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[1] O apóstolo Pedro, depois da ressurreição do Senhor e da sua ascensão ao céu, querendo completar o número dos doze apóstolos com a eleição que Deus faria, de um dos presentes no lugar de Judas, disse: “Irmãos, era preciso que se cumprisse a Escritura, em que, por boca de Davi, o Espírito Santo havia, de antemão, falado a respeito de Judas, que se tornou o guia dos que prenderam Jesus e era contado entre os nossos: Fique deserta a sua morada e não haja quem nela habite, e: Outro receba o seu encargo”. Pedro completava assim o número dos apóstolos, baseando-se no que Davi dissera.

[2] Em seguida, depois que o Espírito Santo desceu sobre os discípulos e como todos profetizassem e falassem línguas diversas e alguns fizessem troça deles como se estivessem ébrios pelo vinho doce, Pedro declarou que não estavam embriagados, pois era apenas a terceira hora do dia, mas que se cumpria a palavra do profeta: “Sucederá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne e profetizarão”. O Deus que prometera, por meio do profeta, que enviaria o seu Espírito sobre o gênero humano, enviou-o realmente e este Deus anunciado por Pedro é o que cumpre as promessas.

[3] Pedro, pois, diz: “Homens de Israel, ouvi estas minhas palavras. Jesus de Nazaré foi por Deus aprovado diante de vós com milagres, prodígios e sinais que Deus operou por meio dele entre vós, como bem sabeis. Este homem, entregue segundo o desígnio determinado e a presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o pela mão dos ímpios. Mas Deus o ressuscitou, libertando-o das angústias dos infernos, pois não era possível que ele fosse retido em seu poder.

[4] De fato, é a respeito dele que diz Davi: Eu via sem cessar o Senhor diante de mim: ele está à minha direita, para que eu não vacile. Por isso alegra-se o meu coração e minha língua exulta. Mais ainda, também minha carne repousará na esperança, porque não abandonarás minha alma nos infernos, nem permitirás que teu santo veja a corrupção”. Em seguida lhes fala com coragem do patriarca Davi que morreu e foi sepultado e o sepulcro dele estava ali entre eles até este dia.

[5] Mas sendo profeta — continua — e sabendo que Deus lhe havia assegurado com juramento que um descendente seu tomaria assento em seu trono, previu e anunciou a ressurreição de Cristo, o qual, na verdade, não foi abandonado nos infernos, nem sua carne viu a corrupção. A este Jesus — continua — Deus o ressuscitou, e disto nós todos somos testemunhas. Portanto, exaltado pela direita de Deus, ele recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e o derramou, e é isto o que vedes e ouvis.

[6] Pois Davi, que não subiu aos céus, afirma: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita até que eu faça de teus inimigos um estrado para teus pés. Saiba, portanto, com certeza, toda a casa de Israel: Deus o constituiu Senhor e Cristo, este Jesus a quem vós crucificastes”. E à multidão que lhe perguntava: “Que devemos fazer?” Pedro respondeu: “Arrependeivos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para a remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo”.

[7] Portanto, os apóstolos não pregavam outro Deus ou outro Pleroma, nem um Cristo que padeceu e ressuscitou distinto de outro que teria subido e permanecido impassível, mas um único e mesmo Deus Pai e um único e mesmo Jesus Cristo, que ressuscitou dos mortos. E anunciavam a fé no Filho de Deus aos que não criam nele e lhes demonstravam pelos profetas que Deus lhes enviara o Cristo que prometera enviar, na pessoa deste mesmo Jesus que eles crucificaram e que Deus ressuscitara.

[8] Ainda, quando Pedro acompanhado de João viu o coxo de nascimento, sentado diante da porta do templo, chamada Formosa, a pedir esmola, disse-lhe: Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho, isso te dou: Em nome de Jesus Cristo de Nazaré, levanta-te e anda. E imediatamente se lhe consolidaram os pés e os tornozelos, e andava. “Entrou com eles no templo, andando, saltando e louvando a Deus”.

