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[1] Esta mesma fé é pregada por João, discípulo do Senhor, que quis, com o seu Evangelho, extirpar o erro semeado entre os homens por Cerinto, e muito antes, pelos chamados nicolaítas, uma ramificação separada da falsa gnose, e refutá-los, demonstrando que existe somente um Deus, que criou todas as coisas pelo seu Verbo e que é falso o que eles dizem, isto é, que um é o Demiurgo e outro é o Pai do Senhor; que um é o Filho do Demiurgo e outro é o Cristo do alto, que teria ficado impassível quando da sua descida a Jesus, o Filho do Demiurgo, voltando depois para o seu Pleroma; que o Princípio é o Unigênito, ao passo que o Logos é Filho deste Unigênito; e finalmente, que o nosso mundo não foi criado pelo primeiro Deus, e sim por alguma Potência muito inferior e afastada de toda comunicação com as realidades invisíveis e inexprimíveis.

[2] Ora, querendo o discípulo do Senhor extirpar todos estes erros e estabelecer na Igreja a regra da verdade, a saber, que existe um só Deus onipotente, que por meio de seu Verbo fez todas as coisas, as visíveis e as invisíveis; indicando também que por este Verbo, pelo qual fizera a criação, Deus deu a salvação aos homens que se encontravam nesta criação, assim começou a ensinar no seu Evangelho: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus; no princípio ele estava com Deus. Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito. O que foi feito nele era a vida, e a vida era a luz dos homens e a luz brilha nas trevas, mas as trevas não a apreenderam”.

[3] Diz: Tudo foi feito por meio dele. Entre todas estas coisas é evidente que há também esta criação, pois não lhes podemos conceder que a expressão “todas as coisas” designe o que se encontra no interior de seu Pleroma. Com efeito, se o seu Pleroma contém também as coisas que nos envolvem, o nosso grande mundo criado não está fora dele, como demonstramos no livro precedente; se, ao contrário, estas coisas estão fora do Pleroma, o que nos pareceu impossível, o seu Pleroma já não é todas as coisas. Portanto, não se pode excluir desta totalidade nada de toda esta criação.

[4] Por outro lado, o próprio João eliminou de nós toda divergência, dizendo: “Ele estava no mundo e o mundo foi feito por meio dele, mas o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu e os seus não o receberam”. Porém, segundo Marcião e seus semelhantes, nem o mundo foi feito por meio dele, nem ele veio entre os seus, mas entre estrangeiros. Segundo alguns gnósticos, este mundo foi feito pelos Anjos e não por meio do Verbo. Segundo os valentinianos foi feito não por meio do Verbo, e sim pelo Demiurgo.

[5] Com efeito, o Verbo fazia que as coisas fossem semelhantes às do mundo superior, como eles dizem, e o Demiurgo cumpria a obra da criação. Dizem que ele foi emitido pela Mãe como Senhor e Demiurgo da economia da criação e este mundo foi feito por ele, mas o Evangelho diz expressamente que todas as coisas foram feitas pelo Verbo que no princípio estava com Deus, e este “Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

[6] Segundo os hereges, porém, o Verbo não se fez carne, nem o Cristo, nem o Salvador de todos. E sustentam até que o Verbo e o Cristo não vieram a este mundo e que o Salvador não se encarnou e padeceu, mas que desceu, na forma de pomba sobre o Jesus da economia e, depois de ter anunciado o Pai incognoscível, voltou para o Pleroma.

[7] Para alguns, quem se encarnou e padeceu foi o Jesus da economia, depois de ter passado por Maria, como a água por um tubo; para outros, foi o Filho do Demiurgo, no qual desceu o Jesus da economia; para outros ainda, Jesus nasceu de José e de Maria e nele é que desceu o Cristo do alto, sem carne e impassível.

