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[1] Portanto, foi necessário que o Senhor, que veio à procura da ovelha perdida e para recapitular economia tão grande, procurando a obra que ele próprio plasmara, salvasse também o homem que ele fizera à sua imagem e semelhança, isto é, Adão, encerrando os tempos da condenação, fixados pelo Pai, no seu poder, por causa da desobediência, porque toda a economia da salvação do homem se desenvolveu segundo o beneplácito do Pai, para que Deus não fosse vencido nem fosse anulada a sua arte.

[2] Com efeito, se este homem, que Deus criara para a vida, a tivesse perdido pelo engano da serpente sedutora, sem esperança de recuperá-la, e se visse lançado definitivamente na morte, Deus seria vencido e a malícia da serpente levaria a melhor sobre a vontade de Deus.

[3] Mas, sendo Deus invencível e longânime, começou a usar de longanimidade na provação de todos os homens e na sua correção, como já dissemos, e por obra do segundo homem, amarrou o forte, apossou-se de todos os seus vasos e destruiu a morte, devolvendo a vida ao homem que fora morto.

[4] Adão fora o primeiro vaso a cair em poder do forte, que o retinha em seu poder, por tê-lo injustamente precipitado na transgressão, e, com o pretexto de imortalidade, lhe dera a morte; com efeito, prometendo-lhes que seriam semelhantes a deuses, o que estava absolutamente fora de seu poder, causou-lhes a morte.

[5] Por isso justamente foi de novo encarcerado o que levara o homem ao cárcere e assim foi solto o vínculo da condenação do homem que fora aprisionado.

[6] Por outros termos, trata-se de Adão, o homem modelado em primeiro lugar, acerca do qual a Escritura refere que Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Nós todos derivamos dele e por causa disso herdamos o seu nome.

[7] Ora, se o homem foi salvo, também salvo deve ser o homem que foi modelado em primeiro lugar. De fato, seria por demais irracional dizer que não é libertado pelo vencedor do inimigo quem diretamente foi ferido pelo mesmo inimigo e que foi o primeiro a experimentar a escravidão, ao passo que seriam libertados os filhos gerados por ele na mesma escravidão.

[8] Nem pareceria verdadeiramente vencido o inimigo se ficassem com ele os antigos despojos. Seria como se os inimigos, depois da vitória, levassem prisioneiros os vencidos e os retivessem na escravidão por bastante tempo para ter filhos.

[9] Ora, se alguém, tendo compaixão destes escravos, combatesse e vencesse os inimigos, não se comportaria com justiça libertando somente os filhos dos escravos do poder dos que reduziram os pais à escravidão, deixando estes, aos quais foi imposta a escravidão e em favor dos quais se insurgiram para a vingança, sujeitos aos inimigos.

[10] É coisa boa que os filhos obtenham a liberdade por meio da vingança feita em favor dos seus pais, mas também não devem ser abandonados os próprios pais que sofreram a escravidão. Mas Deus não é fraco, nem injusto, e veio em socorro ao homem e lhe restituiu a liberdade.

[11] Por isso, no início, quando da transgressão de Adão, como refere a Escritura, Deus não amaldiçoou Adão, e sim a terra que ele trabalharia.

[12] Como diz um dos Anciãos: Deus transferiu sua maldição à terra para que não ficasse no homem. Como pena da transgressão, porém, o homem foi condenado ao penoso trabalho da terra, a comer o seu pão à custa do suor da sua fronte e a voltar àquela terra da qual fora tirado.

[13] À mulher, por sua vez, foram reservados as penas, os cansaços, os gemidos e as dores do parto e do serviço sob o poder de seu marido. De tal forma que, não sendo amaldiçoados por Deus, não perecessem de maneira definitiva, e, por outro lado, não ficando impunes, não desprezassem a Deus.

[14] A maldição, porém, recaiu sobre a serpente que os seduzira: E Deus disse à serpente: “Por ter feito isso, maldita és entre todos os animais domésticos e todas as feras da terra”.

[15] É a mesma maldição que o Senhor, no Evangelho, lança contra os que estiverem à sua esquerda: “Ide, malditos, ao fogo eterno, que meu Pai preparou para o diabo e os seus anjos”, indicando que o fogo eterno não foi preparado propriamente para o homem, e sim para os que seduziu e fez o homem pecar e que é o iniciador da apostasia e para os anjos que se tornaram apóstatas como ele.

[16] É o mesmo fogo que, com toda justiça, haverão de suportar os que, impenitentes e obstinados como os anjos, perseverarão nas obras do mal.

[17] Da mesma forma que Caim, o qual, depois de ter recebido de Deus o conselho de se acalmar porque não partilhava corretamente a comunhão com seu irmão, imaginando poder dominá-lo com inveja e malícia, longe de se acalmar acrescentou pecado a pecado, manifestando as suas disposições pelos seus atos.

[18] Executou o que pensara: dominou e matou o irmão, submetendo Deus o justo ao injusto para que a justiça daquele se manifestasse no que sofria e a injustiça deste fosse revelada pela ação que cometeu.

[19] E sequer assim se acalmou e desistiu do mal feito. Como Deus lhe perguntasse onde estava o seu irmão, respondeu: “Não sei, por acaso sou o guarda de meu irmão?”, agravando e multiplicando a sua culpa com esta resposta.

[20] Porque, se era mal matar o irmão, era mal muito maior responder com esta audácia e irreverência a Deus, que conhece todas as coisas, como se o pudesse enganar! Por isso, ele também carregou a maldição por transferir de si o pecado, faltando de respeito a Deus e por não se envergonhar do seu fratricídio.

