[1] Demonstrado até a evidência que o Verbo existia, desde o princípio junto de Deus, que por sua obra foram feitas todas as coisas, que sempre esteve presente ao gênero humano e que justamente ele, nestes últimos tempos, segundo a hora estabelecida pelo Pai, se uniu à obra de suas mãos, feito homem passível, está refutada toda afirmação contrária dos que dizem: se nasceu nestes últimos tempos, houve um tempo em que o Cristo não existia.
[2] Com efeito, demonstramos que a existência do Filho de Deus não teve início naquele momento, existindo desde sempre junto do Pai; mas quando se encarnou e se fez homem, recapitulou em si toda a longa série dos homens, dando-nos em resumo a salvação, de forma que o que tínhamos perdido em Adão, isto é, a imagem e semelhança de Deus, o recuperássemos em Jesus Cristo.
[3] Sendo impossível ao homem, vencido e decaído pela desobediência, reformar-se e conquistar a palma da vitória, e, por outro lado, por estar em poder do pecado, obter a salvação, o Filho, Verbo de Deus, operou ambas as coisas: ele, que era o Verbo de Deus, desceu de junto do Pai, encarnou-se, rebaixou-se até a morte e assim atuou perfeitamente a economia da nossa salvação.
[4] Exortando-nos a uma fé sem hesitações neste Filho, Paulo diz ainda: “Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? Isto é, para fazer descer a Cristo, ou quem descerá ao abismo? Isto é, para fazer Cristo levantar-se dentre os mortos”. E acrescenta: “Porque, se confessares com a tua boca que Jesus Cristo é Senhor e creres em teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo”.
[5] E indica o motivo pelo qual o Verbo de Deus fez isto, dizendo: “Com efeito, Cristo morreu e ressuscitou para ser o senhor dos mortos e dos vivos”. Novamente, escrevendo aos coríntios, diz: “Quanto a nós, anunciamos o Cristo Jesus crucificado. E acrescenta: O cálice da bênção que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo?”
[6] Ora, quem é aquele com o qual nos comunicamos por meio do alimento? Será o Cristo do alto, imaginado por esta gente, que se teria estendido até o Limite e formado a Mãe deles, ou não será antes o Emanuel, nascido da Virgem, que comeu manteiga e mel, de quem o profeta disse: “É homem e quem o conhecerá?”
[7] É este mesmo Cristo que foi anunciado por Paulo, quando diz: “Transmiti-vos, em primeiro lugar, que o Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras”. Está claro que Paulo não conheceu outro Cristo excetuando-se unicamente este que nasceu, que chama de homem, que padeceu, foi sepultado e ressuscitou.
[8] De fato, depois de ter dito: “Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos”, acrescenta, dando o motivo desta encarnação: “Visto que a morte veio por um homem, também por um homem vem a ressurreição dos mortos”. E onde quer que fale da paixão de nosso Senhor, da sua humanidade e sua morte, usa o nome de Cristo.
[9] Assim, por exemplo: “Não queiras, por causa da tua comida, causar a perda daquele por quem o Cristo morreu”; e ainda: “Agora, em Cristo, vós que uma vez estáveis longe, vos aproximastes, no sangue de Cristo”; e ainda: “O Cristo nos remiu da maldição da Lei, tornando-se por nós maldição, pois está escrito: Maldito todo aquele que é suspenso no madeiro”; e ainda: “E, assim, por causa da tua ciência perecerá o fraco, esse irmão pelo qual Cristo morreu!”
[10] Paulo mostra com estes textos que nunca um Cristo impassível desceu em Jesus, mas que Jesus, sendo o Cristo, sofreu por nós, adormeceu, ressuscitou, desceu e subiu, ele, o Filho de Deus feito filho do homem, como indica o seu próprio nome.
[11] O nome de Cristo, com efeito, indica alguém que ungiu, aquele que foi ungido e a própria unção: quem ungiu é o Pai, quem foi ungido é o Filho, que o foi no Espírito, que é a unção. Como diz o Verbo pela boca de Isaías: “O Espírito de Deus está sobre mim, porque me ungiu”, indicando ao mesmo tempo o Pai que ungiu, o Filho que foi ungido e a Unção que é o Espírito.
