[1] Sendo as nossas provas tão fortes, não é necessário procurar noutras pessoas aquela verdade que facilmente podemos encontrar na Igreja, porque os apóstolos trouxeram, como num rico celeiro, tudo o que pertence à verdade, a fim de que cada um que o deseje, encontre aí a bebida da vida.
[2] É ela definitivamente o caminho de acesso à vida e todos os outros são assaltantes e ladrões que é mister evitar. Por outro lado, deve-se amar com zelo extremo o que vem da Igreja e guardar a tradição da verdade.
[3] Ora, se surgisse alguma controvérsia sobre questões de mínima importância, não se deveria recorrer a Igrejas mais antigas, onde viveram os apóstolos, para saber delas, sobre a questão em causa, o que é líquido e certo?
[4] E se os apóstolos não nos tivessem deixado as Escrituras, não se deveria seguir a ordem da tradição que transmitiram àqueles aos quais confiavam as Igrejas?
[5] Muitos povos bárbaros que crêem em Cristo se atêm a esta maneira de proceder; sem papel nem tinta, levam a salvação escrita em seus corações pelo Espírito, guardam escrupulosamente a antiga tradição, crêem num só Deus, Criador do céu e da terra e de tudo o que está neles e em Jesus Cristo, Filho de Deus, o qual, pela sua imensa caridade para com os homens, a obra por ele modelada, submeteu-se à concepção da Virgem para unir por seu meio o homem a Deus.
[6] Padeceu sob Pôncio Pilatos, ressuscitou, foi assunto na glória e, na glória, virá como Salvador dos que se salvarão e Juiz dos que serão julgados e enviará ao fogo eterno os deformadores da verdade e os que desprezam seu Pai e sua vinda.
[7] Os iletrados que aceitaram esta fé são uns bárbaros quanto a nossa língua, mas, no que se refere ao pensamento, aos usos e costumes, são, pela fé, sumamente sábios e agradáveis a Deus e vivem na completa justiça, pureza e sabedoria.
[8] E se alguém, falando na língua deles, lhes anunciasse as invenções dos hereges, logo tapariam os ouvidos e fugiriam bem longe para sequer escutar esses discursos blasfemos.
[9] Assim, graças à antiga tradição dos apóstolos, não admitem absolutamente se possa pensar em nenhuma das invenções mentirosas dos hereges.
[10] O fato é que entre os hereges nunca houve agrupamento nem ensinamento devidamente instituído.
[11] Antes de Valentim não houve os discípulos de Valentim; antes de Marcião não houve os discípulos de Marcião, nem algum dos sistemas perversos, que catalogamos previamente, antes que aparecessem esses iniciadores e inventores de perversidades.
[12] Com efeito, Valentim foi a Roma no pontificado de Higino, teve o sucesso maior no de Pio e ficou aí até Aniceto.
[13] Cerdão, predecessor de Marcião, apareceu no tempo de Higino, que foi o oitavo bispo, ia muitas vezes à igreja e fazia penitência pública, mas acabou da mesma maneira: ora ensinando secretamente a sua heresia, ora fazendo novamente penitência dos erros de que era acusado, afastando-se, depois, definitivamente da comunidade dos irmãos.
[14] Marcião, que lhe sucedeu, atingiu o seu apogeu no tempo de Aniceto, que ocupou o décimo lugar no episcopado.
[15] Todos os outros, que são chamados gnósticos, têm sua origem em Menandro, discípulo de Simão, como mostramos; cada um, conforme a teoria adotada, se tornou presbítero e bispo do grupo que o seguia.
[16] Todos eles, porém, se encaminharam para a apostasia, em tempo bastante recente, quando os tempos da Igreja chegaram aos seus ambientes.

