[1] Que este Lucas tenha sido inseparável de Paulo e seu colaborador na pregação do Evangelho, é ele próprio que no-lo dá a conhecer, não para gloriar-se, mas levado pela própria verdade.
[2] Com efeito, quando Barnabé e João, chamado Marcos, se separaram de Paulo e embarcaram para Chipre, nós viemos a Trôade; e, tendo Paulo visto em sonho um homem da Macedônia que lhe dizia: “Paulo, passa à Macedônia e ajuda-nos!”, “logo, diz Lucas, procuramos partir para a Macedônia, certificados de que Deus nos chamava a ir lá a evangelizar.
[3] Partindo, portanto, de Trôade, dirigimos o navio para Samotrácia”. Depois, indica de maneira precisa toda a viagem restante até Filipos e como anunciaram pela primeira vez a palavra: “Sentados, ele diz, falávamos às mulheres que tinham concorrido”; e, depois de dizer quem e quantos creram, continua: “Nós, depois dos dias dos ázimos, embarcamos em Filipos e chegamos a Trôade, onde nos demoramos sete dias”.
[4] E relata na ordem o resto da viagem com Paulo, indicando com todo cuidado os lugares, as cidades, o número dos dias para chegar a Jerusalém. Descreve o que ali aconteceu a Paulo: como, acorrentado, foi enviado a Roma, o nome do centurião que o tomou aos seus cuidados, as insígnias dos navios; como naufragaram e qual a ilha em que se salvaram; como foram recebidos com humanidade, enquanto Paulo curava o primeiro magistrado da ilha; como navegaram até Putéolos e de lá chegaram a Roma e quanto tempo permaneceram aí.
[5] Estando presente a todos estes acontecimentos, Lucas anotou-os diligentemente sem que se possa achar nele mentira, nem a ilação, por serem acontecimentos conhecidos, e por ele ser mais ancião do que todos os que hoje ensinam o erro, e por não desconhecer a verdade.
[6] Que ele não só foi o companheiro, mas também o colaborador dos apóstolos, especialmente de Paulo, é o que o próprio Paulo declara em suas cartas, quando diz: “Demas abandonou-me e foi para Tessalônica, Crescente foi para a Galácia, Tito para a Dalmácia, só Lucas está comigo”.
[7] O que bem mostra como Lucas esteve sempre unido a Paulo e nunca se separou dele. Ele diz ainda na carta aos Colossenses: “Saúda-vos Lucas, o médico muito amado”.
[8] Ora, se Lucas, que sempre pregou e evangelizou com Paulo, que teve confiada a missão de nos transmitir o Evangelho, não aprendeu dele nenhuma outra coisa diferente, como provamos por meio de suas palavras, como podem estes, que nunca estiveram com Paulo se gloriar de ter aprendido mistérios ocultos e inexprimíveis?
[9] Que Paulo ensinasse com simplicidade o que sabia não somente aos seus discípulos, mas a todos os que o escutavam, ele mesmo o declara. Tendo convocado a Mileto os bispos e os presbíteros de Éfeso e das cidades vizinhas, quando estava para ir a Jerusalém para celebrar o Pentecostes, depois de lhes ter atestado muitas coisas e dito o que lá lhe devia acontecer, acrescentou: “Agora sei que não tornareis mais a ver a minha face.
[10] Por isso eu vos protesto neste dia que estou limpo do sangue de todos, porque não me esquivei a anunciar-vos todas as disposições de Deus. Atendei a vós mesmos e a todo o rebanho, sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para governardes a Igreja de Deus, que ele adquiriu com seu próprio sangue”.
[11] Depois, denunciando os falsos doutores que viriam, disse: “Eu sei que depois da minha partida, se introduzirão, entre vós, lobos arrebatadores, que não pouparão o rebanho. Dentre vós mesmos hão de levantar-se homens a ensinar doutrinas perversas, para levarem atrás de si discípulos”.
[12] “Não me esquivei, disse, a anunciar-vos todas as disposições de Deus”: assim os apóstolos, com simplicidade, sem inveja de ninguém, comunicavam a todos o que tinham aprendido do Senhor; e é assim também que Lucas nos transmitiu, sem ciúme algum, o que tinha aprendido deles, como ele mesmo diz: “Como nos referiram os que, desde o princípio, foram as testemunhas oculares e os servos do Verbo”.