[8] Ora, em nenhuma destas opiniões heréticas se admite que “O Verbo de Deus se fez carne”; e se alguém examina a regra de fé de todos eles verá que apresentam o Verbo de Deus e o Cristo do alto sem carne e impassíveis. Alguns pensam que se manifestou na forma de homem, mas não admitem tenha nascido e se tenha encarnado; outros não concedem sequer a forma de homem e dizem que desceu, na forma de pomba, sobre o Jesus que nasceu de Maria.

[9] Todos eles são declarados testemunhas falsas pelo discípulo do Senhor que diz: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

[10] E para que não procuremos de qual Deus o Verbo se fez carne, ele mesmo no-lo ensina, dizendo: “Houve um homem enviado por Deus e seu nome era João. Este veio como testemunha para dar testemunho da luz. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz”.

[11] Por qual Deus foi enviado João, o precursor e a testemunha da luz? Certamente, por aquele de quem Gabriel é o anjo, que também anunciou a boa nova do seu nascimento e que prometeu por meio dos profetas que enviaria o seu mensageiro diante da face de seu Filho para lhe preparar o caminho, isto é, para dar testemunho da luz, no Espírito e no poder de Elias.

[12] E, por sua vez, Elias foi servo e profeta de qual Deus? Daquele que fez o céu e a terra, como ele próprio confessa. Ora, se João foi enviado pelo Criador deste mundo, como poderia dar testemunho a uma luz que tivesse descido de regiões invisíveis e inexprimíveis?

[13] Todos os hereges afirmam que o Demiurgo ignora a Potência que está acima dele de quem João é testemunha e indicador. É por este motivo que o Senhor disse que o tinha em conta de alguém maior do que profeta, porque os outros profetas anunciaram a vinda da luz do Pai e desejavam ser dignos de ver aquele que prenunciavam; João o prenunciou, como os outros, porém o viu quando veio, indicou-o e levou muitos a crerem nele, tornando-se ao mesmo tempo profeta e apóstolo.

[14] Ora, é isso que quer dizer “mais do que profeta”, porque primeiro há os apóstolos e depois os profetas, e os mesmos são enviados por um só e idêntico Deus.

[15] O vinho que Deus produziu da videira pelo processo natural e que foi bebido em primeiro lugar era bom, de sorte que nenhum dos que o beberam o criticaram e o próprio Senhor tomou dele.

[16] Mas aquele que o Verbo fez instantaneamente e simplesmente usando a água que servia aos convidados às bodas era melhor.

[17] Ora, se bem que o Senhor tivesse o poder de fornecer o vinho aos convidados e de saciar de alimentos os famintos sem precisar de nenhuma das coisas criadas, não o fez. Assim, tomando os pães que provinham da terra e dando graças, e, outra vez, mudando a água em vinho, saciou os que estavam sentados na relva e dessedentou os convidados às bodas.

[18] Mostrava, com isso, que o Deus que fez o céu e a terra e lhe ordenou que produzisse frutos, que estabeleceu as águas e fez as fontes jorrarem, é ainda ele que nos últimos tempos dá ao gênero humano a bênção do Alimento e a graça da Bebida, por meio de seu Filho: o Deus incompreensível por meio daquele que pode ser compreendido, o Deus invisível, por aquele que pode ser visto, pois este não está fora dele, mas está no seio do Pai.

[19] João diz: “Ninguém jamais viu a Deus. O Filho único que está no seio do Pai, este o deu a conhecer”.

[20] Pois o Pai que é invisível é dado a conhecer a todos pelo Filho que está em seu seio. Por isso o conhecem aqueles aos quais o Filho o revela, e, por seu lado, o Pai dá a conhecer o seu Filho, por meio do próprio Filho, aos que o amam.

[21] Foi porque instruído pelo Pai que Natanael o conheceu e recebeu do Senhor o testemunho de que era verdadeiro israelita, no qual não havia engano. Este israelita conheceu o seu Rei e lhe disse: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!”

