[1] Foi, portanto, Deus que se fez homem, o próprio Senhor que nos salvou, ele próprio que nos deu o sinal da Virgem. Por isso não é verdadeira a interpretação de alguns que ousam traduzir assim a Escritura: “Eis que uma moça conceberá e dará à luz um filho”, como fizeram Teodocião de Éfeso e Áquila do Ponto, ambos prosélitos judeus; seguidos pelos ebionitas, que dizem que Jesus nasceu de José, destruindo assim, por aquilo que está em seu poder, esta grande economia de Deus e reduzindo a nada o testemunho dos profetas, que é o de Deus. Trata-se de profecia feita antes da deportação do povo para Babilônia, isto é, antes que os medos e os persas tomassem o poder e foi traduzida para o grego pelos próprios judeus muito tempo antes da vinda de nosso Senhor, para que não fique nenhuma suspeita de que traduziram assim para nos agradar. Com efeito, se tivessem sabido da nossa existência e que nos serviríamos do testemunho das Escrituras, não teriam hesitado em queimar com as suas próprias mãos as suas Escrituras que declaram abertamente que todas as outras nações participariam da vida, ao passo que os que se gloriam de pertencer à casa de Jacó e de ser o povo de Israel seriam deserdados da graça de Deus.
[2] Antes que os romanos estabelecessem o seu império, quando os macedônios mantinham ainda a Ásia em seu poder, Ptolomeu, filho de Lago, que havia fundado em Alexandria uma biblioteca, desejava enriquecê-la com os escritos de todos os homens, pediu aos judeus de Jerusalém uma tradução, em grego, das suas Escrituras.
[3] Eles, então, que ainda estavam submetidos aos macedônios, enviaram a Ptolomeu setenta anciãos, os mais competentes nas Escrituras e no conhecimento das duas línguas, para executar o trabalho que desejava. Ele, para os pôr à prova e mais, por medo de que concordassem entre si em falsear a verdade das Escrituras, na sua tradução, fê-los separar uns dos outros e mandou que todos traduzissem toda a Escritura; e fez assim com todos os livros.
[4] Quando se reuniram com Ptolomeu e confrontaram entre si as suas traduções, Deus foi glorificado e as Escrituras foram reconhecidas verdadeiramente divinas, porque todos, do início ao fim, exprimiram as mesmas coisas com as mesmas palavras, de forma que também os pagãos presentes reconheceram que as Escrituras foram traduzidas sob a inspiração de Deus.
[5] Aliás, não há que admirar por ter Deus agido desta forma, se se lembrar que, destruídas as Escrituras durante a escravidão do povo sob Nabucodonosor, quando, depois de setenta anos, no tempo de Artaxerxes, rei dos persas, os judeus voltaram à sua terra, Deus inspirou Esdras, sacerdote da tribo de Levi, a reconstruir de memória todas as palavras dos profetas anteriores e restituir ao povo a Lei dada por Moisés.
[6] As Escrituras, pelas quais Deus preparou e fundou a nossa fé em seu Filho, foram, pois, traduzidas com tanta fidelidade, pela graça de Deus, e conservadas, em toda a sua pureza, no Egito, onde se tornou grande a família de Jacó, depois de ter fugido da fome, em Canaã, e onde também foi salvo nosso Senhor ao escapar à perseguição de Herodes; e como esta tradução foi feita antes do advento de nosso Senhor à terra e antes do aparecimento dos cristãos — pois nosso Senhor nasceu por volta do quadragésimo primeiro ano do império de Augusto, e Ptolomeu, no tempo do qual foram traduzidas as Escrituras, é muito mais antigo — revelam-se verdadeiramente impudentes e temerários os que agora pretendem fazer outra tradução, quando nós os refutamos com estas mesmas Escrituras e os obrigamos a crer na vinda do Filho de Deus.
[7] É, portanto, sólida, não forçada, única verdadeira, a nossa fé que tem sua prova evidente nas Escrituras, traduzidas da forma que dissemos, e é isenta de toda interpolação a pregação da Igreja. Ora, os apóstolos, que são bastante anteriores a esta gente, estão de acordo com a tradução mencionada acima e a nossa versão concorda com a dos apóstolos. Pedro, João, Mateus, Paulo, todos os outros apóstolos e seus discípulos anunciaram as coisas profetizadas na forma em que estão contidas na tradução dos anciãos.
