[1] Deus, porém, cuida de todas as coisas e por isso dá conselhos, e dando conselhos, está presente aos que cuidam da própria conduta. É, portanto, necessário que as coisas beneficiadas e governadas conheçam quem as dirige, pelo menos as que não são irracionais nem frívolas e se apercebam desta Providência de Deus. Por isso, alguns pagãos, que menos serviram aos prazeres ilícitos e não se deixaram levar por tantas superstições idolátricas, por pouco que fossem sensíveis à sua providência, chegaram a reconhecer que o Criador deste universo é o Pai que cuida de todas as coisas e administra o nosso mundo.
[2] Além disso, para negar ao Pai o poder de repreender e de julgar, pensando não ser isso digno de Deus, e convencidos de ter encontrado um deus sem cólera e bom, distinguem um deus que julga e um deus que salva, sem perceber que assim privam os dois de inteligência e de justiça. Com efeito, se o deus que julga não é ao mesmo tempo bom para perdoar os que deve perdoar e repreender os que o merecem, não pode ser tido por juiz justo e sábio; mas se for somente bom e não discerne as pessoas que quer agraciar com sua bondade, será alienado da justiça e da bondade e a sua própria bondade se mostrará impotente, por não salvar todos os homens, visto que se exerce sem julgamento.
[3] Marcião, portanto, que distingue dois deuses, um bom e o outro juiz, nega a ambos a divindade. Se o deus juiz não é bom não pode ser deus porque lhe falta a bondade; e se o deus bom não é juiz, terá a mesma sorte do primeiro e não poderá ser reconhecido por deus. E como podem chamar sábio o Pai de todas as coisas se não lhe atribuem também o poder de julgar? Se é sábio, distingue, e o distinguir supõe o juízo e o juízo a justiça para agir justamente; a justiça provoca o juízo que, feito com justiça, se liga à sabedoria; o Pai supera em sabedoria toda sabedoria humana e angélica, porque é o Senhor, o justo Juiz, superior a todos; mas é também misericordioso, bom e paciente e salva os que convém. De forma que não lhe falta a bondade por causa da justiça, nem sua sabedoria é diminuída pelo fato de salvar os que devem ser salvos e condenar quem justamente deve ser condenado; e a própria condenação não é cruel, porque precedida e prevenida pela bondade.
[4] Assim, Deus, que com bondade, faz o seu sol levantar para todos e faz chover sobre os justos e os injustos, julgará todos os que receberam de modo igual da sua bondade, porém não se comportaram de maneira condigna ao dom recebido, mas entregues aos prazeres e às paixões carnais, contrariam a sua bondade e até blasfemam quem os cumulou de benefícios.
[5] Bem mais religioso do que eles parece Platão, que reconheceu um Deus, ao mesmo tempo justo e bom, com poder sobre todos e que pronuncia pessoalmente o julgamento. Ele diz: “Segundo o dito antigo, Deus, possuindo o princípio, o meio e o fim de todas as coisas existentes, vai reto a seu fim, como é de sua natureza; e é sempre acompanhado pela justiça que castiga as infrações à lei divina”. E afirma que o Autor e Criador deste universo é um ser bom: “Naquele que é bom nunca nasceu a inveja de nada”. E estabelece como princípio e causa da criação a bondade de Deus e não a ignorância, nem um Éon desgarrado ou fruto de degradação, nem uma Mãe chorosa e queixosa, nem outro Deus ou outro Pai.
[6] Justamente a Mãe chora sobre os inventores de semelhantes fábulas, porque suas mentiras recaíram justamente sobre suas cabeças. Com efeito, a Mãe está fora do Pleroma, isto é, do conhecimento de Deus e a soma de seus rebentos não foi senão aborto sem forma, nem figura, porque não sabe nada da verdade. Ela caiu no vazio e na sombra e assim a doutrina deles não é senão vazio e trevas. O Limite não permitiu a ela entrar no Pleroma e o Espírito não recebe a eles no refrigério, porque o Pai deles, ao gerar a ignorância, produziu neles paixões de morte. Isto não são calúnias, pois são eles que afirmam, ensinam e se gloriam destas coisas; orgulham-se eles de sua Mãe, que dizem gerada sem Pai, isto é, sem Deus, mulher de mulher, isto é, do erro a corrupção.
[7] Quanto a nós, rezamos para que não permaneçam na fossa que cavaram para si mesmos, se separem de tal Mãe, saiam do Abismo, se afastem do vazio, abandonem as trevas, sejam gerados como filhos legítimos, convertendo-se à Igreja de Deus, o Cristo seja formado neles, conheçam o Criador e o Autor deste universo como único verdadeiro Deus, Senhor de todas as coisas. Esta é a nossa oração para eles e com isso os amamos realmente muito mais do que eles julgam amar a si mesmos. O nosso amor, sendo verdadeiro, lhes é proveitoso se o aceitarem; parece-se a remédio doloroso que faz desaparecer a carne inútil e supérflua da ferida: expele-lhes o orgulho e a presunção. Por isso não nos cansamos e continuaremos a estender-lhes as mãos.
[8] Continuaremos sobre este argumento no livro seguinte, onde aduziremos as palavras do Senhor, na esperança de convencer alguns deles, por meio da própria doutrina de Cristo, a deixar o erro e a renunciar a esta blasfêmia proferida contra o Criador, que é o único Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