[9] Como grande multidão se ajuntasse em volta deles por causa do milagre, Pedro tomou a palavra e disse: “Israelitas, por que vos admirais disto e pondes os olhos em nós, como se por nosso poder, ou por nossa piedade, tivéssemos feito andar este homem? O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, o Deus de nossos pais, glorificou o seu Filho Jesus, a quem vós entregastes e negastes diante de Pilatos, sendo ele de opinião que se soltasse. Mas vós negastes o Santo e o Justo e pedistes que vos fosse dado um homicida; matastes o autor da vida, a quem Deus ressuscitou dos mortos, do que nós somos testemunhas. Mediante a fé do seu nome é que o seu mesmo nome deu firmeza a este que vós vedes e conheceis; a fé que vem dele foi que deu a este cura perfeita à vista de todos nós.

[10] Agora, irmãos, eu sei que procedestes por ignorância. Porém Deus cumpriu o que tinha anunciado por boca de todos os profetas: que padeceria o seu Cristo. Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que os vossos pecados vos sejam perdoados, para que venham os tempos da consolação diante do Senhor e envie aquele Jesus Cristo que vos foi destinado, o qual convém que o céu receba até os tempos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou antigamente pela boca dos seus santos profetas. Moisés disse a nossos pais: O Senhor vosso Deus vos suscitará um profeta dentre vossos irmãos, como eu; a este ouvireis em tudo o que vos disser. Todo aquele, pois, que não ouvir este profeta será exterminado do meio do povo.

[11] E todos os profetas que falaram desde Samuel em diante, anunciaram estes dias. Vós sois os filhos dos profetas e da aliança que Deus estabeleceu com nossos pais, dizendo a Abraão: ‘Na tua posteridade serão abençoadas todas as famílias da terra’. Deus, tendo ressuscitado o seu Filho, vo-lo enviou primeiramente a vós, para vos abençoar, a fim de que cada um se converta da sua iniqüidade”.

[12] Pelo discurso que Pedro fez, juntamente com João, anunciando cumpridas em Jesus as promessas que Deus fez aos pais, aparece claramente que ele não pregou outro Deus, mas o verdadeiro Filho de Deus feito homem, que padeceu e conduziu Israel ao conhecimento verdadeiro da salvação; pregou a ressurreição dos mortos em Jesus e indicou que tudo o que os profetas predisseram da paixão de Cristo, Deus o tinha cumprido.

[13] Por isso, Pedro disse ainda com coragem aos chefes dos sacerdotes reunidos: “Chefes do povo e anciãos de Israel, já que hoje somos interrogados a respeito de benefício feito a homem enfermo, para saber de que modo foi curado, seja notório a todos vós e a todo o povo de Israel, que é em nome de nosso Senhor Jesus Cristo de Nazaré, que vós crucificastes, e a quem Deus ressuscitou dos mortos, é neste nome que este está são diante de vós.

[14] Ele é a pedra que foi rejeitada por vós que edificais, a qual foi posta por pedra angular. Não há salvação em nenhum outro, porque, sob o céu, nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual nós devamos ser salvos”. Eis, portanto, que os apóstolos não trocavam de Deus, mas anunciavam ao povo que o Cristo era Jesus crucificado e ressuscitado por Deus; tinha-o ressuscitado o mesmo Deus que enviara os profetas e nele deu a salvação aos homens.

[15] Confundidos, quer pelo milagre — pois, diz a Escritura, o homem para o qual se deu esta cura miraculosa, tinha mais de quarenta anos —, quer pelo ensinamento dos apóstolos e pela explicação dos profetas, os chefes dos sacerdotes soltaram Pedro e João, que voltaram aos outros apóstolos e discípulos do Senhor, isto é, à Igreja, e contaram tudo o que tinha acontecido e como tinham agido com coragem no nome de Jesus.

[16] Ao ouvir isto, diz Lucas, “levantaram unânimes a voz a Deus e disseram: Senhor, és tu que fizeste o céu e a terra, o mar e tudo o que há neles; que, mediante o Espírito Santo, pela boca do nosso pai Davi, teu servo, disseste: Por que se agitaram as gentes, e os povos fizeram vãos projetos. Levantaram-se os reis da terra, e os príncipes se coligaram contra o Senhor e contra o seu Cristo.