[22] Como também foi porque instruído pelo Pai que Pedro conheceu o Cristo, Filho do Deus vivo e disse: “Eis o meu Filho bem-amado em que me comprazo. Porei o meu Espírito sobre ele e fará conhecer o julgamento às nações. Ele não discutirá, nem clamará, nem sua voz se ouvirá nas praças. Ele não quebrará o caniço rachado, nem apagará a mecha que ainda fumega até que conduza o direito ao triunfo; e no seu nome as nações porão sua esperança”.

[23] Estas são as verdades fundamentais anunciadas pelo Evangelho: um só Deus criador deste universo, que foi anunciado pelos profetas, que deu a economia da Lei por meio de Moisés, que é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, fora do qual não conhecem outro Deus ou outro Pai.

[24] O valor dos evangelhos é tão grande que recebe o testemunho até dos próprios hereges, os quais tentam confirmar as suas teorias apoiados nalguns dos seus textos.

[25] Assim os ebionitas, que se servem somente do Evangelho segundo Mateus, são convencidos somente por ele a não pensar corretamente acerca do Senhor.

[26] Marcião, que mutila o Evangelho segundo Lucas, demonstra-se blasfemador do único e verdadeiro Deus, pelos simples fragmentos que ainda conserva.

[27] Os que distinguem Jesus do Cristo e dizem que o Cristo permaneceu impassível enquanto Jesus sofria, podem ser corrigidos pelo Evangelho segundo Marcos, que eles preferem, se o lerem com amor à verdade.

[28] Finalmente, os valentinianos, aceitando inteiramente o Evangelho segundo João, para demonstrar as suas sizígias, são acusados por este mesmo Evangelho de não dizer nada de certo, como mostramos no primeiro livro.

[29] A partir do momento que os nossos adversários usam estes evangelhos, dando-lhes o testemunho, é maior o valor da nossa argumentação baseada neles.

[30] Por outro lado, os evangelhos não são, nem mais nem menos, do que estes quatro.

[31] Com efeito, são quatro as regiões do mundo em que vivemos, quatro são os ventos principais e visto que a Igreja é espalhada por toda a terra e como tem por fundamento e coluna o Evangelho e o Espírito da vida, assim são quatro as colunas que espalham por toda parte a incorruptibilidade e dão vida aos homens.

[32] Por isso é evidente que o Verbo, Artífice de todas as coisas, que está sentado acima dos querubins e mantém unidas todas as coisas, quando se manifestou aos homens, nos deu um Evangelho quadriforme, sustentado por um único Espírito.

[33] Por isso Davi, ao invocar a sua vinda, diz: “Tu que te assentas acima dos querubins, aparece”.

[34] Ora, os querubins têm quatro aspectos, e suas figuras são a imagem da atividade do Filho de Deus.

[35] Ele diz: “O primeiro animal é semelhante a leão”, caracterizando o poder, a supremacia e a realeza; “o segundo é semelhante a novilho”, manifestando a sua destinação ao sacrifício, ao sacerdócio; “o terceiro tem rosto semelhante a homem”, o que lembra claramente a sua vinda em forma humana; e “o quarto assemelha-se à águia que voa”, sinal do dom do Espírito que sopra sobre a Igreja.

[36] Os evangelhos, portanto, correspondem a estes animais, acima dos quais está sentado Jesus Cristo. Um conta a geração preeminente, poderosa e gloriosa que tem do Pai, com estas palavras: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus; e: Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito”.

[37] É por isso que este Evangelho está cheio de pensamentos sublimes; pois este é o seu aspecto.

[38] O Evangelho segundo Lucas, portador de caráter sacerdotal, começa com o sacerdote Zacarias que oferece a Deus o sacrifício do incenso, porque já estava pronto o vitelo gordo que devia ser imolado por causa da volta do filho menor.

[39] Mateus, por sua vez, narra a sua geração humana, dizendo: “Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão”. E em seguida: “A origem de Jesus Cristo foi assim”.

[40] É portanto, o Evangelho da humanidade de Cristo, por isso Jesus é constantemente apresentado como homem humilde e manso.