[8] Único e idêntico é, pois, o Espírito de Deus que nos profetas anunciou as características da vinda do Senhor e que nos anciãos traduziu bem as coisas profetizadas.
[9] Foi ainda ele que, pelos apóstolos, anunciou ter chegado a plenitude dos tempos da adoção filial, que o Reino dos céus estava próximo e que se encontrava dentro dos homens que criam no Emanuel nascido da Virgem.
[10] Assim eles testemunharam que antes que José morasse com Maria, enquanto era virgem, achou-se grávida pelo Espírito Santo, e que o anjo Gabriel lhe disse: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra, por isso o Santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus”; e que o anjo disse a José, em sonho: “Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: Eis que a Virgem conceberá”.
[11] Eis como os anciãos traduziram as palavras de Isaías: “O Senhor continuou a falar com Acaz, dizendo: Pede para ti ao Senhor teu Deus um sinal, quer no fundo da terra, quer no mais alto do céu. Acaz disse: Não pedirei tal, nem tentarei ao Senhor. Isaías disse: Ouvi, pois, casa de Davi, porventura não vos basta ser molestos aos homens, senão que também ousais sê-lo ao meu Deus? Pois, por isso o próprio Senhor vos dará este sinal: Uma Virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será Emanuel. Ele comerá manteiga e mel; antes de conhecer ou escolher o mal, escolherá o bem; porque antes que o menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem ele rechaçará o mal para escolher o bem”.
[12] Com estas palavras o Espírito Santo indicou exatamente a sua geração virginal e a sua natureza divina: Deus — é isto que significa o nome de Emanuel — e homem — o que é indicado pela frase “comerá manteiga e mel”, por chamá-lo “menino” e pelas palavras “antes de conhecer o bem e o mal”: sinais todos que caracterizam o homem e a criança. — E com as palavras: “rechaçará o mal para escolher o bem” exprime algo próprio de Deus.
[13] Isso para que as palavras “comerá manteiga e mel” não nos levem a ver nele somente um homem, e ao contrário, o nome de “Emanuel” não nos leve a supor um Deus não revestido de carne.
[14] Além disso, as palavras: “escutai, casa de Davi” significam que o Rei eterno que Deus prometeu suscitar a Davi do fruto de seu seio é o mesmo que nasceu da Virgem, descendente de Davi.
[15] Por isso prometeu um Rei que seria o fruto do seu seio, expressão que indica virgem grávida, e não o fruto de seus lombos, nem o fruto de sua virilidade, expressão que caracterizaria homem que gera e mulher que concebe por obra deste homem.
[16] Assim, nesta promessa, a Escritura exclui o poder gerador do homem, mais ainda, sequer o lembra, porque não devia ser efeito da vontade do homem, aquele que estava para nascer.
[17] Porém afirma vigorosamente que era fruto do seio para sublinhar a concepção do que devia nascer de Virgem. É o que afirma Isabel, repleta de Espírito Santo, dizendo a Maria: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu seio”; querendo o Espírito Santo indicar, para quem quiser entender, que a promessa feita por Deus a Davi, de suscitar um Rei, fruto de seu seio, foi cumprida quando a Virgem, isto é, Maria, deu à luz.
[18] Os que mudam o texto de Isaías “eis que uma moça conceberá em seu seio” para dizer que é filho de José, que mudem também o texto da promessa feita a Davi, a quem Deus prometeu suscitar, do fruto de seu seio, um poder, isto é, o reino de Cristo. Mas não entenderam, do contrário teriam mudado também este.
[19] Quanto à expressão de Isaías: “no fundo da terra ou no mais alto do céu”, ela significa que aquele que desceu é o mesmo que subiu; e com as palavras: “o próprio Senhor vos dará um sinal” sublinha o caráter inesperado de sua geração que nunca teria acontecido se o Senhor, o Deus de todas as coisas, não a tivesse dado como sinal para a casa de Davi.
[20] O que haveria de especial e como poderia ser sinal o fato de moça conceber de homem e dar à luz? É coisa comum a todas as mulheres que se tornam mães. Mas como o inesperado era a salvação que se devia realizar para os homens, pelo socorro de Deus, inesperado também devia ser uma Virgem dar à luz filho, como sinal de Deus e não por obra de homem.
[21] Por isso, também Daniel, ao prever a sua vinda, falava de pedra que se desprendeu sem a intervenção de mão de homem e que veio a este mundo.