[12] O próprio Senhor indica claramente quem é o que padeceu. Tendo perguntado aos discípulos: “O que dizem que sou, eu, o Filho do homem?” e tendo Pedro respondido: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, o Senhor o louvou “porque não foram nem a carne, nem o sangue que lho revelaram, mas o Pai que está nos céus”, e manifestou que este Filho do homem é o Cristo, o Filho do Deus vivo.
[13] “Desde então, diz o evangelista, começou a expor aos seus discípulos que era necessário ir a Jerusalém, sofrer muito por parte dos sumos sacerdotes, ser condenado e crucificado e ressuscitar ao terceiro dia”. Assim, aquele que Pedro reconheceu como Cristo, e que o declarou bem-aventurado porque o Pai lhe revelara o Filho do Deus vivo, anunciava que devia sofrer muito e ser crucificado.
[14] Na mesma ocasião repreendeu Pedro porque partilhava a ideia que os homens tinham do Cristo e recusava a paixão e disse aos discípulos: “Se alguém quiser vir após mim, renegue a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser salvar a sua alma perdê-la-á e quem a perder por minha causa salvá-la-á”. Evidentemente Cristo dizia isto porque ele era o Salvador dos que, por tê-lo confessado, seriam condenados à morte e perderiam a vida.
[15] Se, porém, não devia sofrer, mas abandonar Jesus, por que exortava os discípulos a tomar a sua cruz e a seguir a ele que, segundo os hereges, não a tomaria e desertaria da economia da paixão?
[16] O que prova que o Cristo não falava do conhecimento de uma cruz do alto, como alguns têm a ousadia de dizer, e sim da paixão que ele deveria sofrer e que também os discípulos deveriam sofrer, está nestas palavras: “Quem quiser salvar a sua alma perdê-la-á e quem a perder salvá-la-á”.
[17] É por que os seus discípulos haveriam de sofrer por sua causa que diz aos judeus: “Eis que vos envio profetas, sábios e doutores e os matareis e os crucificareis”. E aos discípulos dizia: “Sereis levados diante de governadores e de reis por minha causa e sereis flagelados, mortos e perseguidos de cidade em cidade”.
[18] Ele sabia quais seriam perseguidos, quais flagelados e mortos por sua causa; por isso, não falava de outra cruz, mas da paixão que ele, primeiro, sofreria e da que sofreriam os seus discípulos, depois dele.
[19] A sua palavra era como a de quem quer infundir coragem: “Não tenhais medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes os que têm o poder de mandar o corpo e a alma à geena”, e convidar a perseverar na confissão dele.
[20] E prometia confessar diante de seu Pai os que confessariam o seu nome diante dos homens e renegar os que o renegariam e se envergonhar dos que teriam vergonha de confessá-lo. Contudo, alguns chegaram a tal ponto de temeridade que desprezam até os mártires e condenam os que morrem por ter confessado o Senhor, que suportam tudo o que foi predito pelo Senhor e procuram imitar-lhe a paixão, tornando-se testemunhas do Cristo paciente.
[21] Nós os entregamos aos próprios mártires, porque, quando se pedirá conta do sangue deles e receberão a glória, então será o Cristo que confundirá todos os que desprezaram o martírio deles.
[22] Também, pelas palavras que o Senhor disse na cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”, revela-se a longanimidade, a paciência, a misericórdia e a bondade de Cristo que, enquanto sofria, desculpava os que o maltratavam.
[23] Ele, o Verbo de Deus, que nos disse: “Amai os vossos inimigos e rezai pelos que vos odeiam”, foi o primeiro a praticar na cruz este mandamento, amando o gênero humano e rezando pelos que o faziam morrer.