[17] Porque verdadeiramente se coligaram nesta cidade contra o teu santo Filho Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com os gentios e com os povos de Israel, para executarem o que a tua mão e a tua vontade determinaram que se fizesse”. Esta é a voz da Igreja, da qual tiveram origem todas as igrejas; estas as vozes da Cidade mãe dos cidadãos da nova Aliança; estas eram as vozes dos apóstolos, as vozes dos discípulos do Senhor; eles eram verdadeiramente perfeitos, por terem sido tornados perfeitos pelo Espírito, depois da ascensão do Senhor; e invocavam a Deus que fez o céu, a terra e o mar, anunciado pelos profetas e o seu Filho Jesus, que Deus ungiu, e não conheceram outro Deus.

[18] Não havia, então, Valentim, nem Marcião, nem nenhum destes que perdem a si mesmos e aos que acreditam neles. Por isso o Deus Criador de todas as coisas os escutou: “Tremeu o lugar onde estavam reunidos, diz, e ficaram todos cheios do Espírito Santo e anunciavam com firmeza a palavra de Deus aos que estavam dispostos a crer”. Com grande coragem — continua — davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, dizendo-lhes: “O Deus dos nossos pais ressuscitou Jesus, a quem vós matastes, suspendendo-o num madeiro.

[19] A este elevou Deus com a sua destra como Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados. Nós somos testemunhas destas coisas e também o Espírito Santo, que Deus deu a todos os que lhe obedecem”. “E todos os dias — continua — não cessavam de ensinar e de anunciar a Boa-nova de Jesus, o Cristo, Filho de Deus, no templo e pelas casas”. Este é o conhecimento da Salvação, que torna perfeitos para Deus os que conhecem a vinda de seu Filho.

[20] Visto que alguns deles dizem impudentemente que, ao pregar aos judeus, os apóstolos não lhes podiam anunciar nenhum outro Deus a não ser aquele em quem criam, nós lhes responderemos que se os apóstolos tivessem falado de acordo com a opinião que os homens tinham desde os tempos antigos, ninguém teria chegado à verdade por meio deles, nem mesmo pelo Senhor, bem antes deles, porque, na opinião dos hereges, ele próprio já tinha falado desta maneira.

[21] Por conseguinte, nem os próprios hereges conheceriam a verdade, porque teriam sido instruídos segundo uma ideia preconcebida de Deus, acomodada ao seu entendimento. Usando este princípio ninguém possuiria regra da verdade e todos os discípulos podem dizer a todos que foram instruídos conforme o que pensavam antes e conforme sua capacidade de entender. Desta forma, a vinda do Senhor teria sido inútil e supérflua se era para deixar que todos conservassem a ideia que tinham de Deus até então.

[22] Acrescente-se a isso que deveria ser bastante difícil anunciar aos judeus que o homem que viram e crucificaram era o Cristo Filho de Deus e seu eterno Rei. Ora, isso não era falar de acordo com a opinião anterior deles, pois para quem lhes lançava em rosto o título de assassinos do Senhor teria sido mais fácil anunciar-lhes o Pai que está acima do Demiurgo no lugar daquele em que todos criam.

[23] Tanto mais que o seu pecado seria bem menor, visto que o Salvador do alto, ao qual teriam de subir, era impassível e por conseguinte não poderia ser crucificado por eles. Da mesma forma que os apóstolos não falavam aos pagãos segundo as opiniões deles e lhes diziam abertamente que os deles não eram deuses, mas ídolos dos demônios, assim teriam anunciado aos judeus um Pai diferente e mais perfeito se o tivessem conhecido, sem alimentar e favorecer a ideia falsa que se tinham formado de Deus.

[24] E, finalmente, ao destruir o erro dos pagãos e ao afastá-los dos deuses deles, não os levavam a outro erro, mas afastando os que não eram deuses, lhes indicavam aquele que é o único Deus e o verdadeiro Pai.

