[1] Lucas, companheiro e discípulo dos apóstolos, falando de Zacarias e de Isabel, dos quais nasceu João, diz: “Ambos eram justos diante de Deus, e, de modo irrepreensível, seguiam todos os mandamentos e estatutos do Senhor”. E diz ainda de Zacarias: “Ora, aconteceu que, ao desempenhar ele as funções sacerdotais diante de Deus, no turno de sua classe, coube-lhe por sorte, conforme o costume sacerdotal, oferecer o incenso”; e veio para oferecer o sacrifício, “e entrou no Santuário do Senhor”. Evidentemente, estando diante do Senhor, adorava com pura, absoluta e firme fé aquele que elegeu Jerusalém e estabeleceu a legislação sacerdotal, de quem Gabriel é o anjo, porque não conhecia outro Deus superior a este; se tivesse pensado num Deus e Senhor mais perfeito, diferente deste, não teria reconhecido como Deus e Senhor, no sentido próprio e absoluto do termo, alguém que sabia ser o fruto de decadência, como expusemos acima.
[2] Ele também, falando de João, diz: “Pois ele será grande diante do Senhor e converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus; e caminhará à sua frente, com o espírito e o poder de Elias, para preparar ao Senhor um povo bem disposto”. Para quem preparará um povo e na presença de qual Senhor se tornou grande? Com certeza, diante daquele que disse que João era “mais do que profeta” e, “entre os nascidos de mulher, ninguém era maior do que João Batista”. Ele preparava o povo, prenunciando a seus companheiros de cativeiro a vinda do Senhor, pregando-lhes a penitência para que, na presença do Senhor, estivessem preparados a receber o perdão, por se terem convertido àquele do qual se tinham afastado com seus pecados e transgressões, de acordo com o que diz Davi: “Os pecadores transviaram-se desde o seio materno, erraram desde o tempo de sua concepção”. Eis por que, reconduzindo-os ao Senhor, preparava para o Senhor um povo bem disposto, no espírito e no poder de Elias.
[3] E, ao falar do anjo, diz ainda: “Naquele mesmo tempo, o anjo Gabriel foi enviado por Deus e disse à Virgem: Não temas, Maria, encontraste graça junto de Deus”. E a respeito do Senhor, o anjo diz: “Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará na casa de Jacó para sempre, e o seu reinado não terá fim”. Quem mais há de reinar sem interrupção e para sempre na casa de Jacó, senão Jesus Cristo, nosso Senhor, o Filho de Deus Altíssimo, que prometeu, por meio da Lei e dos profetas, tornar visível a sua Salvação a toda carne, de forma tal que este Filho de Deus se tornaria homem para que, por sua vez, o homem se tornasse filho de Deus?
[4] Por isso Maria, exultando, cantava profeticamente, em nome da Igreja: “A minha alma glorifica o Senhor e meu espírito exulta em Deus meu Salvador. Socorreu Israel, seu servo, lembrado de sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre”. Com estas palavras de tanta importância, o Evangelho mostra que o Deus que falou aos pais, isto é, aquele que deu a Lei por meio de Moisés e pela qual sabemos que falou aos pais, é o mesmo Deus que, na sua imensa bondade, efundiu sobre nós a sua misericórdia.
[5] Por causa desta misericórdia “visitou-nos o Astro das alturas e apareceu aos que jazem nas trevas e na sombra da morte e dirigiu nossos passos no caminho da paz”. É com estas palavras que Zacarias, ao ser libertado do mutismo, causado pela sua incredulidade, repleto de novo Espírito, de maneira nova bendizia a Deus. Com efeito, tudo era novo, pelo fato de que o Verbo vinha dispondo de maneira nova a vinda na carne, para reconduzir a Deus o homem que se afastara dele. Por isso, este homem aprendia a honrar a Deus de maneira nova, não, porém, um Deus novo, “pois não há senão um só Deus que justifica os circuncisos em previsão da fé e os incircuncisos pela fé”.
[6] Zacarias, repleto do Espírito Santo, profetizou: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo, e suscitou-nos uma força de salvação, na casa de Davi, seu servo, como prometera, desde tempos remotos, pela boca de seus santos profetas, salvação que nos liberta dos nossos inimigos e da mão de todos os que nos odeiam, para usar de misericórdia com nossos pais, lembrado de sua aliança sagrada, do juramento que fez ao nosso pai Abraão, de nos conceder que, sem temor, libertos da mão de nossos inimigos, nós o sirvamos com santidade e justiça, em sua presença, todos os nossos dias”.
