às eternas, as transitórias às permanentes, as corruptíveis às incorruptíveis? Até aos homens, que são efêmeros, não agradam honras que cedo desaparecem, mas agradam as que duram o mais possível.

[5] Pode-se até dizer que as coisas destruídas, quando acabam de ser feitas, foram criadas mais para a desonra daquele que se queria honrar e ultraja-se o eterno com uma imagem corrompida e estragada.

[6] Se a Mãe deles não tivesse chorado e se mostrado alegre e não tivesse caído em angústias, o Salvador não teria a possibilidade de honrar o Pleroma, porque esta extrema angústia não possuiria substância própria para honrar o Protopai.

[7] Quão vazia é a honra que logo desaparece para não mais voltar! Haverá um tempo em que se julgará que esta honra absolutamente não existiu e então serão desonrados os que estão acima e será necessário outra Mãe que dê à luz no choro e na angústia em honra do Pleroma. Que imagem inverossímil e ao mesmo tempo blasfema!

[8] Quereis dizer que o Criador do mundo produziu uma imagem do Unigênito que seria também Nous do Pai de todas as coisas, e que esta imagem ignoraria a si mesma, a criação, a Mãe e tudo o que foi e é criado por ela? Não enrubesceis de vós mesmos, atribuindo a ignorância até ao Unigênito?

[9] Se as coisas deste mundo foram criadas pelo Salvador à imagem das coisas do alto e ignorava isso tudo aquele que foi criado à imagem do Unigênito, necessariamente há de haver uma ignorância, segundo um modo pneumático, naquele que foi criado semelhante e naquele outro que ignorava ser ignorante.

[10] Gerados ambos de modo espiritual, não plasmados, nem compostos, é impossível que tenham conservado a semelhança nalgumas coisas e perdido noutras, visto que foram produzidos à imagem da geração do alto.

[11] Se não for semelhante, a culpa é do Salvador que, como artista incapaz, produziu uma imagem diferente. Tampouco podem dizer que aquele que chamam de Tudo não tinha o poder de fazer emissões.

[12] Por isso, segundo dizem, se a imagem é dessemelhante, o artista não presta e a culpa é do Salvador. E se for semelhante, encontra-se a ignorância no Nous do Protopai, isto é, no Unigênito que teria ignorado a si mesmo como Nous do Pai, teria ignorado o Pai e as coisas criadas por ele.

[13] Se, porém, conhece tudo isto, necessariamente há de conhecer o que é semelhante ao que foi criado à sua imagem pelo Salvador. E assim fica reduzida a nada, pelos seus próprios argumentos, a sua maior blasfêmia.

[14] De outro modo, como podem criaturas tão variadas, numerosas e até inumeráveis ser imagem dos trinta Éões que estão no Pleroma, cujos nomes reproduzimos no primeiro livro, assim como eles os nomeiam?

[15] Não somente a variedade de todas as criaturas, mas sequer uma parte das coisas celestes, terrestres ou aquáticas poderia comparar-se com a pequenez do seu Pleroma.

[16] São eles a dizer que os Éões são trinta; mas então como é que em cada região, antes lembrada, se contam não trinta e sim muitos milhares de espécies de seres, como qualquer poderia mostrar?

[17] Como podem criaturas tão numerosas, compostas de elementos contrários, que se opõem e destroem entre si, ser imagem e semelhança dos trinta Éões do Pleroma que, como dizem, são iguais, semelhantes e sem nenhuma diferença?

[18] Se umas são imagens das outras e se, como dizem, por natureza há homens bons e homens maus, é necessário admitir estas diferenças nos Éões e dizer que alguns deles foram feitos bons por natureza e outros maus, para que a sua teoria das imagens corresponda aos Éões.

[19] Ainda: como no mundo há seres mansos e outros ferozes, seres inofensivos e outros violentos e destruidores, alguns terrestres, outros aquáticos, outros voláteis, outros celestes, assim os Éões devem ter as mesmas qualidades, se aqueles são imagens destes.

[20] E devem dizer de qual dos Éões é imagem aquele fogo eterno que o Pai preparou para o diabo e os seus anjos, porque ele também pertence às coisas criadas.

[21] E se disserem que estas coisas são imagens da Entímese do Éon que experimentou a paixão, ofendem primeiramente sua Mãe, tornando-a iniciadora de imagens corruptíveis e más e, ademais, como podem ser imagens da única e idêntica substância estas muitas coisas, diversas e contrárias por natureza?

[22] Poderão dizer que no Pleroma os anjos são muitos e que a multiplicidade das coisas é a imagem deles, mas nem mesmo assim têm razão. Com efeito, devem antes demonstrar que as diferenças entre os anjos e o Pleroma têm propriedades contrárias como são contrárias entre si, na sua natureza, as imagens tiradas deles.

[23] Ainda, sendo multidão inumerável os anjos em volta do Criador, como dizem todos os profetas: dezenas de milhares de milhões estão junto a ele e muitos milhares de milhões servem-no e, segundo eles, os anjos do Pleroma têm por imagens os anjos do Criador, a criação continua, na íntegra, imagem do Pleroma, porque os trinta Éões não correspondem à multiforme variedade da criação.

[24] Ainda mais: se estas coisas foram feitas à imagem deles, eles foram feitos à imagem do quê? Se o Criador do mundo não as fez de sua cabeça, mas como artesão sem capacidade ou como aprendiz qualquer as copiou de outros arquétipos, de onde o Abismo deles tirou a ideia da primeira disposição das coisas que fez?

[25] Logicamente, deve ter recebido o modelo de outro que estava acima dele, e este de outro; assim se vai ao infinito na série das imagens e dos deuses se não se admitir um Artífice ou um Deus que sozinho criou todas as coisas.

[26] Admite-se que os homens inventam algo de útil para a vida, então por que não se concede que Deus, o criador do mundo, tenha tido a ideia das coisas criadas e a originalidade da sua ordem?

[27] Como são estas coisas imagens deles se são tão diferentes e sem alguma relação com eles? Com efeito, coisas contrárias podem ser nocivas àquelas de que são contrárias e de forma alguma serão a imagem, como a água e o fogo, a luz e as trevas, e muitas outras nunca serão imagem uma das outras.

[28] Assim, as coisas corruptíveis, terrenas, compostas, transitórias, não podem ser imagem das que, como dizem eles, são realidades pneumáticas, a não ser que admitam que estas também sejam compostas, limitadas, corpóreas e não espirituais, sem forma, ricas e intocáveis.

[29] É necessário que tenham aparência e contornos para serem imagens verdadeiras e, neste caso, está excluído serem espirituais.

[30] Se, porém, disserem que são espirituais, indefinidas e incompreensíveis, como podem coisas com forma e limitadas ser imagem das indefinidas e incompreensíveis?

[31] Se disserem que são imagem não por causa da figura ou da forma, e sim pelo número e a ordem de emissão, então deve-se logo afirmar que não são imagem e semelhança dos Éões do alto: se não têm a figura nem a forma deles, como lhes podem ser imagem?

[32] Ademais, experimentem fazer coincidir o número das emissões dos Éões do alto com o dos seres criados. Por enquanto, ao estabelecer trinta Éões e ao afirmar que a grande multiplicidade das coisas criadas são imagens dos trinta, certamente merecem que os qualifiquemos de insensatos.

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