[25] Ainda, pelas palavras de Pedro ao centurião Cornélio e aos pagãos que estavam com ele, os primeiros aos quais foi dirigida a palavra de Deus, em Cesaréia, podemos conhecer a pregação dos apóstolos e a sua concepção a respeito de Deus. Este Cornélio, dizem os Atos, “era religioso e temente a Deus com toda a sua casa, dava muitas esmolas ao povo e orava a Deus assiduamente.

[26] Este viu claramente, numa visão, cerca da hora nona, que um anjo de Deus se apresentava diante dele e lhe dizia: As tuas esmolas subiram como memorial à presença de Deus. Agora envia homens a Simão, que tem por sobrenome Pedro”. Por sua vez, depois de ter a revelação, na qual a voz celeste lhe respondia que não chamasse impuro o que Deus purificou — com efeito, Deus, que na Lei distinguiu as coisas puras e impuras, agora purificou todas as nações pelo sangue de seu Filho; e este é o Deus adorado por Cornélio —, Pedro foi a ele e lhe disse: “Na verdade, reconheço que Deus não faz acepção de pessoas, mas que, em qualquer nação, aquele que o teme e pratica a justiça, lhe é agradável”.

[27] Assim ele declara expressamente que o Deus antes adorado por Cornélio, de quem ouvira falar por meio da Lei e dos profetas, pelo amor do qual dava as esmolas, era o verdadeiro Deus. Faltava-lhe, porém, o conhecimento do Filho e por isso Pedro acrescentou: “Vós sabeis o que aconteceu por toda a Judéia, começando pela Galiléia, depois do batismo que João pregou; como Deus ungiu com o Espírito Santo e com poder Jesus de Nazaré; o qual andou de lugar em lugar fazendo o bem e sarando todos os oprimidos do demônio, porque Deus estava com ele.

[28] Nós somos testemunhas de tudo o que ele fez no país dos judeus e em Jerusalém; mas, mataram-no, suspendendo-o num madeiro. Deus, porém, ressuscitou-o ao terceiro dia e fez que se manifestasse, não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus escolhera antes, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressuscitou dos mortos. Mandou-nos pregar ao povo e dar testemunho de que ele é aquele que Deus constituiu Juiz dos vivos e dos mortos.

[29] Dele dão testemunho todos os profetas de que todos os que crêem nele, recebem, por meio de seu nome, a remissão dos pecados”. Portanto, os apóstolos anunciavam o Filho de Deus aos que antes não o conheciam e a sua vinda aos que conheciam só a Deus; mas não apresentavam um Deus diferente.

[30] Se Pedro tivesse conhecido outro Deus, com certeza pregaria aos pagãos que o Deus dos cristãos era diverso do Deus dos judeus e eles, ainda sob a impressão da visão angélica, teriam crido em tudo o que lhe tivesse falado. Mas, pelas palavras de Pedro, está claro que os deixou na fé no Deus que já antes conheciam e somente lhes testemunhou que Jesus Cristo é o Filho de Deus, o Juiz dos vivos e dos mortos, em nome do qual deviam ser batizados para receberem a remissão dos pecados; e não somente isso, mas testemunhou que o próprio Jesus é o Filho de Deus, este Jesus que, por ter recebido a unção do Espírito Santo, é chamado Jesus Cristo, e é o mesmo que nasceu de Maria, como está implícito no testemunho de Pedro.

[31] Ou será que Pedro não tinha ainda a gnose perfeita que esses hereges descobriram depois? Ora, a acreditar neles, Pedro seria imperfeito, os outros apóstolos também, e seria necessário que, ressuscitados, se tornassem discípulos deles para serem perfeitos. Mas isso seria ridículo. Na realidade, porém, é evidente que essa gente são os discípulos de suas teorias errôneas e não dos apóstolos; é por isso que cada um pensa de modo diverso dos outros, conforme a capacidade de se embrenhar no erro.

[32] A Igreja, porém, espalhada por toda a terra, iniciada pelos apóstolos, persevera firmemente numa só e idêntica fé em Deus e no seu Filho.

