[1] Apresentando todos os que introduzem doutrinas ímpias sobre Deus que nos criou e modelou, que criou este mundo, sobre o qual não existe outro Deus, e refutando, com seus próprios argumentos, os que ensinam o falso sobre a natureza de nosso Senhor e a economia que atuou em prol do homem, sua criatura, demonstramos, ao mesmo tempo, a constante identidade da pregação da Igreja, em todo o mundo, da doutrina à qual dão testemunho os profetas, os apóstolos e todos os discípulos.
[2] Foi isso que mostramos, englobando o princípio, o meio e o fim, isto é, a totalidade da economia de Deus e da sua ação infalivelmente ordenada à salvação do homem e a estabelecer a nossa fé.
[3] E nós guardamos fielmente, com cuidado, pela ação do Espírito de Deus, esta fé que recebemos da Igreja, como depósito de grande valor em vaso precioso, que se renova e renova o próprio vaso que a contém.
[4] Este dom de Deus foi confiado à Igreja, como o sopro de vida inspirado na obra modelada, para que sejam vivificados todos os membros que o recebem.
[5] É nela também que foi depositada a comunhão com o Cristo, isto é, o Espírito Santo, penhor de incorrupção, confirmação da nossa fé e escada para subir a Deus.
[6] Com efeito, “Deus estabeleceu apóstolos, profetas e doutores na Igreja”, e todas as outras obras do Espírito, das quais não participam todos os que não acorrem à Igreja, privando-se a si mesmos da vida, por causa de suas falsas doutrinas e péssima conduta.
[7] Onde está a Igreja, aí está o Espírito de Deus, e onde está o Espírito de Deus ali está a Igreja e toda a graça.
[8] E o Espírito é Verdade. Por isso os que se afastam dele e não se alimentam para a vida aos seios da Mãe, não recebem nada da fonte puríssima que procede do corpo de Cristo, mas cavam para si buracos na terra como cisternas fendidas e bebem a água pútrida de lamaçal; fogem da Igreja por medo de serem desmascarados e rejeitam o Espírito para não serem instruídos.
[9] Tornados estranhos à verdade são condenados a revolver-se em todo erro, agitados pelas ondas, mudando os seus pensamentos sobre as mesmas coisas, segundo os tempos, sem nunca ter uma opinião estável, porque preferem ser sofistas de palavras a ser discípulos da verdade.
[10] O seu fundamento não é a única rocha, mas a areia composta de numerosas pedras.
[11] Por isso, fabricam para si muitos deuses, e têm sempre a desculpa de procurar, pobres cegos, sem nunca conseguir encontrar, e não sem motivo, porque blasfemam o seu Criador, isto é, o verdadeiro Deus que dá a graça de encontrar, pois pensam ter encontrado acima dele outro Deus, outro Pleroma, outra economia.
[12] Por isso não brilha sobre eles a luz de Deus porque o injuriaram e desprezaram, julgando-o uma nulidade, porque no seu amor e na sua superabundante bondade se deu a conhecer aos homens.
[13] Ele revelou não a sua grandeza nem a sua natureza íntima, visto que nunca ninguém o mediu ou o tocou, mas levando-nos a entender que quem fez e plasmou os homens, inspirando neles o sopro de vida, que nos sustenta por meio da criação, que tudo consolida pela obra do seu Verbo e tudo unifica com a sua Sabedoria, é o único verdadeiro Deus.
[14] Estes, porém, sonham um Deus superior a este, que não existe, e julgam ter encontrado um deus grande que ninguém pode conhecer, que não comunica com o gênero humano nem se interessa pelas coisas terrenas; e assim acabaram por encontrar o deus de Epicuro que não é útil para si, nem para os outros, isto é, um deus sem providência.

