[1] Se as coisas deste mundo são sombra e imagem do alto, como ousam dizer alguns deles, é necessário que admitam também que eles são corpos. Com efeito, são os corpos situados no alto que fazem sombra, porque os espirituais não podem fazer sombra a ninguém.
[2] Mas admitamos, o que é impossível, que haja uma sombra das coisas espirituais e luminosas na qual teria descido, como dizem, a sua Mãe. Neste caso, visto que aquelas coisas são eternas, é eterna também a sombra que produzem e, as coisas daqui não passam, mas perduram tanto quanto as realidades das quais elas são as sombras.
[3] Se, porém, essas são transitórias, também devem ser transitórias as de que são a sombra; mas se as coisas do alto perduram, também perdura a sua sombra.
[4] Se querem falar de sombra não em sentido literal, mas no sentido de que as coisas daqui estão muito afastadas daquelas, então atribuem à Luz do Pai a fraqueza e a incapacidade de atingi-las, por não conseguir encher o vazio e fazer desaparecer as trevas, ainda que ninguém lho impeça.
[5] Segundo eles, a Luz do Pai se transformaria em trevas e desapareceria, apagando-se no vazio, por não poder encher o vazio. Então o seu Abismo não é mais o Pleroma, porque não encheu o vazio e não iluminou as trevas ou devem deixar de lado a sombra e o vazio, visto que a Luz do Pai enche todas as coisas.
[6] Assim, pois, não pode haver nada fora do primeiro Pai, isto é, do Deus que está acima de todas as coisas ou Pleroma, nada em que, como dizem, teria descido a Entímese do Éon apaixonado, se não se quiser que o próprio Pleroma, ou primeiro Deus, seja limitado, definido ou contido por algo fora dele.
[7] Tampouco pode haver o vazio ou a sombra, porque o Pai não é alguém a quem venha a faltar a luz ou que ela acabe no vazio. É irracional e ímpio imaginar um lugar em que acabe aquele que é, segundo eles, o primeiro Pai e princípio, Pai de todos e também do Pleroma.
[8] Por outro lado, não se pode dizer que outro qualquer tenha produzido toda esta criação no seio do Pai, com ou sem o assentimento dele, pelos motivos vistos acima. Seria irreverência e, ao mesmo tempo, loucura, sustentar que uma criação tão imponente foi feita pelos anjos ou por alguma emissão que ignorava o verdadeiro Deus, justamente quando estava nos domínios dele.
[9] Nem é possível que as coisas terrenas e materiais tenham sido criadas dentro do Pleroma, que é todo espiritual, e tampouco que as coisas numerosas e contrárias da criação sejam imagens dos que, como dizem eles, são poucos, iguais na natureza e formam unidade.
[10] Manifestou-se errado tudo o que dizem da sombra e do vazio e também foi mostrado vazio o seu raciocínio e inconsistente a sua teoria e, por isso mesmo, vazios os que lhes prestam atenção e prestes a cair no abismo da perdição.