[41] Marcos, por sua vez, inicia pelo Espírito profético que do alto investe o homem: “Princípio do Evangelho; conforme está escrito no profeta Isaías…,” dando uma imagem alada do Evangelho.

[42] Por isso exprime-se de maneira concisa e rápida: é o estilo profético. É assim que o próprio Verbo de Deus falava conforme a sua divindade e glória aos patriarcas que viveram antes de Moisés; aos que viveram no tempo da Lei conferia função ministerial e sacerdotal; em seguida, quando se fez homem, para nós enviou o Espírito celeste a toda a terra para nos proteger com suas asas.

[43] Em suma, da forma como se apresenta a atividade do Filho de Deus assim é o aspecto dos animais, e igual ao aspecto dos animais é a característica do Evangelho: quadriformes os animais, quadriforme o Evangelho, quadriforme a atividade do Senhor.

[44] Por isso também foram concluídas quatro alianças com a humanidade: uma, nos tempos de Adão, antes do dilúvio; a segunda, depois do dilúvio, nos tempos de Noé; a terceira, que é o dom da Lei, nos tempos de Moisés; e a quarta, finalmente, que, por meio do Evangelho, renova o homem e as recapitula todas em si, e eleva os homens, fazendo-os levantar voo para o reino celeste.

[45] Sendo esta a realidade, são estultos, ignorantes e, além disso, irreverentes os que rejeitam a forma com que se apresenta o Evangelho e introduzem número maior ou menor de formas do que as que apresentamos; alguns para dar a entender que acharam algo mais do que a verdade e outros para rejeitar as economias de Deus.

[46] Assim, Marcião, rejeitando todo o Evangelho, ou melhor, separando-se do Evangelho, ainda encontra motivos para gloriar-se de possuir uma parte do Evangelho.

[47] Outros, para negar o dom do Espírito difundido nos últimos tempos sobre o gênero humano, pelo beneplácito do Pai, não admitem a forma do Evangelho segundo João, no qual o Senhor promete enviar o Paráclito: rejeitam ao mesmo tempo o Evangelho e o Espírito profético.

[48] Verdadeiramente infelizes, porque, para evitar o perigo dos falsos profetas, não reconhecem à Igreja a graça da profecia, da mesma forma dos que, por medo de se contaminar com pecadores ocultos, não conservam sequer relações com os irmãos.

[49] É fácil entender por que eles também não admitem o apóstolo Paulo, o qual, na carta aos coríntios, fala claramente dos carismas proféticos mencionando homens e mulheres que profetizam na Igreja.

[50] Por causa disso tudo, eles pecam contra o Espírito de Deus, caindo em pecado irremissível.

[51] Os valentinianos, indo além de todo pudor e publicando seus próprios escritos, gloriam-se de ter mais do que está nos evangelhos e tiveram a grande ousadia de intitular “Evangelho da verdade” a um seu escrito recente que é completamente diferente dos evangelhos dos apóstolos, de tal forma que entre eles, sequer o Evangelho está isento de ser blasfemado.

[52] Ora, se o deles é o evangelho da verdade e é diferente dos evangelhos que os apóstolos nos transmitiram, os que o quiserem, podem se dar conta, por meio das próprias Escrituras, que não é aquele transmitido pelos apóstolos, o evangelho da verdade.

[53] Mas nós mostramos, com tantos e tão fortes argumentos, que somente os evangelhos dos apóstolos são os verdadeiros e autênticos, e que não pode haver nem mais nem menos do que foi dito.

[54] Com efeito, se Deus fez todas as coisas com ordem e harmonia, havia também de fazer com que a forma dos evangelhos se apresentasse com ordem e harmonia.

[55] Agora, depois de ter examinado o pensamento dos que nos transmitiram o Evangelho, desde os inícios deles, passemos aos outros apóstolos e vejamos o seu pensamento sobre Deus; a seguir ouviremos também as próprias palavras do Senhor.

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