[24] Se, ao contrário, alguém que admite a existência de dois seres distintos, estabelece comparação entre eles, verá que aquele que nas feridas, chagas e outras sevícias se mostrou benéfico e esquecido do mal feito contra ele, é bem melhor, mais paciente e bom do que o outro que se teria afastado sem sofrer nenhuma injustiça e nenhuma humilhação.
[25] O mesmo vale para os que dizem que ele sofreu só aparentemente. Com efeito, se não sofreu realmente, não se lhe deve nenhuma gratidão, porque não houve nenhuma paixão; e quando nós teremos que sofrer realmente, nos parecerá impostor a aconselhar que se ofereça a outra face a quem nos esbofeteia, quando ele não foi capaz de sofrer isto primeiro; e como enganou os homens de então, apresentando-se por aquilo que não era, engana também a nós, exortando-nos a suportar o que ele próprio não suportou.
[26] Seríamos superiores ao Mestre quando sofrermos e suportarmos o que ele não sofreu, nem suportou. Mas como nosso Senhor é o único e verdadeiro Mestre, o Filho de Deus, verdadeiramente bom, suportou o sofrimento, ele, o Verbo de Deus, feito Filho do homem.
[27] Ele lutou e venceu: era o homem que combatia pelos pais, pagando a desobediência pela obediência; amarrou o forte e libertou o fraco e deu a salvação à obra modelada por ele, destruindo o pecado. Porque o Senhor é cheio de misericórdia e compaixão e ama o gênero humano.
[28] Aproximou e reuniu, como dissemos, o homem a Deus. Se um homem não tivesse vencido o inimigo do homem a vitória não seria justa; por outro lado, se a salvação não tivesse vindo de Deus, não a teríamos de maneira segura; e se o homem não estivesse unido a Deus não poderia participar da incorruptibilidade.
[29] Era necessário, portanto, que o Mediador entre Deus e os homens, pelo parentesco entre as duas partes, restabelecesse a amizade e a concórdia, procurando que Deus acolhesse o homem e o homem se entregasse a Deus.
[30] De fato, como poderíamos participar da filiação adotiva de Deus se não tivéssemos recebido a comunhão com ele por meio do Filho, se o seu Verbo não tivesse entrado em comunhão conosco encarnando-se? E justamente por isso, passou por todas as idades da vida, conferindo a todos os homens a comunhão com Deus.
[31] Aqueles, portanto, que dizem que se manifestou só aparentemente, que não nasceu na carne, nem foi verdadeiro homem, estão ainda debaixo da antiga condenação, concedendo direitos ao pecado, porque, segundo eles, ainda não foi vencida a morte “que reinou desde Adão até Moisés, sequer nos que não tinham pecado por uma semelhança com a transgressão de Adão”.
[32] A Lei, que veio, por meio de Moisés, revelar o pecado como pecado, e tirar-lhe o império, apresentando-o não como rei, e sim como ladrão e homicida, ao mesmo tempo oprimiu o homem que trazia em si o pecado, apresentando-o como digno de morte.
[33] Mas a Lei, mesmo sendo espiritual, manifestou somente o pecado, porém não o suprimiu, porque o pecado não dominava sobre o Espírito, mas sobre o homem.
[34] Era preciso, portanto, que o que estava para eliminar o pecado e resgatar o homem, digno de morte, se tornasse exatamente o que era este homem reduzido à escravidão pelo pecado e mantido debaixo do poder da morte, para que o pecado fosse morto por um homem e assim o homem saísse da morte.
[35] Como pela desobediência de um só homem, que foi o primeiro e modelado da terra virgem, muitos foram constituídos pecadores e perderam a vida, assim pela obediência de um só homem, que foi o primeiro e nasceu da Virgem, muitos foram justificados e receberam a salvação.
[36] Portanto, o Verbo de Deus se fez carne, como diz Moisés: A obra de Deus é veraz. Ora, se ele não tivesse realmente assumido a carne, mas somente a aparência, a sua obra não seria veraz.
[37] Mas apareceu o que era na realidade: o Deus que recapitulava em si a modelagem antiga, o homem, para destruir o pecado, abolir a morte e vivificar o homem; por isso, a sua obra é veraz.