[7] Depois, diz a João: “E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo; pois irás à frente do Senhor, para preparar-lhe os caminhos, para transmitir a seu povo o conhecimento da salvação, pela remissão de seus pecados”. Este conhecimento da salvação, isto é, do Filho de Deus, é o que lhes faltava e João o produzia ao dizer: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Este é aquele de quem eu disse: depois de mim, vem um homem que passou adiante de mim, porque existia antes de mim e de sua plenitude todos nós recebemos”. Esta é a gnose da salvação: reconhecer não outro Deus ou outro Pai ou o Abismo ou o Pleroma dos trinta Éões ou a Mãe das Ogdôadas! Mas o conhecimento da Salvação é o conhecimento do Filho de Deus que é chamado e é realmente Salvação, Salvador e Poder salvador: — Salvação, neste texto: “Esperei na tua salvação, Senhor”; — Salvador, neste outro: “Eis o meu Deus salvador, confiarei nele”; — Poder salvador, neste terceiro: “O Senhor manifestou a sua ação salvadora diante das nações”. Com efeito, ele é Salvador enquanto Filho de Deus e Verbo de Deus; ação salvadora, enquanto espírito, porque, está escrito, o “espírito do nosso rosto é o Cristo Senhor;” finalmente é Salvação enquanto carne, porque o “Verbo se fez carne e habitou entre nós”. Este era o conhecimento da Salvação que João dava a todos os que faziam penitência e acreditavam no Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
[8] Lucas diz ainda que o anjo do Senhor apareceu aos pastores, anunciando-lhes a grande alegria: “nasceu na casa de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor”. Depois juntou-se “uma multidão do exército celeste a louvar a Deus, dizendo: Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens que ele ama”. Os falsos gnósticos dizem que estes anjos saíram da Ogdôada e revelaram a descida do Cristo do alto. Porém manifestam logo o seu erro quando dizem que o Cristo e Salvador do alto não nasceu, mas desceu, na forma de pomba, na pessoa do Jesus da economia, quando do batismo dele. Por isso, segundo eles, mentem os anjos da Ogdôada, dizendo que Nasceu para vós, hoje, na cidade de Davi, um Salvador que é o Cristo Senhor, porque, para eles, naquele momento, não nasceu nem o Cristo, nem o Salvador, mas o Jesus da economia, que está às dependências do Demiurgo e que só depois do batismo, isto é, depois de trinta anos, é que desceu nele o Salvador do alto.
[9] Então, por que acrescentaram na cidade de Davi se não era para anunciar realizada a promessa de um Rei eterno, fruto de seu seio, que Deus fez a Davi? Com efeito, foi o Criador deste universo que fez essa promessa a Davi, como diz o próprio Davi: “O meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra”; e ainda: “Ele tem nas mãos as profundezas da terra e dele são os cumes das montanhas; é dele o mar, pois foi ele quem o fez, e a terra firme, que plasmaram as suas mãos. Entrai, prostrai-vos e inclinai-vos, de joelhos, diante do Senhor que nos fez, pois ele é o nosso Deus”. O Espírito anuncia claramente pela boca de Davi, aos que o ouvem, que haverá daqueles que desprezarão quem nos plasmou e que é o único Deus.
[10] Com as palavras que acabamos de citar, ele queria dizer: “Não vos deixeis enganar: nem fora, nem acima deste, existe outro Deus para o qual vos devais dirigir”, e assim nos queria predispor à piedade e ao agradecimento para com o Deus que nos criou, nos fez e nos alimenta. O que acontecerá, então, com os que inventaram tão grande blasfêmia contra o seu Criador?
[11] Os anjos dizem o mesmo. Com estas palavras: “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra,” glorificam a Deus que fez as alturas, isto é, as regiões supracelestes e criou tudo o que se encontra na terra, que enviou do céu à obra que modelou, isto é, “aos homens”, a sua bondade salvadora. Eis por que diz: “Os pastores voltaram, glorificando a Deus por tudo o que viram e ouviram, conforme lhes fora anunciado”. Ora, não era a outro Deus que os pastores glorificavam, mas aquele que fora anunciado pela Lei e os profetas, Criador de todas as coisas, o mesmo que era glorificado pelos anjos. Se os anjos da Ogdôada glorificavam um Deus e os pastores outro, era a mentira e não a verdade que lhes fora anunciada pelos anjos da Ogdôada.
[12] Lucas diz ainda, acerca do Senhor: “Quando se completaram os dias para a sua purificação, levaram-no a Jerusalém a fim de apresentá-lo ao Senhor, conforme está escrito na Lei do Senhor: Todo macho que abre o útero será consagrado ao Senhor, e para oferecer em sacrifício, como é dito na Lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos”; chamando Senhor, de maneira absoluta, àquele que estabeleceu a Lei. E continua: Simeão bendisse a Deus, dizendo: “Agora, Senhor, despede em paz o teu servo, porque meus olhos viram a tua Salvação, que preparaste em face de todos os povos, luz para iluminar as nações e glória de teu povo Israel”. Ana, a profetisa, por sua vez, glorificava, do mesmo modo, a Deus e “falava do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém”. Todas estas citações são para mostrar que existe um só Deus que abriu aos homens o Novo Testamento de liberdade, pela nova economia da vinda de seu Filho.
[13] Por isso, Marcos, companheiro e intérprete de Pedro, inicia assim a redação do Evangelho: “Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus, conforme está escrito nos profetas: Eis que eu envio o meu mensageiro diante de ti, para preparar-te o caminho. Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as veredas do nosso Deus”. Está claro que o início do Evangelho está nas palavras dos santos profetas e aquele que confessaram Senhor e Deus é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual prometeu enviar um anjo que o precedesse.
[14] Este foi João, que no espírito e no poder de Elias gritava no deserto: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as veredas diante do nosso Deus”. Com efeito, os profetas não anunciavam ora um Deus ora outro, mas o único e idêntico Deus, servindo-se de vários sinais e de muitos nomes, porque o Pai é múltiplo e rico, como mostramos no livro precedente e como mostraremos ao longo de nosso escrito, por meio dos escritos dos profetas.
[15] E, no final do Evangelho, Marcos diz também: “Ora, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao céu e sentou-se à direita de Deus”, confirmando assim o que foi dito pelo profeta: Disse o Senhor ao meu Senhor: “Senta-te à minha direita até que ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés”. Assim, existe um só e idêntico Deus e Pai, anunciado pelos profetas, transmitido pelo Evangelho, que nós, cristãos, honramos e amamos de todo o coração, Criador do céu e da terra e de tudo o que está neles.