[33] Ainda, de quem falou Filipe, sozinho, ao eunuco da rainha da Etiópia, que, voltando sozinho de Jerusalém, lia o profeta Isaías? Não era aquele de quem o profeta disse: “Como ovelha foi levado ao matadouro e como cordeiro mudo diante do que o tosquia, assim ele não abriu a boca? Quem poderá contar a sua geração? pois que a sua vida será arrancada da terra”. Demonstrou-lhe que aquele era Jesus no qual se cumprira a Escritura, como dizia o eunuco ao crer e ao pedir logo o batismo: “Creio que Jesus é o Filho de Deus”.

[34] Em seguida, foi enviado à região da Etiópia a pregar aquele em quem ele tinha crido, isto é, um Deus único, pregado pelos profetas, cujo Filho apareceu como homem, levado ao sacrifício como cordeiro e tudo o resto que disseram dele os profetas.

[35] Também Paulo, depois que o Senhor lhe falou, do céu, e lhe mostrou que ao perseguir os seus discípulos perseguia o Senhor, e o enviou a Ananias para recuperar a visão e ser batizado, em Damasco, “começou a pregar nas sinagogas, com a maior isenção, que este é o Cristo Filho de Deus”.

[36] Este é o mistério que diz ter-lhe sido revelado, isto é, que aquele que padeceu sob Pôncio Pilatos é o Senhor de todos os homens, seu Deus, Rei e Juiz, por ter recebido o poder do Deus de todas as coisas, pois, se fizera obediente até a morte, e a morte de cruz.

[37] E, por ser verdade, anunciando o Evangelho aos atenienses, no areópago, onde, na ausência dos judeus, podia pregar com toda isenção o verdadeiro Deus, dizia: “Deus, que fez o mundo e tudo o que há nele, sendo ele o Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos pelos homens, nem é servido pelas mãos dos homens, como se necessitasse de alguma coisa, ele que dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas e de um só fez todo o gênero humano, para que habitasse sobre toda a face da terra, fixando aos povos a ordem dos tempos e os limites da sua habitação, para que busquem a Deus e o encontrem como que às apalpadelas embora ele não esteja longe de cada um de nós.

[38] Porque nele vivemos, nos movemos e existimos, como até o disseram alguns dos vossos poetas: Somos verdadeiramente de sua linhagem. Sendo nós, pois, linhagem de Deus, não devemos pensar que a Divindade é semelhante ao ouro, à prata ou à pedra lavrada por arte e indústria do homem.

[39] Porém Deus, não levando em conta os tempos desta ignorância, anuncia agora aos homens que todos, em todo o lugar, se arrependam, porque fixou um dia em que há de julgar o mundo conforme a justiça, por meio de um homem, Jesus, acreditando-o junto a todos, no qual fundou a fé, ressuscitando-o dos mortos”.

[40] Neste trecho não somente afirma, na ausência dos judeus, o Deus Criador do mundo, mas ainda mais, que ele fez habitar na terra todo o gênero humano, como diz Moisés: “Quando o Altíssimo separou as nações, como dispersara os filhos de Adão, estabeleceu os confins dos povos de acordo com o número dos anjos de Deus”; e o povo que crê em Deus não está em poder dos anjos, “mas do Senhor, pois o seu povo Jacó se tornou porção de Deus, e a porção de sua herança foi Israel”.

[41] E quando Paulo se encontrava com Barnabé em Listra da Licaônia e, no nome do Senhor Jesus Cristo, fez andar o coxo de nascimento e a multidão os queria honrar como divindades, por causa do milagre, lhe disse: “Nós somos homens mortais como vós, e vos pregamos que vos convertais destas coisas vãs ao Deus vivo que fez o céu e a terra, o mar e tudo o que há neles; o qual, nos séculos passados, permitiu que todas as nações seguissem os seus caminhos.

[42] Todavia, não deixou de dar testemunho de si mesmo, fazendo benefícios, dando chuvas do céu e estações favoráveis para os frutos, dando em abundância o mantimento e a alegria aos vossos corações”.