[21] Quanto a Adão não aconteceu nada disso, antes, pelo contrário. Seduzido por outro a pretexto de imortalidade, foi logo tomado pelo temor e se escondeu, não para fugir de Deus, mas cheio de confusão por ter transgredido o seu mandamento e por se julgar indigno de estar na sua presença e de conversar com ele.

[22] Ora, “o temor de Deus é princípio de inteligência e a inteligência” da transgressão leva à penitência e a quem se arrepende Deus concede a sua benignidade.

[23] De fato, Adão manifesta o seu arrependimento cobrindo-se com cinto de folhas de figueira quando havia muitas outras espécies de folhas muito menos incômodas para o seu corpo, mas ele, tomado pelo temor de Deus, se fez uma veste correspondente à desobediência; para reprimir o ímpeto petulante da carne, por ter perdido o espírito ingênuo e infantil e o seu pensamento se ter desviado para o mal, revestiu a si mesmo e sua mulher com freio de continência, esperando com temor a chegada de Deus, como que a dizer: desde que perdi com a desobediência a veste recebida pelo Espírito de santidade, reconheço-me merecedor desta veste que não traz nenhuma satisfação e até pica e arranha o corpo.

[24] E, sem dúvida, teriam trazido para sempre aquela indumentária para se humilhar, se o Senhor, que é misericordioso, não os tivesse revestido com túnicas de pele em lugar das folhas de figueira.

[25] Por isso Deus interroga-os para que a acusação recaia sobre a mulher; em seguida interroga esta para que desvie a acusação para a serpente. De fato, ela disse o que tinha acontecido: “A serpente me seduziu e eu comi”.

[26] Deus, porém, não interroga a serpente, pois sabia que era a instigadora da transgressão e lançou primeiramente sobre ela a maldição e somente em seguida aplica o castigo ao homem; pois Deus odiou aquele que seduziu o homem, enquanto lentamente e aos poucos, teve compaixão do homem que fora seduzido.

[27] Eis por que o afastou do paraíso e o levou para longe da árvore da vida, não por causa do ciúme da árvore da vida, como alguns têm a ousadia de afirmar, mas por compaixão do homem, para que não ficasse para sempre culpado e para que o pecado, que estava nele, não fosse imortal e o mal não fosse sem fim e incurável.

[28] Parou, portanto, a transgressão, interpondo a morte e fazendo cessar o pecado, estabelecendo-lhe um limite na dissolução da carne na terra, para que, cessando de vez de viver no pecado e morrendo para ele, começasse a viver para Deus.

[29] Por isso Deus estabeleceu a inimizade entre a serpente e a mulher com a sua descendência, para que se espreitassem mutuamente: uma seria mordida ao calcanhar, mas capaz de pisar a cabeça do inimigo; a outra teria mordido, matado e impedido a caminhada do homem até a vinda do descendente destinado a pisar-lhe a cabeça, o filho de Maria, de quem o profeta diz: “Sobre a áspide e o basilisco andarás e calcarás aos pés o leão e o dragão”.

[30] Isto quer dizer que o pecado que se levantava e se desenvolvia contra o homem tirando-lhe a vida, seria destruído e com ele o império da morte, e seria pisado pela descendência da mulher; que o leão, isto é, o Anticristo que assalta o homem, nos últimos tempos, aquele dragão, a antiga serpente, será acorrentado e submetido ao poder do homem, o vencido de então, que lhe esmagará todo o poder.

[31] Adão fora vencido e privado de toda vida; por isso, sendo vencido, por sua vez, o inimigo, Adão recebeu a vida, porque será vencida a morte, o último inimigo, que antes retinha o homem em seu poder.

[32] Então, libertado o homem, “realizar-se-á o que está escrito: a morte foi absorvida na vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” O que não se poderia dizer legitimamente se não fosse libertado também aquele que foi o primeiro a ser dominado pela morte, pois a destruição da morte supõe a salvação dele e a morte foi destruída enquanto o Senhor restituiu a vida ao homem, isto é, a Adão.

[33] Mentem, portanto, todos os que negam a salvação de Adão, e excluem-se a si mesmos e para sempre da vida, pois não crêem que a ovelha perdida foi reencontrada.

[34] Ora, se ela não foi encontrada, ainda estão em poder da perdição todas as gerações humanas. E mentiroso foi Taciano, o primeiro a introduzir esta doutrina, ou melhor, esta ignorância, esta cegueira.

[35] Transformado em conexão de todas as heresias, como demonstramos, ainda foi capaz de inventar isso de sua cabeça, de forma que acrescentando alguma coisa mais que os outros, com palavras vazias pudesse ter ouvintes vazios de fé diante dos quais passar por mestre.

[36] Com essa finalidade procura usar palavras como estas, muito frequentes em Paulo: “Nós todos morremos em Adão”, mas ignorava que “onde abundou o pecado, superabundou a graça”.

[37] Esclarecido isso, envergonhem-se todos os seus seguidores que se lançam contra Adão como se tivessem muito a ganhar com a sua condenação, quando isso não lhes traz vantagem alguma!

[38] É como a serpente, que nada ganhou ao seduzir o homem, e até se revelou transgressora, encontrando no homem o início e a matéria da sua apostasia, sem conseguir vencer a Deus.

[39] Assim, os que negam a salvação de Adão nada têm a ganhar, tornam-se a si mesmos hereges e apóstatas da verdade, e se revelam advogados da serpente e da morte.

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