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[1] Repetiremos os mesmos argumentos para os que não aceitam o apóstolo Paulo. Como devem renunciar às outras palavras do Evangelho de que tivemos conhecimento somente por meio de Lucas e não se servir delas, assim, se as aceitarem todas, obrigatoriamente deverão aceitar o seu testemunho em favor de Paulo.

[2] É Lucas que diz que o Senhor falou em primeiro lugar a Paulo, do alto do céu, dizendo: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Eu sou Jesus Cristo que tu persegues; e, em segundo lugar, a Ananias, acerca de Paulo: “Vai, porque ele é para mim vaso de eleição, para levar o meu nome diante das nações, dos reis e dos filhos de Israel. E eu lhe mostrarei quanto deverá sofrer pelo meu nome”.

[3] Os que não aceitam que Paulo foi escolhido pelo Senhor para levar com coragem o seu nome às nações já mencionadas, desprezam a escolha do Senhor e separam a si mesmos da comunhão com os apóstolos. Com efeito, não podem sustentar que Paulo não era apóstolo, porque foi eleito justamente para isto, nem podem tachar de mentiroso Lucas, que nos anuncia a verdade com toda diligência.

[4] Talvez seja por isso que Deus quis que muitíssimas notícias do Evangelho nos fossem reveladas somente por Lucas e que todos precisassem servir-se delas, para que, deixando-se guiar pelo testemunho subsequente a respeito dos atos e da doutrina dos apóstolos, guardassem inalterada a regra da verdade e pudessem ser salvos.

[5] Assim, o seu testemunho é veraz e o ensinamento dos apóstolos é claro, firme e vem de homens que nada ocultaram, que nunca ensinaram uma coisa em particular e outra em público.

[6] Com efeito, é esta a artimanha que usam os simuladores, os sedutores perversos e os hipócritas e é precisamente assim que agem os valentinianos. Eles fazem discursos ao povo com a finalidade de atingir os que pertencem à Igreja, que eles chamam de gente comum ou gente de igreja, e assim enganam e atraem os mais simples, simulando a nossa maneira de falar, para que venham mais vezes a escutá-los.

[7] E se queixam de nós porque, mesmo pensando como nós, nós nos recusamos, sem motivo, a estar em comunhão com eles: dizem as mesmas coisas que nós, professam a mesma doutrina e, mesmo assim, os chamamos hereges!

[8] Mas quando, à força de apresentar dificuldades, convencem alguém a abandonar a fé, e a levar os ouvintes a não contradizê-los, então, separadamente, desvendam-lhes o mistério inexprimível de seu Pleroma.

[9] Enganam-se os que acreditam poder distinguir só pelas palavras o que é verossímil do que é verdadeiro, porque o erro é convincente, verossímil, disfarçado, ao passo que a verdade é sem véus e, por isso, acessível também aos pequenos.

[10] E se algum dos ouvintes pede esclarecimentos ou lhes apresenta objeções, dizem-lhe que não entende a verdade e não recebeu do alto a semente da Mãe deles; então se recusam a responder-lhe, porque, dizem, pertence ao Intermediário, isto é, aos psíquicos.

[11] Se alguém entrega-se a eles como cordeirinho, uma vez iniciado nos seus mistérios e tornado beneficiário da sua redenção, envaidece-se de forma tal que já não pensa estar na terra, nem no céu, mas de ter entrado no Pleroma e de ter abraçado o seu anjo; e então anda com ares de importância, olhando do alto, como galo enfatuado.

[12] Alguns dentre eles dizem que é necessária boa conduta para receber em si o homem que vem do alto e por isso afetam gravidade cheia de desprezo, mas a maioria afastam estes escrúpulos e, a pretexto de serem já perfeitos, vivem sem discrição e, no desprezo de tudo, definem a si mesmos espirituais e pretendem conhecer desde já, no seio do Pleroma, o seu lugar de refrigério.

[13] Mas voltemos ao nosso argumento. Foi demonstrado claramente que os pregadores da verdade e os apóstolos da liberdade não chamaram Deus ou Senhor a nenhum outro a não ser o verdadeiro Deus Pai e ao seu Verbo, que tem a primazia sobre todas as coisas.

[14] E também foi mostrado à evidência que os apóstolos confessaram como Senhor e Deus somente o Criador do céu e da terra, aquele que conversou com Moisés, que deu a economia da Lei, que chamou os patriarcas e não conheceram mais ninguém.

[15] E assim, ficou patente, pelas próprias palavras dos apóstolos e dos seus discípulos, o que eles pensavam sobre Deus.

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