[43] Mostraremos, ao expor a doutrina do Apóstolo, em lugar oportuno, como todas as suas epístolas concordam com estas pregações. E enquanto labutamos sobre as provas das Escrituras para compendiar e abreviar o que lá se diz de muitas maneiras, dedica-te, com paciência, tu também, a elas, e não penses que seja tudo palavreado: deves entender que as provas que se encontram nas Escrituras só podem ser produzidas citando as Escrituras.

[44] Também Estêvão, escolhido pelos apóstolos como primeiro diácono, que primeiro seguiu o Senhor no martírio, o primeiro de todos os homens que foi morto pela confissão do Cristo, falou com coragem ao povo e ensinando-o dizia: “O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão e lhe disse: Sai da tua terra e da tua parentela e vem para a terra que eu te mostrar. E o fez passar a esta terra, na qual vós agora habitais.

[45] E não lhe deu herança nela, nem o espaço de uma passada, mas prometeu dar-lhe a posse dela a ele e à sua posteridade depois dele. Deus disse-lhe que a sua descendência seria peregrina em terra estranha e a reduziriam à escravidão e a maltratariam pelo espaço de quatrocentos anos, e a nação de quem tiver sido escrava, eu a julgarei, disse o Senhor, e, depois disto, sairão e me adorarão neste lugar.

[46] E deu-lhe a aliança da circuncisão, e assim gerou Isaac…” E o resto do discurso anuncia o mesmo Deus que esteve com José, com os patriarcas e conversou com Moisés.

[47] Todo o ensinamento dos apóstolos anuncia um só e idêntico Deus que fez emigrar Abraão, lhe fez as promessas da herança, estipulou com ele, no tempo oportuno, a aliança da circuncisão, chamou do Egito a sua descendência, conservada visivelmente pela circuncisão, que lhes fora dada para que não se assemelhassem aos egípcios.

[48] Anuncia ainda que este é o Criador de todas as coisas, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Deus da glória. Os que o quiserem, pelas próprias palavras e atos dos apóstolos, podem aprender tudo isto e dar-se conta de que ele é o único Deus, acima do qual não existe outro.

[49] Se, por acaso, existisse outro acima deste, nós diríamos que, comparado com ele, este é infinitamente melhor do que aquele; pois o melhor se manifesta pelas obras, assim como já dissemos, e como os hereges não podem mostrar nenhuma obra do seu Pai, fica provado que este somente é Deus.

[50] Se alguém é espírito doente que se ocupa de questões de palavras, e pensa que deve entender alegoricamente o que os apóstolos anunciaram a respeito de Deus, veja que tudo o que dissemos, até agora, demonstra que existe um só Deus, Criador e Autor de todas as coisas e que refutamos e destruímos tudo o que eles afirmam.

[51] Constatará que a nossa doutrina está de acordo com a dos apóstolos e com tudo o que ensinavam e criam, isto é, que existe um só Deus, Criador de todas as coisas. Afastará assim da sua mente erro tão grave e blasfêmia contra Deus.

[52] Entenderá, por sua conta, os motivos que o levarão a crer que a Lei de Moisés e a graça do Novo Testamento, adaptadas ambas aos seus tempos, foram concedidas pelo único e idêntico Deus, para a utilidade do gênero humano.

[53] Todos os que têm opiniões erradas, impressionados pela legislação de Moisés, que julgam diversa e contrária à do Evangelho, deixaram de estudar as causas desta diferença entre os dois Testamentos.

[54] Desprovidos do amor do Pai e inflados por Satanás voltaram-se para a doutrina de Simão, o mago, afastando-se com o seu pensamento do verdadeiro Deus e acreditaram, inventando outro Deus, ter encontrado algo mais do que os apóstolos, os quais teriam anunciado o Evangelho pensando ainda da mesma forma que os judeus, ao passo que eles seriam mais independentes e sábios do que os apóstolos.