[13] Ora, se alguém rejeita Lucas com o pretexto de ele não ter conhecido a verdade, evidentemente rejeita o Evangelho de que pretende ser o discípulo. Com efeito, muitos e importantíssimos acontecimentos do Evangelho os conhecemos somente por meio dele, como a geração de João e a história de Zacarias; a anunciação do anjo a Maria; a exclamação de Isabel; a descida dos anjos aos pastores e as palavras que lhes disseram; o testemunho de Ana e de Simeão acerca de Cristo; a perda de Jesus, em Jerusalém, aos doze anos; o batismo de João, com quantos anos Jesus foi batizado e o ano, isto é, o décimo quinto de Tibério César.
[14] E com referência ao magistério de Jesus, as palavras que disse aos ricos: “Ai de vós, ricos, porque tendes a vossa consolação!” e: “Ai de vós os que estais saciados, porque tereis fome; os que agora rides, porque chorareis!” e: “Ai de vós, quando os homens vos louvarem, porque assim faziam aos falsos profetas, vossos pais”.
[15] Muitas coisas como estas só aprendemos de Lucas, como ficamos conhecendo por meio dele o muito que Jesus fez, e os hereges servem-se disso, por exemplo: o grande número de peixes pescados pelos que estavam com Pedro, quando o Senhor deu a ordem de lançar as redes; aquela mulher que sofria há dezoito anos e que foi curada em dia de sábado; o hidrópico que o Senhor curou em dia de sábado e como o Senhor se explicou por tê-lo sarado naquele dia; como ensinou os discípulos a não procurarem os primeiros lugares; como se devem convidar os pobres e pequenos que não têm possibilidade de retribuir; aquele que, em plena noite, foi bater à porta e pedir uns pães, que lhe foram dados por causa da importunação; o que se passou quando Jesus estava jantando em casa do fariseu e a mulher pecadora lhe beijava e ungia os pés com ungüento e tudo o que, então e por causa dela, o Senhor disse a Simão acerca dos dois devedores; a parábola do rico que armazenou em celeiro novo a sua colheita e ao qual foi dito: “Esta noite virão pedir a tua alma, e o que armazenaste de quem será?” E também aquela do rico que se vestia de púrpura e se banqueteava alegremente e do pobre Lázaro; a resposta aos seus discípulos que lhe tinham pedido: “Aumenta em nós a fé”; a conversação com Zaqueu, o publicano; o fariseu e o publicano que rezavam juntos no templo; os dez leprosos que foram purificados no caminho; a ordem de reunir das praças e das estradas os coxos e os cegos para a festa de casamento; a parábola do juiz que não temia a Deus e que pela importunação da viúva teve que lhe fazer justiça; a figueira plantada na vinha e que não produzia frutos; e muitas outras coisas que se poderiam encontrar e que foram relatadas somente por Lucas, e que também Marcião e Valentim usam; e sobretudo as palavras que, depois da ressurreição, o Senhor disse aos discípulos ao longo do caminho, e como o reconheceram ao partir o pão.
[16] Os hereges deveriam, por isso, aceitar necessariamente tudo o restante que foi dito por Lucas ou então renunciar também ao que acabamos de lembrar, porque ninguém que tenha bom senso lhes concederia aceitarem algumas palavras de Lucas como se fossem verdade e rejeitarem outras como se não tivesse conhecido a verdade.
[17] Se os marcionitas as recusarem não terão o Evangelho, porque é mutilando o evangelho de Lucas, como dissemos acima, que se gloriam de ter o Evangelho.
[18] E os valentinianos de deveriam calar sua abundante loquacidade, porque é justamente deste Evangelho que tiraram muitos pretextos para suas subtilezas e tiveram a ousadia de interpretarem mal o que foi bem expresso.
[19] Se, porém, forem levados a aceitar também o resto, isto é, o Evangelho na sua integralidade e a doutrina dos apóstolos, é necessário que façam penitência para serem salvos do perigo.

