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[1] Com efeito, os apóstolos poderiam ter dito que o Cristo desceu em Jesus, ou o Salvador do alto sobre o da economia, ou aquele que vem das regiões invisíveis no filho do Demiurgo, mas não conheceram nem disseram nada disso; porque se o soubessem eles o diriam. E disseram, de fato, como as coisas eram, isto é, que o Espírito de Deus desceu sobre ele na forma de pomba, o Espírito de que fala Isaías: “E repousará sobre ele o Espírito de Deus”, como explicamos acima; e ainda: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu”. O Espírito de quem o Senhor diz: “Já não sois vós que falais, mas é o Espírito de vosso Pai que fala em vós”. E ao dar a seus discípulos o poder de fazer renascer os homens em Deus, lhes dizia: “Ide ensinai todos os povos e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Com efeito, prometera por meio dos profetas derramar nos últimos tempos este Espírito sobre seus servos e servas, a fim de profetizarem. Eis a razão por que ele desceu também no Filho de Deus, feito filho do homem, acostumando-se com ele a habitar nos homens e repousar entre eles, a habitar nas criaturas de Deus, realizando nelas a vontade do Pai e renovando-as do velho homem para a nova vida em Cristo.

[2] É este Espírito que Davi pediu para o gênero humano, ao dizer: “Confirma-me pelo teu Espírito que dirige”. É ainda este Espírito que Lucas nos diz ter descido, depois da ascensão do Senhor, sobre os discípulos no dia de Pentecostes, com o poder de introduzir na vida todos os povos e abrir-lhes novo testamento. Eis por que, na harmonia de todas as línguas, cantavam hinos a Deus, enquanto o Espírito reunia na unidade as raças diferentes e oferecia ao Pai as primícias de todas as nações. Foi por essa razão que o Senhor prometera enviar o Paráclito que nos faria dignos de Deus. Assim como a farinha seca não pode, sem água, tornar-se uma só massa, nem um só pão, também nós não nos poderíamos tornar um só em Cristo, sem a água que vem do céu. E assim como a terra seca não pode frutificar sem receber água, também nós, que éramos antes lenho seco, jamais daríamos frutos de vida, sem a chuva generosa enviada do alto. Com efeito, nossos corpos receberam, pelo banho do batismo, a unidade que os torna incorruptíveis e as nossas almas, por sua vez, a receberam pelo Espírito; por isso, ambos são necessários porque ambos levam à vida de Deus. Nosso Senhor indicou-o na misericórdia que mostrou à samaritana infiel, que não se manteve unida a um só homem e fornicou em diversas núpcias, prometendo-lhe uma água viva, pela qual não teria mais sede, nem precisaria mais de água obtida com fadiga, porque teria em si uma Bebida a jorrar para a vida eterna, essa mesma Bebida que o Senhor recebeu como dom do Pai, e que, por sua vez, doou a todos os que têm parte com ele, enviando o Espírito Santo a toda a terra.

[3] Foi em previsão deste dom que Gedeão, aquele israelita que Deus escolheu para libertar o povo de Israel da dominação estrangeira, mudou o seu pedido, profetizando que o velo de lã sobre o qual se tinha acumulado o orvalho e que era a figura do povo de Israel, viria a seca, isto é, não receberia mais de Deus o Espírito Santo, conforme o que diz Isaías: “Mandarei às nuvens para não chover sobre ela”, ao passo que, sobre toda a terra, haveria o orvalho, isto é, o Espírito de Deus, aquele que desceu sobre o Senhor, “Espírito de sabedoria e de inteligência, Espírito de conselho e de fortaleza, Espírito de ciência e de piedade, Espírito de temor de Deus”. O mesmo Espírito que, por sua vez, o Senhor deu à Igreja, enviando do céu o Paráclito sobre toda a terra, aonde, disse ele, o demônio foi projetado como raio. Por esse motivo nos é necessário o orvalho de Deus para que não sejamos queimados nem permaneçamos infrutíferos e, onde temos um acusador, tenhamos também o Paráclito, pois o Senhor confiou ao Espírito Santo o homem que é seu, aquele que caíra em poder dos ladrões, de quem ele se compadeceu e cujas feridas enfaixou, dando dois denários reais para que nós, tendo recebido pelo Espírito a imagem e a inscrição do Pai e do Filho, façamos frutificar os dons que nos foram confiados e os restituamos multiplicados ao Senhor.

[4] Portanto, o Espírito desceu, por causa da economia de que falamos, e o Filho unigênito de Deus, que é também o Verbo do Pai, veio na plenitude do tempo, encarnouse no homem por causa do homem e toda a economia acerca do homem foi realizada por Jesus Cristo nosso Senhor, único e idêntico, como o próprio Senhor testifica, os apóstolos confessam e os profetas proclamam. Com isso demonstram-se falsas as teorias todas de todos os que inventaram as Ogdôadas, Tétradas e Décadas e excogitaram distinções sobre distinções; que eliminam o Espírito; que pensam ser o Cristo diverso de Jesus; que ensinam que existiu não um, mas muitos Cristos; e quando se apresentam unidos acrescentam que um sofreu a paixão enquanto o outro permaneceu impassível; um voltou ao Pleroma, enquanto o outro parou no Intermediário; aquele se banqueteia alegremente nas regiões invisíveis e indescritíveis e este está ao lado do Demiurgo neutralizando-lhe o poder.

[5] Por isso é necessário que tu e todos os que lêem este escrito e têm o cuidado de sua salvação, não vos rendais espontaneamente ao ouvir o som das palavras deles. Como dissemos antes, eles falam de maneira semelhante à dos fiéis, mas não somente pensam coisas diferentes e até opostas e repletas de blasfêmias, com as quais matam espiritualmente os que, pela semelhança das palavras, recebem o veneno de ideias completamente diversas. É como quem engana com a semelhança da cor, dando gesso misturado com água em lugar do leite, disse alguém superior a nós, ao falar de todos os que de qualquer forma torcem as coisas de Deus e adulteram a verdade: É condenável misturar gesso ao leite de Deus.

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