[55] Por isso, Marcião e os seus discípulos puseram-se a recortar as Escrituras, rejeitando completamente algumas, mutilando o Evangelho de Lucas e as cartas de Paulo e tendo por autênticas somente as que mutilaram. Nós, apoiados nos textos que ainda conservam, e com a ajuda de Deus, argumentaremos contra eles, em outro livro.

[56] Outros, inflados pelo nome da falsa gnose, admitem as Escrituras, mas lhes pervertem o sentido, como expusemos no primeiro livro. Os discípulos de Marcião blasfemam, logo no início, o Criador, declarando-o autor do mal, partindo de princípio dos mais intoleráveis, dizendo que há dois deuses, separados por natureza um do outro, um bom e o outro mau.

[57] Os valentinianos, por sua vez, usam nomes mais nobres, proclamando o Criador Pai, Senhor e Deus, mas o seu propósito e sua teoria se revelam mais blasfematórios, ao dizerem que ele não foi produzido por algum dos Éões do Pleroma, mas pela desviação que foi expulsa do Pleroma. A tanto os levou a ignorância da Escritura e da economia de Deus.

[58] Nós mostraremos, nas páginas que seguirão, o porquê da diferença entre os Testamentos e também a sua unidade e harmonia.

[59] Os apóstolos e os seus discípulos ensinavam exatamente o que a Igreja prega: por isso foram perfeitos e chamados à perfeição. Estêvão, que ensinava estas coisas, quando ainda vivo, “viu a glória de Deus e Jesus à sua direita, e disse: Eis que vejo os céus abertos e o Filho do homem, de pé, à direita de Deus”.

[60] Dito isto, foi lapidado e coroou assim o ensinamento perfeito, imitando em tudo o Mestre do martírio, rezando pelos que o matavam e dizendo: “Senhor, não lhes imputes este pecado”. É deste modo que eram perfeitos os que conheciam um só e idêntico Deus, que do princípio ao fim dos tempos, socorre, de vários modos, o gênero humano, como diz o profeta Oséias: “Eu multipliquei as visões e fui representado pela mão dos profetas”.

[61] Os que entregaram sua vida até a morte pelo Evangelho de Cristo, como podiam falar segundo as opiniões comuns dos homens? Se o tivessem feito não teriam sofrido, mas sofreram justamente por pregar coisas contrárias aos que recusavam a verdade.

[62] Está claro que não atraçoavam a verdade, mas pregavam com toda isenção aos judeus e aos gregos: aos judeus pregavam que o Jesus por eles crucificado era o Filho de Deus, o Juiz dos vivos e dos mortos, que recebera do Pai o reino eterno em Israel, como temos mostrado; e aos gregos anunciavam o único verdadeiro Deus, Criador de todas as coisas e o seu Filho, Jesus Cristo.

[63] Isto aparece mais claramente ainda pela carta que os apóstolos enviaram, não aos judeus ou aos gregos, mas aos pagãos que acreditavam em Cristo, para confirmá-los na fé. Alguns vieram da Judéia a Antioquia, onde, pela primeira vez, os discípulos do Senhor foram chamados cristãos, por causa da sua fé em Cristo, e procuravam convencer os que haviam crido em Cristo a se fazerem circuncidar e a observarem as outras prescrições da Lei.

[64] Então Paulo e Barnabé foram a Jerusalém para tratar desta questão com os outros apóstolos. Reuniu-se toda a igreja e Pedro disse: “Homens irmãos, vós sabeis que Deus, há muito, me escolheu entre vós para que da minha boca ouvissem os gentios a palavra do Evangelho e cressem. Deus, que conhece os corações, deu testemunho em favor deles, conferindo-lhes o Espírito Santo, como também a nós.

[65] Não fez diferença alguma entre nós e eles, purificando com a fé os seus corações. Logo, por que tentais agora a Deus, impondo um jugo nas cervizes dos discípulos, que nem nossos pais, nem nós podemos suportar? Mas pela graça de nosso Senhor Jesus Cristo, cremos ser salvos, do mesmo modo que eles”.