[22] Com efeito, é isto que significa “sem a intervenção de mão de homem”; a sua vinda ao mundo se deu sem o trabalho de mãos humanas, como o destes canteiros que lavram as pedras, isto é, sem a ação de José, visto que somente Maria haveria de cooperar à economia; esta pedra se desprende da terra, mas pelo poder e pela arte de Deus.
[23] Por isso Isaías diz: “Assim fala o Senhor: eis que porei como fundamento em Sião uma pedra preciosa, escolhida, angular, ilustre, para que entendamos que a sua vinda não se deve à vontade do homem, e sim à de Deus”.
[24] Por isso Moisés, com gesto simbólico e profético, lançou ao chão a verga, para que, encarnando-se, vencesse e engolisse toda a prevaricação dos egípcios que se levantava contra a economia de Deus e para que os próprios egípcios testemunhassem que é o dedo de Deus que opera a salvação do povo e não filho de José.
[25] Porque se fosse filho de José como poderia ser superior a Salomão ou a Jonas ou a Davi, sendo da linhagem e filho deles? E por que teria chamado bem-aventurado a Pedro, que o reconhecia como o Filho do Deus vivo?
[26] Além do mais, se era filho de José, não poderia ser nem o rei, nem o herdeiro de quem fala Jeremias.
[27] De fato, José aparece como filho de Joaquim e de Jeconias, segundo aparece na genealogia apresentada por Mateus.
[28] Ora, Jeconias e todos os seus descendentes foram excluídos do reino, como diz Jeremias: “Pela minha vida, diz o Senhor, ainda que Jeconias, filho de Joaquim, fosse anel na minha mão direita, eu o arrancaria dela e o entregaria na mão dos que procuram a sua vida”.
[29] E mais: Jeconias foi desonrado como vaso de que não se necessita, porque foi expulsado para terra que não conhecia. Terra, escuta a palavra do Senhor: Inscreve este homem como rejeitado, porque nenhum da sua descendência engrandecerá tanto que possa sentar-se no trono de Davi e tornar-se príncipe em Judá.
[30] Deus diz ainda acerca de Joaquim, seu pai: “Portanto, isto diz o Senhor contra Joaquim, rei de Judá: Não sairá dele quem se sente no trono de Davi; o seu cadáver será exposto ao ardor do dia e à geada da noite. Castigá-los-ei a ele, à sua linhagem, e farei cair sobre eles, sobre os habitantes de Jerusalém e sobre a terra de Judá todo o mal com que os ameacei”.
[31] Portanto, os que dizem ser gerado por José e põem nele a sua esperança, excluem-se a si mesmos do reino, caindo sob a maldição e o castigo que atingiram Jeconias e a sua descendência.
[32] Com efeito, estas coisas foram ditas a Jeconias porque o Espírito já sabia o que um dia diriam estes falsos doutores, para que entendessem que não nasceria do seio dele, isto é, de José, mas, segundo a promessa de Deus, o Rei eterno nasceria do seio de Davi e recapitularia em si todas as coisas.
[33] Como pela desobediência de um só homem o pecado entrou no mundo e pelo pecado a morte, assim pela obediência de um só homem foi introduzida a justiça que traz como fruto a vida ao homem morto.
[34] E como a substância de Adão, o primeiro homem plasmado, foi tirada da terra simples e ainda virgem — “Deus ainda não fizera chover e o homem ainda não a trabalhara” — e foi modelado pela mão de Deus, isto é, pelo Verbo de Deus — com efeito, “todas as coisas foram feitas por ele”, e o “Senhor tomou do lodo da terra e modelou o homem” —, assim o Verbo que recapitula em si Adão, recebeu de Maria, ainda virgem, a geração da recapitulação de Adão.
[35] Se o primeiro Adão tivesse homem por pai e tivesse nascido de sêmen viril teriam razão em dizer que também o segundo Adão foi gerado por José.
[36] Mas se o primeiro Adão foi tirado da terra e modelado pelo Verbo de Deus, era necessário que este mesmo Verbo, efetuando em si a recapitulação de Adão, tivesse geração semelhante à dele.
[37] E, então, por que Deus não tomou outra vez do limo da terra, mas quis que esta modelagem fosse feita por Maria? Para que não houvesse segunda obra modelada e para que não fosse obra modelada diferente da que era salvada, mas, conservando a semelhança, fosse aquela primeira a ser recapitulada.

