[1] Deus, portanto, usou de longanimidade diante da apostasia do homem, prevendo a vitória que lhe haveria de dar pelo Verbo. Constituindo-se a força na fraqueza, revelava-se então a benignidade de Deus e seu esplêndido poder. Como permitiu que Jonas fosse engolido pelo monstro marinho, não para desaparecer e perecer totalmente, e sim para que vomitado, fosse mais dócil a Deus e glorificasse mais aquele que lhe dava a salvação de maneira inesperada; e para que levasse os ninivitas ao firme arrependimento e à conversão ao Senhor que os livraria da morte, atemorizando-os com o sinal que se cumpria em Jonas.
[2] A Escritura, falando deles, diz assim: “E todos voltaram atrás da sua vida má e da iniqüidade de suas mãos, dizendo: Quem sabe se Deus se arrependerá e desviará de nós a sua cólera e assim não pereceremos?” Assim, desde o princípio, Deus permitiu que o homem fosse engolido pelo grande monstro, autor da transgressão, não para que desaparecesse e perecesse totalmente, e sim a fim de preparar o desígnio da salvação significada por Jonas, operada pelo Verbo para os que, como Jonas, pensam e confessam a respeito do Senhor: “Sou servo do Senhor e venero o Senhor, Deus do céu, que fez o mar e a terra firme”.
[3] Assim Deus quis que o homem, ao obter dele a salvação, de maneira inesperada, ressuscite dentre os mortos, glorifique a Deus e diga juntamente com Jonas: “Eu gritei ao Senhor meu Deus na minha tribulação e me escutou no seio do inferno”. E quer que o homem permaneça firme na glorificação de Deus e que o agradeça sem parar pela salvação que dele recebeu, de forma que nenhum homem se glorie diante do Senhor, e não aceite nenhum sentimento contrário em relação a Deus, como seria a consideração natural da incorruptibilidade que receberá, e que não abandone a verdade por causa da presunção, como se fosse naturalmente semelhante a Deus.
[4] Este orgulho, tornando-o ingrato para com seu Criador, impedia-o de ver o amor de que era objeto por parte de Deus, obscurecia-lhe a mente impedindo-o de ter pensamentos dignos de Deus e levava-o a comparar-se com Deus e a julgar-se-lhe igual.
[5] Foi, portanto, grande a bondade de Deus que permitiu ao homem passar por todas as experiências, conhecer a morte, chegar à ressurreição dos mortos, e, por sua experiência, ver de que mal foi libertado. Assim, poderá agradecer, para sempre, a Deus pelo dom da incorruptibilidade e o amará mais, porque aquele a quem mais foi perdoado mais ama; poderá conhecer que ele é mortal e fraco ao passo que Deus é imortal e poderoso ao ponto de conceder a imortalidade ao mortal e a eternidade ao temporário, como também conhecerá todas as outras obras prodigiosas que Deus realizou nele, e, instruído por elas, pense sobre Deus de modo digno de Deus.
[6] Com efeito, Deus é a glória do homem e o homem é o receptáculo da obra, de toda a sabedoria e do poder de Deus. Como o médico mostra o seu valor com os doentes, assim Deus com os homens. Por isso Paulo diz: “Deus encerrou todas as coisas na incredulidade para usar de misericórdia com todos”. E não fala dos Éões pneumáticos, mas do homem desobediente a Deus e privado da imortalidade, que, em seguida, alcançou misericórdia por obra do Filho de Deus e a filiação adotiva.
[7] Aquele que possui, sem orgulhosa jactância, o verdadeiro conceito da criatura e do Criador, que é Deus, superior a todos em potência, que a todos dá a existência, e permanece no seu amor, submetido e agradecido, receberá dele glória maior e progredirá até se tornar semelhante àquele que por ele morreu.
[8] Com efeito, ele veio ao mundo na semelhança da carne do pecado para condenar o pecado, e, condenado, expulsá-lo da carne, e, por outro lado, para chamar o homem a tornar-se semelhante a ele na imitação de Deus, para elevá-lo ao reino do Pai, e torná-lo capaz de ver a Deus e conhecer o Pai.
[9] Pois ele é o Verbo de Deus, que habitou no homem e se fez Filho do homem para habituar o homem a conhecer Deus e habituar Deus a habitar no homem, segundo o beneplácito do Pai.
[10] Este é o motivo pelo qual o próprio Senhor deu o Emanuel, nascido da Virgem, como sinal da nossa salvação, porque era o próprio Senhor que salvava os que não se podiam salvar sozinhos.
[11] É neste sentido que Paulo afirma a fraqueza do homem: “Sei que na minha carne não habita o bem”, indicando que o bem da nossa salvação não vem de nós, e sim de Deus. Ele diz ainda: “Que homem miserável eu sou! Quem me libertará deste corpo de morte?” E apresenta em seguida o Libertador: a graça de Jesus Cristo, nosso Senhor.
[12] A mesma coisa disse Isaías: “Confortai as mãos frouxas e robustecei os joelhos débeis. Coragem, pusilânimes; tomai ânimo e não temais; eis que o nosso Deus trará a vingança e as represálias. Deus mesmo virá e vos salvará”. Isto para indicar que seremos salvos pela ajuda de Deus e não por nós mesmos.
[13] Ainda: que aquele que nos devia salvar não seria simplesmente homem, nem ser sem carne — os anjos é que são sem carne —, profetizava-o, dizendo: “Não será ancião, nem anjo, mas o próprio Senhor que os salvará, porque os ama, terá piedade deles e os salvará”.
[14] E que seria homem verdadeiro e visível ao mesmo tempo que Verbo salvador, é ainda Isaías que o diz: “Eis, cidade de Sião, os teus olhos verão a nossa salvação”.
[15] E que não era simplesmente homem aquele que morria por nós, Isaías o diz: “O Senhor, o Santo de Israel, lembrou-se de seus mortos adormecidos na terra da sepultura e desceu para lhes anunciar a boa-nova da salvação com que os salvaria”.
[16] Que o Filho de Deus, que é Deus, viria da região que se encontra ao meio-dia da herança de Judá e que de Belém, onde nasceu o Senhor, se espalharia o seu louvor sobre toda a terra, di-lo o profeta Habacuc: “Deus virá do meio-dia, e o Santo do monte Efrém; a sua glória cobriu os céus e a terra está cheia de seu louvor; diante da sua face andará o Verbo e avançarão nos campos os seus pés”, afirmando assim claramente que é Deus, que virá de Belém e do monte Efrém que está dos lados do meio-dia da herança e que é homem, porque os seus pés, como diz, avançarão nos campos, e isso é marca própria do homem.