[66] Em seguida Tiago disse: “Homens irmãos, Simão contou como Deus cuidou em tirar do meio dos gentios um povo para o seu nome. Com isto concordam as palavras dos profetas, como está escrito: Depois disto voltarei e reedificarei o tabernáculo de Davi que caiu, repararei as suas ruínas e o levantarei, a fim de que busquem a Deus todos os outros homens e todas as gentes, sobre os quais foi invocado o meu nome, diz o Senhor que faz estas coisas. Deus conhece desde a eternidade a sua obra: por isso eu sou de opinião que não se devem inquietar os que dentre os gentios se convertem a Deus, mas que se lhes prescreva que se abstenham das contaminações dos ídolos, da fornicação e do sangue, que não façam aos outros o que não querem que se faça a eles”.

[67] Tendo todos concordado com estas palavras, escreveram-lhes o seguinte: “Os apóstolos e os presbíteros, vossos irmãos, aos irmãos convertidos dos gentios, que estão em Antioquia, na Síria e na Cilícia, saúde. Tendo nós sabido que alguns, indo do meio de nós, sem nenhuma ordem da nossa parte, vos perturbaram com discursos que agitaram as vossas almas, dizendo: Fazei-vos circuncidar e observai a Lei, aprouve a nós, depois de nos termos reunido, escolher alguns homens e enviá-los a vós com os nossos muito amados Barnabé e Paulo, homens que têm exposto as suas vidas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo.

[68] Enviamos, portanto, Judas e Silas, que lhes exporão as mesmas coisas de viva voz. Porque pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor mais encargos além destes indispensáveis: que vos abstenhais das coisas imoladas aos ídolos, do sangue e da fornicação e o que não quereis que se vos faça, não o façais aos outros; ao guardar-vos destas coisas fareis bem e caminhareis no Espírito Santo”.

[69] É, portanto, evidente, de tudo isso, que os apóstolos não ensinavam outro Pai, mas anunciavam a nova Aliança da liberdade aos que, de maneira nova, pelo Espírito Santo, criam em Deus. E, por esta mesma razão que se perguntavam se ainda era necessário circuncidar os discípulos ou não, demonstravam abertamente não possuírem ideia de outro Deus.

[70] Se não fosse assim não teriam pelo Antigo Testamento reverência tão grande que sequer queriam comer com os gentios. Com efeito, Pedro, mesmo que enviado a eles para os instruir, impressionado pela visão que tivera, lhes falava com grande temor: “Vós sabeis como é coisa abominável para um homem judeu unir-se a estrangeiro ou aproximar-se dele. Mas Deus mostrou-me que a nenhum homem chamasse profano ou impuro. Por isso vim sem hesitação”.

[71] Com estas palavras dá a entender que se não lhe fosse ordenado não teria ido a eles, nem lhes teria dado tão facilmente o batismo se não os tivesse escutado profetizar pela ação do Espírito Santo descido sobre eles. Por isso dizia: “Porventura pode alguém recusar a água do batismo aos que receberam o Espírito Santo como nós?”

[72] Querendo dizer aos que o acompanhavam que se o Espírito Santo não tivesse descido sobre eles, alguém poderia ter-lhes proibido o batismo. Os apóstolos com Tiago davam liberdade aos pagãos, confiando-os ao Espírito de Deus, mas, quanto a eles mesmos, sabendo que se tratava do mesmo Deus, perseveravam nas observâncias antigas.

[73] E até Pedro, que antes comia com os convertidos do paganismo, convencido pela visão e pelo fato de o Espírito ter descido sobre eles, se apartou e já não comia com eles, quando chegaram alguns de Tiago, para não ser acusado por eles. E Paulo diz que também Barnabé fez o mesmo.

[74] Assim os apóstolos, tornados testemunhas de tudo o que o Senhor disse e fez — Pedro, Tiago e João estiveram com Jesus em todo lugar —, observavam com respeito as disposições da Lei mosaica, indicando que provinham de um só e idêntico Deus. Eles não se teriam portado assim, como já dissemos anteriormente, se tivessem aprendido do Senhor um Deus diverso do que deu os preceitos da Lei.

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