[1] Além disso, os que dizem ser homem pura e simplesmente, gerado por José, permanecem na antiga escravidão da desobediência e morrem nela, porque ainda não unidos ao Verbo de Deus Pai, não recebem a liberdade por meio do Filho, como ele próprio diz: “Se o Filho vos emancipar, sereis verdadeiramente livres”. Ignorando o Emanuel, nascido da Virgem, são privados do seu dom, que é a vida eterna, e não recebendo o Verbo da incorruptibilidade, permanecem na carne mortal, devedores da morte, sem o antídoto da vida.
[2] É para estes que o Verbo fala, quando explica o dom que faz da sua graça: “Eu disse: todos vós sois deuses e filhos do Altíssimo; mas, como homens, morrereis”. Estas palavras são dirigidas aos que recusam o dom da adoção filial, desprezam este nascimento sem mancha que foi a encarnação do Verbo de Deus, privam o homem da sua elevação a Deus e manifestam ingratidão para com o Verbo de Deus, que se encarnou por eles.
[3] Este é o motivo pelo qual o Verbo de Deus se fez homem e o Filho de Deus Filho do homem: para que o homem, unindo-se ao Verbo de Deus e recebendo assim a adoção, se tornasse filho de Deus. Nunca poderíamos obter a incorrupção e a imortalidade a não ser unindo-nos à incorrupção e à imortalidade.
[4] E como poderíamos realizar esta união sem que antes a incorrupção e a imortalidade se tornassem o que somos, a fim de que o corruptível fosse absorvido pela incorrupção e o mortal pela imortalidade, e deste modo pudéssemos receber a adoção de filhos?
[5] Por isso, quem contará a sua geração? Embora seja homem, quem o reconhecerá? Aquele a quem o revelar o Pai que está nos céus, dando-lhe a entender que o Filho do homem que nasceu não pela vontade da carne, nem pela vontade do homem, é o Cristo, o Filho do Deus vivo.
[6] Já demonstramos pelas Escrituras que nenhum dentre os filhos de Adão é chamado Deus ou Senhor, no sentido absoluto da palavra; e que somente ele, à diferença de todos os homens de então, foi proclamado, na plena acepção do termo, Deus, Senhor, Rei eterno, Filho único e Verbo encarnado, por todos os profetas, pelos apóstolos e pelo próprio Espírito; é realidade que pode ser constatada por todos os que atingiram ainda que ínfima parcela da verdade.
[7] As Escrituras não dariam este testemunho se ele não fosse senão homem igual a todos os outros. Mas como só ele, entre todos, teve esta geração ilustre, que lhe vem do Pai Altíssimo, também foi ilustre o nascimento que lhe vem da Virgem, por isso as Escrituras lhe dão o testemunho desta dupla geração divina.
[8] Por um lado, ele é homem sem beleza, sujeito ao sofrimento, montado num burrinho, dessedentado com vinagre e fel, desprezado pelo povo, descido à região da morte; por outro, é o Senhor santo, o Conselheiro admirável, sobressaindo pela beleza, o Deus forte, que há de vir nas nuvens juiz universal. Tudo isso foi prenunciado pelas Escrituras a respeito dele.
[9] Era, ao mesmo tempo homem para poder ser tentado e Verbo para poder ser glorificado. A atividade do Verbo estava suspensa para que pudesse ser tentado, ultrajado, crucificado e morto; e o homem era absorvido quando o Verbo vencia, suportava o sofrimento, ressuscitava e era levado ao céu.
[10] É, portanto, o Filho de Deus nosso Senhor, Verbo do Pai e ao mesmo tempo Filho do homem, que de Maria, nascida de criaturas humanas e ela própria criatura humana, teve nascimento humano, tornando-se Filho do homem.
[11] Por isso, o próprio Senhor nos deu um sinal que se estende da mais profunda mansão dos mortos ao mais alto dos céus, sinal não pedido pelo homem, porque sequer poderia pensar que uma virgem, permanecendo virgem, pudesse conceber e dar à luz um filho, nem que este filho fosse o Deus conosco, que desceria ao mais baixo da terra, em busca da ovelha perdida, que era a obra que ele modelara; que subiria depois às alturas para apresentar e recomendar ao Pai o homem assim reencontrado.
[12] Ele se constituiu primícia da ressurreição, porque, como a cabeça ressuscitou dos mortos, assim devem ressuscitar os outros membros — isto é, todos os homens que serão encontrados na vida, passado o tempo da condenação devida à desobediência —, mantidos juntos por meio de articulações e junturas e fortalecidos pelo desenvolvimento produzido por Deus, tendo no corpo o seu lugar conveniente.
[13] São muitas as mansões, na casa do Pai, porque muitos são os membros do corpo.

