[1] É evidente que Deus é o criador do mundo também para os que o negam de muitas maneiras, chamando-o Criador ou anjo, para não falar que as Escrituras todas o proclamam, e o Senhor ensina que este Deus é o Pai que está nos céus e não outro, como demonstraremos ao longo do discurso. Por enquanto, basta-nos assinalar o testemunho dos que nos contradizem, que concorda com o consenso de todos os homens, a começar pelos antigos, que receberam do primeiro homem a tradição, guardaram-na e cantaram hinos ao Deus único, criador do céu e da terra e, em seguida, pelos outros que vieram depois deles, aos quais os profetas de Deus relembram continuamente esta verdade, e pelos pagãos que a aprenderam da própria criação.
[2] Ela mostra quem a criou, a obra aponta o seu autor, o mundo revela quem o pôs em ordem. E a Igreja dispersa pelo mundo inteiro recebeu dos apóstolos esta tradição.
[3] Portanto, consta e é testemunhada por todos a existência de Deus assim como não consta e não é testemunhado o Pai que é, sem dúvida, uma invenção deles.
[4] Foi Simão, o mago, o primeiro a declarar que ele era o Deus que está acima de todas as coisas e que o mundo foi criado pelos seus anjos; e, depois dele, os seus seguidores, como já dissemos no primeiro livro, propalaram a doutrina, com afirmações ímpias e blasfematórias contra o Criador; e os discípulos destes tornaram piores do que os pagãos os que os escutam.
[5] Os pagãos “servem às criaturas antes que ao Criador” e aos que não são Deus, mas atribuem o mais alto grau de divindade ao Deus criador do universo.
[6] Enquanto estes chamam o Criador de fruto da degradação, de psíquico e desconhecedor da Potência que está acima dele e, quando diz: “Eu sou Deus e, afora eu, não há outro Deus”, tacham-no de mentiroso.
[7] São eles os verdadeiros mentirosos que lançam a ele toda a sua perversidade, e imaginando, segundo a sua doutrina, um ser que não existe acima daquele que é, eles também são blasfemadores do Deus que é, e os inventores de um Deus que não é, para a sua própria condenação.
[8] E eles que se dizem perfeitos e possuidores da gnose de todas as coisas, na realidade são piores do que os pagãos e, nos seus pensamentos, mais blasfemos, porque se dirigem contra o seu Criador.

